Toy Story 3 parecia ter fechado com chave de ouro a trajetória dos brinquedos liderados por Woody e Buzz Lightyear, consolidando uma das melhores trilogias da história do cinema. Entretanto, Toy Story 4 conseguiu se mostrar relevante ao falar de desapego afetivo e autonomia. Já este novo quinto filme dialoga com a realidade contemporânea, abordando a presença cada vez mais constante e precoce de dispositivos eletrônicos na vida das crianças, no caso da animação, Bonnie. 

Nesse sentido, Jessie, a nova xerife da turma, se coloca em um embate contra a tecnologia, quando os brinquedos se veem ameaçados pela chegada de Lilypad, um tablet lúdico e superinteligente voltado a crianças. Dessa forma, a trama acerta em cheio em nos colocar diante desse novo comportamento social das crianças, apegadas aos estímulos da interface de telas de dispositivos móveis e de jogos eletrônicos – elemento esse que já havia sido predito no curta Toy Story: Esquecidos pelo Tempo – e de como isso é devastador para as experiências com brinquedos. 

Ao aproveitar os tablets como a forma de interação social pela qual a tímida Bonnie dialoga com outras garotas da mesma idade, Toy Story 5 se mostra aquele que melhor desenvolve um arco para um personagem dono de brinquedos. O antagonismo de Lilypad para com a turma de Jessie e Buzz bem como a personalidade altamente influenciável da menina – que nega amor aos brinquedos analógicos para ser aceita em um grupo de amizades – proporciona reviravoltas intrigantes. 

Jessie, aliás, ganha maior destaque em Toy Story 5: a trama é criativa ao levá-la a uma aventura digna de seu ímpeto aventureiro, audácia e coragem fora da casa de Bonnie. A vaqueira se revela uma protagonista muito interessante, confrontada tanto pelo futuro como pelo próprio passado, numa experiência que a leva de volta a uma dolorosa memória e a ressignificar sua importância na vida dos humanos. Nesta jornada de pertencimento, equilíbrio, altruísmo e lealdade, a personagem se mostra uma líder nata, que faz de tudo pelo bem de sua dona.  

Por outro lado, é triste ver Rex, Slinky, Porquinho e Sr. Cabeça-de-Batata reduzidos a meros figurantes. O próprio Woody, apesar de ser um herói inspirador até Toy Story 4 e de ter sido chamado para ajudar Jessie e os brinquedos da Bonnie, não tem muito o que fazer neste quinto filme, chegando a ser decepcionante o quanto sua tão alardeada aparição carece de propósito. Além disso, o roteiro volta a abordar uma desnecessária rivalidade entre ele e Buzz que já não faz mais sentido após tantos filmes. Curioso, aliás, como não há nenhum paralelo entre a inveja de Jessie em relação a Lilypad como os protagonistas da animação de 1995.

Quanto aos antigos protagonistas, não espere matar muita a saudade deles. Se o quarto filme tinha o desenvolvimento do Woody como maior qualidade e também maior defeito – já que os outros brinquedos mal apareciam, incluindo a própria Jessie – neste aqui claramente os roteiristas quiseram inverter as posições, ao invés de simplesmente balancearem de forma competente a função de todos os brinquedos centrais da franquia. Já Buzz se mostra um coadjuvante apenas funcional, não tendo muitos momentos memoráveis, assim como em Toy Story 4. Se já não era muito fã da ideia do astronauta ouvir sua “voz interior”, aqui o exército de Buzzes tecnologicamente avançados se guiarem por uma estrela também não é uma das ideias mais criativas que  a Pixar já teve. 

Isso nos leva ao modo como alguns conflitos são resolvidos de modo facilitado ou brusco demais, nunca chegando a atingir um pico dramático digno do estúdio. Um exemplo disso é o modo como Lilypad resolve se abster de seus objetivos pelo bem da Bonnie, quando ela claramente poderia ter encontrado maneiras próprias de corrigir o que fez. Afinal, Lilypad é superinteligente e demonstra se preocupar genuinamente com a garota, longe de ser meramente uma vilã que odeia brinquedos. Tal escolha a torna uma antagonista menos impactante em comparação a Sid, Mineiro, Lotso e Gabby Gabby.

Mesmo assim, o papel da tecnologia é explorado de forma madura, mostrando os impactos negativos da ansiedade gerada pelos estímulos frequentes dos aparelhos e também o lado positivo dessa conexão ao fazer dos brinquedos eletrônicos de Blaise aliados de Jessie. 

Ademais, é revigorante que, pela primeira vez na franquia, os brinquedos sejam mostrados em uma brincadeira entre duas crianças. A maneira como Bonnie utiliza Jessie para “falar através dela” com outras crianças, por ser muito tímida, em uma das primeiras cenas, é recompensada no final, através de Blaise, o que mostra que brinquedos não são apenas objetos que proporcionam projeções de nosso próprio  imaginário como também ferramentas de interação social entre crianças. 

Toy Story 5 mostra que a franquia segue criativa e tem muito a explorar. Com as ideias certas, a saga pode se estender com eficiência, criando e emocionando novas gerações de fãs mirins e não deixando morrer a criança interior que existe em cada adulto.