Coward é o terceiro filme de Lukas Dhont a ser lançado no Festival de Cannes. Mais uma vez, ele coloca no centro da narrativa indivíduos que comumente são postos no silenciamento e às margens. Curiosamente, neste projeto, o diretor belga escolheu ambientar a sua história na Primeira Guerra Mundial, mas não é por estar no furacão de um conflito que o amadurecimento e a descoberta de si — temas muito presentes em seu cinema — não estejam presentes e ganhem contornos especiais.

Acompanhamos Pierre (Emmanuel Macchia), um jovem fazendeiro que agora faz parte do exército belga. Ele é alto, calado, robusto e, o que me chama atenção, parece ter um envolvimento genuíno por todas as pessoas que estão ao seu redor e se comportar de acordo com o que estas projetam. Por isso, ele parece ser uma pessoa fácil de lidar no exército: aceita tudo o que lhe impõem de maneira leve e compromissada. Assim, ele passa os dias sem se destacar ou chamar a atenção de alguém, até que os olhos do franzino e atento Francis (Valentin Campagne) recaiam sobre ele de forma a devorá-lo calma e delicadamente.

Francis é o oposto de Pierre. Tem o corpo mais franzino, destaca-se pela delicadeza com que se comporta e por não esconder que está mais inclinado a ser um artista do que um soldado. Esse motivo o leva a criar uma pequena trupe — como um aceno para a personagem de Penélope Cruz em La Bola Negra — para motivar os soldados nos campos de batalha. Seu empreendimento logo alcança sucesso, conquistando os colegas e superiores do exército, tornando-se o seu verdadeiro investimento militar.

A fotografia de Frank Van den Eeden (Close) traça um diálogo com o público sobre a relação que estamos vendo se desenvolver diante dos nossos olhos e o amadurecimento de seus personagens principais. Pierre é extremamente taciturno, falando apenas quando é necessário, mas entendemos suas dores, angústias, medos e provocações porque a câmera o persegue, colocando em seu rosto aquilo que Dhont quer estabelecer conosco em “Coward”. O leve tremor de seus lábios, as sobrancelhas cruzadas e o olhar amedrontado nos dizem muito do que se passa em sua mente, e Macchia é expressivo ainda que seja um homem carregado de receios de evidenciar quem é de verdade.

E este é um ponto crucial em Coward. Poderíamos nos indagar a quem o título se refere, por ser esse um xingamento que aparece, inclusive, em momentos-chave da narrativa, mas há algo no silêncio de Pierre e na habilidade de Francis de captar toda a atenção de uma sala para si que nos revela o verdadeiro encanto do projeto de Dhont: Francis tem certeza de quem é, enquanto Pierre ainda orbita em torno da própria descoberta da sua identidade. Algo semelhante ao que acontece com os protagonistas de Close. Por isso, há uma inversão proposital de equilíbrio de forças — Francis está no comando porque tem certeza de quem é e do que faz, enquanto Pierre, o forte, apresenta uma vulnerabilidade silenciosa e raivosa. Ele não consegue explodir, porque desconhece qual é o seu verdadeiro lugar no mundo.

Em Coward, no entanto, essas diferenças de amadurecimento encontram espaço em outro elemento importante desta história: a masculinidade. É interessante como o cineasta belga expressa essas situações nas entrelinhas. Estamos num universo completamente masculino e exclusivamente bruto pelo que testemunham e pelos traumas que os assombram depois de noites de trincheira, de assistir amigos e companheiros serem destroçados. Mal há espaço para as lágrimas, porque você precisa se reerguer e fazer o mesmo processo dias depois. Ao mesmo tempo, há uma docilidade expressa na ingenuidade de Pierre, que se permite mostrar a Francis os seus sentimentos, mas também acreditar que há a possibilidade de um final feliz, mesmo diante de um conflito bélico e de um pós marcado pelo trauma — algo claro para Francis, mas não para ele.

Van den Eeden mais uma vez nos mostra essa docilidade quando coloca uma luz frontal projetada sobre o personagem e investe em tons pastéis flutuantes para mostrar a suspensão do espaço-tempo que as performances de Francis e seus encontros com Pierre trazem sobre o universo bélico. Nesse processo, há uma tensão entre os terrores da guerra e a descoberta do primeiro amor. Se o teatro é uma suspensão romântica, a guerra também se enquadra nesse mesmo parâmetro, considerando que ela é parte do impeditivo para que esse romance seja vivenciado de forma integral — mas nada supera o fato de os personagens não estarem na mesma página quanto ao reconhecimento do próprio eu.

É possível dizer que a grande discussão de Coward se deposita em mostrar uma identidade em formação e a masculinidade em crise. Dhont comprova mais uma vez que está alicerçado em um cinema queer de afetos, construção identitária e sobre como a suspensão do espaço-tempo afeta seus personagens quando precisam cair na realidade. Diferente de Pierre, o diretor sabe o que quer dizer e qual a importância de sua voz para o mundo.