Um depoimento emocionado em um culto evangélico improvisado em uma casa de tijolos descobertos. “Jesus” escrito em uma impressão A4 com uma fonte meio word art. Uma mulher emocionada no púlpito. Falando de tudo que acometeu sua casa. Condenada. Demolida. E que será refeita “com a graça de Deus”. Os ingredientes necessários para um filme denso, pesado, melancólico, sobre essa história.
Por isso é surpreendente o que vem em seguida. Uma montagem acelerada de fotos de casal. Da juventude à vida adulta de Cris (a mulher do depoimento) e do marido Albert. E da formação da sua família. Com seus três filhos. Ao som de Baby fala pra mim, da Musa do Calypso. Uma versão brasileira de quelqu’un m’a dit, de Carla Bruni.
Revelando o tom de um filme que vai falar sobre esse pedaço da vida dela. Uma época onde tudo aconteceu. A casa precisou ser demolida e reconstruída. Sem emprego para os dois. Com a ajuda da mãe dela. Com três crianças. No meio da pandemia da COVID. Com mais um bebê vindo aí. Uma carreira de influencer improvisada, forçada, imposta pela situação. Uma tentativa desesperada de laqueadura.
Nada que vá explicar por si o porquê de “Tijolo por Tijolo” fazer abrir um sorriso tão grande no espectador tantas vezes. Do porque dele ser um abraço. Um choro feliz. Isso vem muito de Cris. Tijolo por tijolo, vídeo por vídeo, dia por dia, pedaço por pedaço, reconstruindo sua vida.
Sem discurso. Sem romantizar suas tragédias. Sem distorções sobre essa realidade bruta.
Na estreia, os diretores falam sobre os quatro anos que passaram com a família. Em um filme que era pra ser sobre outra coisa e acabou se tornando sobre todas essas. Esse tempo é sentido em tela na proximidade. Na confiança. Na amizade.
Cris, produtora de conteúdo para o Kwai que faz parte de um programa de influencers que recebe para povoar o aplicativo com toda sorte de vídeo, absorve pra si. Pra dentro de sua casa. A câmera do documentário. Enquanto do outro lado, o filme se contamina com a linguagem dos vídeos curtos.
Às vezes literalmente, quando pontua o filme com os vídeos ou quando revela os bastidores da gravação. Às vezes na forma. No quanto ele adquire desse ritmo na montagem e no uso de música.
Nunca de forma muito experimental. Mas com um naturalismo. Quase que sem perceber. Como se “Tijolo por Tijolo” se tornasse essa amálgama só “por convivência”. Por proximidade. O que talvez seja a palavra chave aqui.
Quebrando regras fundamentais do documentário de cartilha. Entrando na casa da pessoa. Vivendo com ela. Com elas. Dia a dia. Na alegria e na tristeza, por assim dizer. Embora na tela sejam raras as vezes em que Quentin e Victória apareçam. Deixando à vista somente um relato hábil e praticamente de uma perspectiva invisível. Que a gente só sabe mesmo que existe porque sabe como as coisas funcionam.
O que faz pensar em certas tendências do documentário contemporâneo brasileiro e de festival. Do quanto se tornou comum. Para o bem ou para o mal. A presença de quem segura a câmera. Em nome de uma sinceridade e de uma abertura com o público que muitas vezes se paga mas tantas outras não parece se justificar.
A fluidez dessa câmera invisível e onipresente quase engana. Quase faz parecer que tudo é muito bem preparado, decupado. Planejado. Mas o trabalho aqui é outro. O da montagem. Que nesse turbilhão que é a história encontra habilmente todas as suas linhas narrativas.
A laqueadura, a carreira de influencer, a construção da casa, a COVID. Sempre sob o mesmo tom otimista. Mas que não conta uma história de superação porque quer construir isso. E sim porque enxerga na vida de Cris, essa vitória. Essa felicidade construída por eles juntos. A duras penas. Em um filme que é também sobre comunidade.
Com tudo isso que captura, Tijolo por tijolo parece fácil. Uma personagem maravilhosa e rica e cativante e magnética. Uma história repleta de drama e amor e superação. Uma abertura para circular no meio disso.
Mas pra capturar isso tudo e extrair um filme disso, foi preciso antes de tudo olhar pra essa mulher e pra família dela de coração aberto e com a disponibilidade de se entregar a eles.













