1.2 milhão. Este foi o número de mortes registrados nos EUA durante a pandemia de Covid-19. São índices inacreditáveis para a tão celebrada maior potência do mundo ocidental, local de algumas das maiores faculdades de medicina do planeta e que se vangloria por contar com os mais modernos e equipados centros médicos. Isso sem contar toda a discussão em relação ao sistema de saúde do país considerado caro demais para uma parte significativa da população.
Diante deste trágico cenário, pensar em uma nova série médica nos moldes de “House M.D” com um protagonista como se fosse um Sherlock Holmes ou “Grey’s Anatomy” com os personagens principais vivendo seus romances em um melodrama próximo às nossas novelas não faz tanto sentido. Produção da HBO, “The Pitt” é a resposta para este cenário pós-pandemia ao apresentar uma história ambientada no fictício Pittsburgh Trauma Medical Hospital durante 15 longas horas de um único dia para uma equipe formada por médicos em formação liderada pelo Dr. Michael “Robby” Robinavitch (Noah Wyle).
Remetendo ao realismo da pioneira “St. Elsewhere” (1982-1988) e da clássica “E.R” (“Plantão Médico” no Brasil), “The Pitt” faz o bé-a-bá das séries do gênero. Logo, acostume-se nos 15 episódios com jargões médicos para dar e vender, casos graves se alternando com outros mais triviais, movimentação constante da câmera e das equipes do hospital para conferir um estado de urgência frequente, as cenas nojentas de lei (para quem tem pavor de agulha como eu, só assim para classificar) aqueles doutores, cirurgiões e enfermeiros tratados como heróis, ainda que cada um lidando com situações delicadas.
O diferencial de “The Pitt” está em fugir das perfeições dos hospitais norte-americanos tão retratados nas séries televisivas do gênero. Se a proposta de apresentar cada episódio representando uma hora do plantão não apresenta nenhuma novidade do ponto de vista narrativo – impossível não recordar de “24 Horas” -, por outro lado, a urgência de um local que não para por um segundo expõem as entranhas de um sistema de saúde à beira do colapso com corredores lotados de pacientes e pessoas esperando horas e horas por atendimento. Ainda que possa ser condenada pela covardia e estupidez, a agressão física de um sujeito com dores a um membro da equipe de médicos após horas na fila reflete este ambiente totalmente no limite.
Como um grande palco dos dramas humanos, o hospital reflete o pior e, eventualmente, o melhor da sociedade. Neste EUA das milhões de morte da Covid-19, os médicos de “The Pitt” precisam enfrentar desde o negacionismo de uma mãe que prefere acreditar no Dr. Google a ponto de impedir um procedimento fundamental para salvar a filha pequena passando pela crise do vício de fentanil até chegar nos atentados em massa que provocam o caos visto nos episódios finais. Símbolos de um povo doente não apenas no corpo, mas, também na alma e na mente.
A pressão natural da profissão somada a todas estas condições insalubres cria uma bomba relógio personificada no Dr. Robby. Lidando ainda com o trauma provocado pela morte do mentor durante o pico da pandemia, ele se divide entre resolver os casos mais espinhos, coordenar e orientar os jovens em seu primeiro dia de serviço e não desmoronar totalmente. Méritos totais de Noah Wyle em uma grande e comovente atuação. Destacam-se ainda Fiona Dourif como a incisiva Dra. Cassie e Isa Briones na nada confiável, mas, decidida Dra. Trinity.
Mesmo longe de abrir mão do heroísmo dos profissionais do setor e certas convenções do gênero das séries médicas, R. Scott Gemmill consegue trazer um projeto ousado em “The Pitt”. Sem trilhas ou músicas para buscar uma redenção ou final feliz a cada término de episódio, “The Pitt” faz um retrato seco e duro sobre a condição do sistema de saúde norte-americano, capaz de quebrar tanto os pacientes em busca de ajuda como aqueles que tentam salvá-los.















