O feito obtido por “Só por uma Noite” é coisa rara: conseguir tornar um ponto de partida picante em uma história totalmente conservadora. Poucas vezes um filme foi capaz de trair o próprio conceito como esta comédia romântica faz em 102 minutos. Aquilo que parecia uma crítica, termina como um elogio. Aquilo que parecia provocativo, vira acomodação.
“Só por uma Noite” faz uma versão para o romance de “Noite de Crime”: se na franquia iniciada em 2013, as pessoas poderiam matar quem quisessem em uma determinada noite, sem ter problemas com a Justiça, aqui, todo mundo pode transar com aqueles que desejam. Seria algo normal não fosse a distopia de que um decreto passou a proibir a população dos EUA de fazer sexo antes do casamento, exceto durante aquelas 12 horas de um ano.
A ideia de fazer uma comédia romântica em um cenário de adversidades para a pureza tradicional do gênero traz seu lado positivo e negativo. Owen (Callum Turner) e Allie (Monica Barbaro) destoam daquele universo de pegação em que as pessoas são comidas vivas só de passar na rua.
Os nossos pombinhos, cada a um a seu jeito, estão à procura do amor da vida, mesmo sabendo que a probabilidade disso acontecer naquela noite é de 2,8%, como exalta a mocinha. Ele por estar decepcionado com a namorada (Maya Hawke) que deseja aproveitar a noite para dar uns pegas no vizinho, ela sem sorte para encontrar o príncipe encantado. A partir daí, “Só por uma Noite” embarca em uma jornada semelhante a “Se Beber, Não Case”, talvez, a comédia mais influente no cinema dos EUA das últimas décadas. Owen e Allie se enfiam em uma série de confusões absurdas, escalando ao longo da noite.
Verdade que alguns momentos funcionam bem, especialmente quando o filme extrapola na loucura ao trazer o bizarro roqueiro interpretado por Charlie Gillespie com suas danças e versos constrangedores. De resto, “Só por uma Noite” vai no modo automático, incapaz de explorar totalmente as maluquices daquela distopia realmente a fundo. A disputa pelo preservativo de US$ 200 até se propõe a trazer particularidades daquela realidade, mas acaba por expor os protagonistas em figuras completamente burras por sequer terem pensado naquela situação após três anos de decreto.
Estaria tudo bem se este fosse o maior problema de “Só por uma Noite”; infelizmente, estamos diante de uma das comédias românticas mais caretas do cinema em muito tempo. A proposta do casal principal ser um contraponto àquele universo de pessoas sedentas por sexo se vira contra o filme a partir do momento em que Allie e Owen soam forçados para negar que são dois gostosos e poderiam facilmente se pegar sem que isso signifique necessariamente que não possam se amar.
A postura moralista adotada pela comédia romântica coloca o sexo quase como um vilão impeditivo para encontrar o verdadeiro amor. Com isso, o roteirista Travis Braun acaba por abraçar e compreender a distopia, promovendo um desfecho digno de aplausos de pé da bancada evangélica e da turma do ‘eu escolhi esperar’.
Seria responsável por esta visão puritana o fato de Braun ter feito apenas animações infantis antes de “Só por uma Noite”? Talvez, mas o diretor Will Bruck ter embarcado nesta furada após fazer justamente o oposto com Sydney Sweeney e Glen Powell no ótimo “Todos Menos Você” é de entristecer.
No fim das contas, “Só por uma Noite” é a comédia romântica definitiva da era trumpista.














