Quando Hollywood se arrisca a fazer refilmagens de produções internacionais… Bem, o resultado quase nunca fica bom. É claro que cada caso deve ser analisado nas suas particularidades, mas geralmente perdem-se as sutilezas e as histórias ficam parecendo pálidas imitações do material fonte. Essa é uma tendência que Hollywood nunca abandonou, afinal, existem muitos filmes bons por aí vindos dos mais diversos países e americano não gosta de ler legendas, não é mesmo? Porém, como quase sempre esses remakes caem na vala do esquecimento, é de se imaginar porque produtores continuam insistindo.
Não Fale o Mal ainda leva um certo desconto por ser uma produção parcialmente britânica – embora leve o selo da Blumhouse, a maior produtora de thrillers e filmes de terror do momento. Mas sofre do mesmo mal: é uma refilmagem em inglês do suspense dinamarquês Speak No Evil (2022), dirigido por Christian Tafdrup, e que fez barulho no circuito de festivais e nos cinemas europeus no seu lançamento.
E merecido: o original é um ótimo exercício de estilo, um suspense com sabor quase “Michael Hanekiano”, em referência ao diretor de Funny Games: Violência Gratuita (1997) e Caché (2005), que adora torturar seu público. Speak No Evil era calcado na ironia e na tensão do constrangimento: os personagens se metiam num grande problema porque eram civilizados e educados demais e não conseguiam dizer não a um casal psicopata. Tudo em nome das boas maneiras – até a hora em que é tarde demais. E o filme levava essa noção às últimas consequências, deixando o espectador com uma sensação desconfortável ao final.
Para seu crédito, o remake, dirigido pelo inglês James Watkins – o mesmo que fez o impactante Sem Saída (2008) e o divertido A Mulher de Preto (2012) – segue o mesmo clima de “horror do constrangimento social”, e de forma exemplar, ao menos pela primeira metade. Na história, temos o casal de americanos Ben (Scoot McNairy) e Louise (Mackenzie Davis), viajando com a filhinha pela Itália. Lá eles conhecem o casal inglês Paddy (James McAvoy) e Ciara (Aisling Franciosi), que tem um filhinho deficiente. Eles se dão bem e, algum tempo depois, os americanos aceitam passar um fim de semana na casa dos ingleses, uma bela fazenda numa região remota. Porém, não demora muito e os comportamentos de Paddy e Clara começam a constranger, o que liga o alerta de que há algo sinistro naquela família.
Todos os atores defendem muito bem seus personagens e o roteiro é hábil em explorar as fissuras no relacionamento de Ben e Louise, além da “crise masculina” que deflagra boa parte da trama do filme: o cara americano, com uma vida entediante e emasculado pela esposa, busca se impor frente ao que percebe como um “macho alfa”. Mas aí já surge a primeira falta de sutileza de “Não Fale o Mal com os dois homens gritando e externando a raiva de frente a um enorme prédio fálico. A escolha de ângulo pelo diretor deixa o momento engraçado, mas também subestima a inteligência do público.
Louise não é tão melhor nesse trecho da história. Ela também poderia acabar com a situação tensa em um minuto, era só dizer “não” a Paddy e Ciara. Mas os personagens não conseguem. É o horror de ofender alguém que dirige a narrativa, mais do que sangue ou instantes de violência nesse momento. Esse comentário se torna ainda mais relevante no mundo atual, onde as pessoas vivem com ansiedades constantes e medo do julgamento alheio.
De todos os atores, McAvoy é quem tem o melhor papel e a maior oportunidade para brilhar, com o personagem que começa aos poucos a forçar os limites dessa convivência social, sempre buscando ver até onde pode ir. O desempenho do ator é a maior qualidade de Não Fale o Mal: ele aqui se excede fazendo um daqueles psicopatas carismáticos e manipuladores e, ao mesmo tempo, bastante reais que de vez em quando o cinema entrega.
Por isso mesmo, é lamentável que no seu terço final, “Não Fale o Mal” abandone esse clima cuidadosamente construído – e qualquer sutileza de vez – para se transformar em mais um filme cheio de “tiro, porrada e bomba”, outro exemplar de cerco onde os bons se trancam numa casa e os maus ficam do lado de fora tentando entrar. Talvez por ambientar o longa na Inglaterra, o diretor não tenha resistido a tornar o final do seu longa numa espécie de remake de outro filme, o controverso e audacioso Sob o Domínio do Medo (1971) de Sam Peckinpah. Pena que a comparação seja bem desfavorável, pois o final segue uma rota bem clichê e os heróis tomam decisões tão estúpidas que acabam angariando a antipatia do espectador.
Nesse quesito, vale elogiar os envolvidos em Não Fale o Mal por buscarem seguir seu próprio caminho. Mas… Precisava tornar a narrativa mais padronizada? Precisava entregar um desfecho lugar-comum de um suspense de sobrevivência, como tantos já vistos?
No fim das contas, se você não viu Speak No Evil, talvez consiga aproveitar mais Não Fale o Mal, pela primeira metade eficaz e atuações do elenco, especialmente McAvoy. Mas é inegável que é um filme mais “fácil” de se assistir, e menos perturbador. O horror de Speak No Evil, e sua arrepiante conclusão, essa fica com o espectador por bastante tempo.
De fato, lembrei do filme holandês O Silêncio do Lago (1988), de George Sluizer, durante a sessão de Não Fale o Mal: o longa oitentista foi aclamado por seu suspense e final perturbador, e até Stanley Kubrick descobriu o telefone de Sluizer e ligou para elogiar o diretor, por ter feito o filme mais assustador que o gênio do cinema já tinha visto – isto, vindo do diretor de O Iluminado (1980)… Cinco anos depois, o próprio Sluizer dirigiu a refilmagem em Hollywood, com astros e um final feliz. Hoje, quase ninguém lembra deste filme.
Esse negócio de piorar filmes de várias nacionalidades vai longe…















