Em “Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria“, não vemos o rosto da menina. Ela é só uma presença fora-de-quadro, uma voz com quem sua mãe, interpretada por Rose Byrne, interage. O efeito é enervante: a filhinha é pintada menos como uma criança e mais como uma assombração, um encosto.
O que nós vemos reiteradamente, no entanto, é o rosto gigantesco de Rose Byrne, em close-ups que registram cada detalhe dos seus poros, cada imperfeição da pele. Todo o espectro de bad vibes maternais, da ansiedade à frustração passando pela raiva mortal, aparece naquele rosto. Algo no modo como ele é filmado traz à mente a forma como Cassavetes filmava o rosto de Gena Rowlands, o que só pode ser um bom sinal.
A maternidade é o trabalho mais estressante do mundo. Fato. Mas um filme que encara a coisa de forma tão incômoda, sem hesitar diante do grotesco e mantendo sempre seu frescor merece nossa atenção. É algo que provavelmente saiu de um lugar bastante íntimo — como um “Eraserhead” para meninas.
E como David Lynch antes dela, Mary Bronstein pinta suas telas com as próprias tripas e as expõe para todos verem. Daí surge um longa profundamente singular, cujas decisões inspiradas vão desde o nome pitoresco até a escalação do comediante e apresentador Conan O’Brien como o terapeuta menos prestativo de todos os tempos.
Rose Byrne precisa desse terapeuta, porque sua vida está desmoronando — literalmente, já que seu sótão despenca sobre sua cama logo nos primeiros minutos de filme. Há um buraco pairando sobre sua cabeça, assim como há um buraco na barriga de sua filha, de onde se estende um tubo nojento ligado a uma máquina infernal. Só assim a menina pode combater a doença misteriosa que a impede de se alimentar.
O buraco, vocês sabem, é uma figura que se presta a todo tipo de associação psicanalítica grosseira — o tipo de coisa que, misericordiosamente, não tenho interesse em infligir em vocês. O que me interessa, aí sim, é o puro senso de ansiedade que o filme consegue conjurar. Para nosso alívio, o longa é também profundamente engraçado.
De fato, se há algo prendendo o filme, são esses arroubos metafóricos fáceis. Diferentemente de Lynch, Bronstein nem sempre se permite ser apenas esquisita. Mas é uma queixa pequena. Do jeito que está, há o bastante aqui para te fazer suspender seus planos de maternidade indefinidamente.













