Na famosa fábula da cigarra e da formiga, dependendo da versão que se conta, a formiga é exaltada e recompensada pelo esforço do seu trabalho no verão, enquanto à cigarra que passava seus dias cantando resta apenas mendigar abrigo durante o inverno. Afinal, a cigarra é uma artista, não uma operária, e nem sempre a fábula (ou a vida) é tão gentil assim com os artistas.
Mas, na era do capitalismo tardio, espera-se que sejamos todos formigas operárias produzindo ao máximo. O que sobra então para quem acredita que nasceu para se expressar como a cigarra? “A Ascensão da Cigarra” trata justamente sobre se descobrir cigarra (ou artista) e a possibilidade de enxergar na arte um tipo de libertação de suas próprias amarras.
No curta dirigido e roteirizado por Ana Clara Ribeiro, a cigarra surge primeiro como o animal em si, enquanto conceito científico e biológico, nos primeiros minutos do filme que lembram um documentário de natureza para TV, daqueles da TV Cultura ou National Geographic. É só depois disso que somos apresentados à protagonista em frente à sua tela de computador, perdida em devaneios e reflexões enquanto precisa escrever notas burocráticas para a funerária em que trabalha.
A cigarra se torna então a metáfora com a qual a diretora-protagonista vai se identificar, a partir de um sentimento de desconforto perante o mundo. Essa identificação é explorada de forma poética por meio das possibilidades do audiovisual. Acompanhamos, por exemplo, a personagem trabalhar imersos na sua própria navegação no computador, em um bom uso de screenlife – isto é, quando as ações se desenrolam na própria tela do dispositivo. Enquanto isso, sua mente vagueia, e seus pensamentos assumem a forma de um belo stop motion que trabalha com colagens de fotos e desenhos.
“A Ascensão da Cigarra” é, portanto, mais um trabalho autobiográfico híbrido entre o ficcional e o documental, e é curioso que, em tempos em que estamos todos imersos nos nossos próprios mundos pela tela do celular, tantas produções pareçam tomar a vida dos seus próprios criadores como ponto de partida.
Nesse sentido, porém, o curta de Ana Clara Ribeiro sai fortalecido não só pelo seu apuro estético, mas também pela universalidade do sentimento de inadequação que ela descreve tão bem na tela. Afinal, assim como a cigarra, a protagonista-criadora está sempre à margem da sociedade e sendo repreendida de alguma forma, seja pelo chefe que insiste que ela escreva de forma menos poética ou pelos familiares que constantemente a lembram de corrigir a postura, por exemplo. E é aí que o filme celebra a expressão artística como a saída para esse desconforto, culminando no momento em que a protagonista enfim se assume como cigarra.
Como a própria diretora-personagem afirma em off, “matar a cigarra de fome, preguiça ou de música é uma mensagem política: não seja artista”. Ao escolher viver como cigarra, ela reforça que escolher a arte também é uma mensagem política.














