“Te vejo na próxima saída do boi” reúne um dos elementos mais fortes e importantes do cinema de Keila-Sankofa: a cultura afroamazônica. Rodado no interior do Pará, a produção celebra a cultura nortista durante a tradicional fugida dos Bois de Máscaras.
Para entender o mote da trama, a fugida é o ritual tradicional do Bumba Meu Boi no qual o boi corre – ou foge – pelas ruas, acompanhado pelo povo, marcando um momento de simbolismo cultural, fé e transição no ciclo da festa. É nesse cenário que Sankofa constrói um romance entre entre Bruna, coordenadora de um grupo de Boi, e Luiz, um carregador de aparelhagem que chega à cidade.
Gosto de como a navegação pelos espaços em que o casal e o boi passam são destaques na lente de Sankofa. Velejamos de barco, a pé, de moto e de caminhão, como meios de desbravar o ambiente e evidenciar como esse é um relacionamento em movimento, ou seja, está num ritmo de construção sendo altamente influenciado pela cultura do espaço que se encontra.
O roteiro e a direção caminham lado a lado para exaltar a cultura afroamazônida: por meio da culinária, dos figurinos e das cores que vemos em tela. Os enquadramentos dos meios de transporte chamam atenção por conseguir traçar e expor todos esses itens em harmonia, além disso a coloração azulada e verde em determinadas cenas relembram muito as clássicas fotografias do paraense Luiz Braga, como um aceno para as referências da própria região.
Tenho a sensação, no entanto, que há dificuldade em encontrar um equilíbrio entre contar esse romance e mostrar a festa dos bois. O boi é uma presença muito forte na trama, tanto em termos visuais – as camisas e cores de Caprichoso e Garantido – quanto narrativos. Contudo, falta tempo de tela e de discussão para que o público compre a ideia de um casal em que o cara chega na cidade e encanta uma mulher bem resolvida. Não facilita que algum ponto na atuação de Luxuoso Jackson não convence de que ele realmente desenvolveu um crush ou qualquer tipo de atração mais forte por uma mulher independente como Bruna e seria capaz de abandonar sua viagem, sua vida por ela.
Isso me faz pensar no quão interessante é ter uma história de amor que tenha elementos nortistas como ponto de partida de desenvolvimento. Temos tantos romances dos EUA que se passam em noites de ano novo ou no carnaval de Veneza/Nova Orleans, por que não um que se passe no boi bumbá, folclore presente em praticamente todas as cidades do interior amazônico? A ideia é ótima, mas além da cultura sobrepor o romance, falta química a Bruna e Luiz.
Tudo isso afeta a assimilação de “Te vejo na saída do boi”, enquanto o filme abraça a cultura, o romance é eclipsado e fica opaco. Ainda assim espero que não seja a última imersão de Sankofa em romances centrados na cultura afroamazônica, basta encontrar o ponto de equilíbrio.














