A adolescência é um horror e The Plague, longa exibido em Cannes na Um Certain Regard, certamente explora essa noção. O filme do diretor estreante Charlie Polinger é um ótimo trabalho, misturando suspense, body horror, drama psicológico, pitadas de humor e o desconforto daquela fase da vida quando estamos crescendo, e mudando, para criar uma experiência curiosa e de ressonância emocional. Nem todo mundo deve curtir, mas para quem embarcar na proposta, a satisfação é garantida.

O filme conta a história de um grupo de meninos adolescentes treinando juntos em um time de polo aquático. O protagonista, o jovem Ben (Everett Blunck), é zoado por seu problema de fala pelos outros garotos, comandados por Jake (Kayo Martin), que com seu cabelinho loiro e aparência, é um verdadeiro anjo dos infernos. Mas até aí, tudo bem, com Ben suportando sua condição de relativo pária. 

Até que surge outro garoto, Eli (Kenny Rasmussen, excelente), quieto e esquisito, ainda mais desprezado que o protagonista. Os meninos dizem que Eli tem uma doença, a qual eles chamam de A Praga, do título do filme. Quando Ben começa a se aproximar de Eli, o rapaz passa a suspeitar que contraiu a praga, o que lhe faz entrar em uma espiral de paranoia com consequências inesperadas.

Logo de início, Polinger coloca o espectador em uma experiência desconfortável, com imagens fantasmagóricas dos jovens na piscina, e um design de som que amplifica ruídos e cria uma paisagem de estranhamento. Depois, Eli faz uma estranha dancinha que contagia os outros, e lá vamos nós para um filme que faz uso de uma estrutura relativamente familiar, a da história de amadurecimento, mas joga várias surpresas para o espectador. A principal delas sendo o fato de o diretor e o roteiro, de forma inteligente, nunca darem uma resposta definitiva sobre a tal praga – a doença é real ou não?

Bem, o bullying é real, e o filme torna a ansiedade em torno dele, algo palpável. Logo começam a aparecer algumas cenas de body horror que deixariam David Cronenberg com um sorriso no rosto, extrapolando as ansiedades da adolescência para um tipo de terror com o qual nós, espectadores, podemos nos relacionar. O elenco adolescente é todo ótimo e faz a proposta funcionar, e o filme conta com uma pequena participação de Joel Edgerton – também um dos produtores – como o treinador dos garotos.

Apesar da tensão, curiosamente há uns momentos de humor no filme, e a conclusão bizarra aponta para um cineasta promissor que consegue, acima de tudo, criar uma atmosfera incomum em sua obra. O final ambíguo parece indicar que a adolescência passa, mas algumas consequências ficam.