Documentários tradicionais e que se fazem de entrevistas alternadas com imagens de arquivo ou de preenchimento sobre o tema normalmente resultam em experiências repetitivas, monótonas e desinteressantes. Mas como a regra principal do cinema é: não tem regra. Salão de baile, um doc que pode ser descrito exatamente dessa forma, é um filme divertido, energizante e cheio de uma vida que vem muito da consciência de Juru e Vitã cineastas responsáveis, de que tem muito a ser dito sobre a cultura ballroom. O que de alguma forma equilibra as coisas.
Os salões de baile, que estão há relativamente pouco tempo no Rio e que trazem consigo uma bagagem de 40 anos nos EUA, se transformaram quando chegaram aqui. Evoluídos, repaginados, ressignificados para a nossa realidade. Rejeitando e se integrando a uma cultura branca de drag. Questionando a binariedade. Se dividindo em facções. Em famílias. Em casas. Que se amam e se odeiam e se aliam. E que existem em um caos colorido para o qual o filme nunca “passa pano”.
O ballroom é como a UPA (*Unidade de Pronto Atendimento, do SUS), diz uma personagem em determinado momento. “Às vezes você chega lá mal e sai bem; às vezes entra machucado e sai machucado; às vezes entra bem e sai pior”.
Coisa que resume o espírito de um filme que não tem intenção de se aprofundar muito em detalhes sociopolíticos. Que nunca vai cair na tentação de botar na boca de alguém acadêmico ou de fora o que pode ser dito e explicado por quem vive aquilo. Feito de relatos múltiplos que estão sempre dispostes a contar causos. A falar sobre suas experiências. A deixar claro que não é pra iniciantes. Entrando sem muito esforço em tudo que a cultura representa.
Desde os aspectos artísticos que são os mais artificiais. Afinal, o núcleo duro desse mundo são as competições de danças e de expressão. Até o que vem junto disso. A carga de sexo e gênero. De raça e classe. Do como cada performance é uma oportunidade de articular uma vivência. Do como as categorias separam as pessoas pelo jeito que elas preferem se apresentar para o mundo. De como o batekoo difere do voguing, que difere do old way, que difere do new way. Que formam um mosaico de inconstância.
Em um mundo que é preso por regras e por conceitos que se esforçam para permanecerem imutáveis, o filme captura uma efemeridade.
Pessoas que mudam. Que fluem. Que têm identidade que nem se encaixam direito na sigla – Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Queer, Intersexo, Assexual, Pansexual, Não binárie – quem dirá nas identidades conservadoras que forçam ainda menos caminhos.
Elus mudam de nome, de posição, de família. Um detalhe que é engraçado e que muito simbólico na representação disso é o aviso que vem nos créditos. “Nomes atualizados em outubro de 2013” Porque não vai demorar muito, os nomes vão ganhando títulos e mudando. Pioneer. Mother. Etc.
Tudo vem naturalmente para uma obra que nem almeja esse tipo de coisa mas que é marcante. Enquanto na forma, ele é muito submisso aos seus objetivos de se tornar uma espécie de enciclopédia do ballroom. Estruturando o filme como uma explicação de termos, expressões e verbetes. Explanados um a um por quem faz parte desse mundinho.
O que pode até ser repetitivo e imperfeito para quem já conhece um pouco, mas que funciona também pelos lados das piadas internas como os shades na Madonna que se apropriou de muito disso nos anos 1990. Além de deixar aparecerem várias arestas e fofocas contadas pela metade que não só não atrapalham o filme como solidificam essa impressão de que o filme só arranha uma superfície de tudo o que o ballroom é. E o filme sabe disso.
Por isso ele não só chega ao seu objetivo. Costurando essa explicação com a vitalidade das danças e da performance feita para o documentário. Mas ele funciona dentro da lógica tradicional. Não porque quer dizer algo, mas justamente porque tem algo a ser dito.













