“Canina” é uma comédia que acha formas inventivas de lembrar que maternidade é um processo estranho pra cachorro. O novo filme de Marielle Heller, exibido no Festival de Londres depois de sua estreia em Toronto, arranca risadas com a ajuda de uma atuação costumeiramente corajosa de Amy Adams – que não à toa foi indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz em um Musical ou Comédia pelo papel.
Aqui ela interpreta uma mulher nos subúrbios dos Estados Unidos, confrontando a distância entre a expectativa e a realidade de sua condição de mãe. O filho a demanda 24h por dia, o marido (Scott McNairy) passa mais tempo fora de casa do que dentro e seu corpo começa a passar por transformações inusitadas. Quando dá por si, ela está vagando pela noite como uma indomável cadela.
O roteiro de Heller – seu primeiro desde o seu filme de estreia, “O Diário de uma Adolescente” – adapta a história do livro de Rachel Yoder retirando muitos dos seus elementos de body horror. Essa decisão torna o filme mais acessível ao público geral e cria uma salutar ambiguidade: afinal, estaria essa mãe realmente se transformando em cachorro na madrugada boladona?
Meu caro leitor, fica melhor ainda: essa pergunta nem é a principal preocupação do longa. Ao invés disso, os realizadores, através de sua protagonista, estão mais preocupados em abordar os aspectos essencialmente primitivos da gravidez biológica e os duros sacrifícios que as mulheres encaram para gerar vidas humanas.
Conforme ela investiga mais sobre a sua situação, a produção amplia o escopo da trama estabelecendo um claro senso de sororidade e de conexão intergeracional através de seu elenco de apoio.
O primeiro vem das mães suburbanas amigas da personagem de Adams, que talvez entendam bem demais o problema. O segundo decorre de longas lembranças que ela tem da mãe, que a ajudam a enxergar a dor e frustração latentes na abnegação materna: eis duas gerações de mulheres que abriram mão de seus sonhos para ter filhos, enquanto os homens ao seu redor não.
As sequências mais desconcertantes de “Canina” acabam não sendo as das aventuras noturnas, mas aquelas em que a pressão e exaustão da maternidade a fazem parecer um constante e silencioso ataque de pânico. Nesses momentos, o filme parece uma versão comédia de “O Babadook” – terror australiano que explorou um sentimento similar.
No entanto, é claro que a grande crítica do longa não é a maternidade – as partes mais esotéricas de seu roteiro, na verdade, a enaltecem – mas a diferença de expectativas entre homens e mulheres quando o assunto são filhos. A decisão de deixar sua família principal inominada reforça a ideia de que esta é uma disparidade que pode acontecer em qualquer família.
Adams devora este material com a mesma voracidade de sua personagem, a partir do seu já icônico monólogo na primeira cena. Por mais que este não seja o melhor trabalho da seis vezes indicada ao Oscar seis vezes, daria gosto de ver a Academia premiar uma performance tão livre e enérgica, que vai da comédia ao drama, e toca num tópico extremamente relevante.
Em um mundo em que ainda se fala sobre o peso da maternidade nas carreiras de mulheres (artistas como Adele e Saoirse Ronan já foram a público sobre isso), “Canina” protesta contra a raiva e o ressentimento de todas as mulheres que não conseguiram (ou não foram dadas a chance de) achar o seu ponto de equilíbrio nisso. Às vezes, ele argumenta, você tem que latir. Outras vezes, você tem que morder.













