Na sessão na qual assisti “Silvio”, filme de Marcelo Antunez, havia crianças e adolescentes muito empolgadas para ver a história do camelô que se tornou um dos maiores apresentadores da TV brasileira. O ânimo delas, no decorrer da projeção, fez eu me sentir como se estivesse na sala de casa assistindo TV aos domingos. Toda vez que a proteção de Silvio (Rodrigo Faro) para com seu sequestrador (Johnnas Oliva) triunfava, elas gritavam como se estivéssemos vendo um gol de uma partida de futebol. Seu comportamento me fez refletir ainda em quão importante a figura do dono do SBT foi na formação do público brasileiro.

Tal fato oferece um peso a mais à produção de “Silvio”, especialmente se considerarmos sua partida em agosto de 2024 e a homenagem que o filme se propõe a fazer. O roteiro foca em humanizar Silvio Santos, tirando a aura de apresentador galante dos domingos para endossar a verve de administrador e negociador. Nesse processo, o filme busca expor vulnerabilidades do personagem. Engana-se, no entanto, quem pensa que irá assistir a carreira de Senor Abravanel, já que a cinebiografia está mais para um protótipo de filme de sequestro do que para o gênero a qual está sendo vendida.

Acompanhamos as quase oito horas em que Silvio ficou refém de um sequestrador na própria casa em agosto de 2021. Enquanto o Homem do Baú tentava negociar com o algoz e com a polícia do estado de São Paulo, vemos algumas de suas memórias e as angústias familiares que carregou ao longo dos anos. A partir dessa perspectiva é importante dizer que a escolha do roteiro não faz jus a trajetória do biografado e nem tampouco ao quão simbólico foi 2001 para Silvio e o SBT. Para refrescar a memória, esse foi o ano de lançamento da Casa dos Artistas, reality que chegou a bater a programação da Rede Globo e do Show do Milhão. Além disso, o apresentador fora homenageado na Sapucaí pela Escola de Samba Tradição. Em um ano tão apoteótico, por quê focar no sequestro?  

A escolha parece considerar mais na balança uma mescla de dramaticidade com enredo policial do que os momentos emocionantes vivenciados por Silvio e seu canal. A decisão, no entanto, é um tiro no pé, uma vez que a própria montagem sabota a maneira como a história é apresentada, tornando as memórias do apresentador confusas como se estivéssemos dentro de uma mente difusa. Ao invés de remontar os momentos afetivos de Silvio, me senti, em algumas situações, como se o montador quisesse revisionar o espaço mental de “Meu Pai”, de Florian Zeller. A cinematografia também não ajuda muito; os planos e ângulos escolhidos nesses momentos causam um estranhamento visual que somado aos movimentos de câmera excessivos tiram a imersão emocional que poderiam ter.

Isso prejudica diretamente o envolvimento com duas frentes do filme: os intérpretes jovens de Silvio e o aprofundamento de seus dramas da juventude. Em relação ao primeiro, as versões jovens de Silvio – Felipe Castro e Vinícius Ricci – fazem um bom trabalho com o material que têm em mãos. Castro é pontual na empostação de voz que lançou o apresentador na Rádio Guanabara, enquanto Ricci demonstra, por meio de uma interpretação mais contida e de expressões faciais, os primeiros anos de Senor em São Paulo. O filme perde por não lhes dar mais espaço. Faro, por outro lado, está caricato: não sabe se imita o apresentador ou dá a sua própria interpretação a figura icônica. Honestamente? Soa muito como alguns atores de novelas bíblicas e a forçação maniqueísta que dão aos personagens sacros.  

Há muitas pontas soltas no filme de relatos pouco comentados sobre o apresentador – ou que foram deliberadamente jogados para baixo do tapete – como a criação do baú da felicidade, seu primeiro casamento, a relação com a primogênita, a saída da Globo e a criação do SBT. Invés disso, parte da narrativa se concentra em incutir um ciclo de daddy issues (traumas com paternidade) dentro da família Abravanel. Ofertando uma solução moralista básica, sem nem mesmo mostrar o quão tridimensional pode ser essa discussão.  

“Silvio” se junta ao hall de filmes nacionais como “O Doutrinador” e “Nada a Perder”. Tendo tantas opções para discutir a vida de um dos apresentadores mais populistas da TV brasileira, prefere reproduzir clichês e emular um sequestro piegas que não mostra verdadeiramente o que Silvio Santos representou para o entretenimento nacional. É uma pena.