Não me recordo exatamente da primeira vez em que assisti a um filme de Toy Story. Em compensação, lembro perfeitamente das tardes de domingo em frente à televisão, das fitas VHS com cheiro de plástico novo e dos meus pais colocando repetidas vezes os dois primeiros capítulos para eu assistir. Lembro dos erros de gravação nos créditos finais, de “Amigo, Estou Aqui” tocando pela sala e da sensação de que aqueles brinquedos estavam vivos muito antes de eu entender como uma animação era feita.
Talvez tenha sido ali que nasceu meu fascínio pelo lúdico. Pela ideia de que objetos, animais e tudo aquilo que aparentemente não possui vida própria pode carregar sentimentos, medos e desejos tão complexos quanto os nossos. Anos depois, revisitando toda a franquia com a chegada de Toy Story 5, percebi algo que talvez sempre estivesse diante dos meus olhos: Toy Story nunca foi realmente sobre brinquedos.
Os brinquedos são apenas a ferramenta escolhida pela Pixar para falar sobre pessoas.
Ao longo de cinco filmes, a série discutiu amizade, abandono, amadurecimento, individualidade, memória e, mais recentemente, os impactos da tecnologia sobre as relações humanas. Mudam os personagens, mudam os donos e mudam os conflitos. O sentimento permanece o mesmo.
Existe uma pergunta que atravessa toda a franquia: o que significa pertencer?
Pertencer a um amigo. Pertencer a uma família. Pertencer a uma geração. Pertencer a uma memória. Pertencer a um coletivo.
Talvez por isso esses personagens continuem tão vivos depois de três décadas. Enquanto os humanos crescem, esquecem e seguem em frente, Woody, Buzz, Jessie e companhia permanecem carregando todas as emoções acumuladas ao longo do caminho. Eles continuam sentindo.
Com a chegada de Toy Story 5, revisitei toda a franquia para montar este ranking.
5º lugar – Toy Story 4 (2019)
Ser colocado na última posição deste ranking não transforma Toy Story 4 em um filme ruim. Pelo contrário. Talvez seja o capítulo mais injustiçado de toda a franquia.
Durante anos, o filme carregou o peso de existir depois de um encerramento considerado perfeito. Para parte do público, sua simples existência já parecia um erro. O tempo, porém, foi generoso com a obra.
Através de Garfinho, a Pixar volta a discutir pertencimento sob uma nova perspectiva. Se os filmes anteriores observavam o coletivo, aqui a narrativa se concentra na crise individual: Garfinho não entende quem é, por que existe ou qual seu lugar naquele mundo. Woody, por sua vez, enfrenta a dolorosa percepção de que talvez já não ocupe a mesma posição dentro da vida de Bonnie.
Ao mesmo tempo, o filme experimenta caminhos pouco explorados pela série. A presença de Gabby Gabby e dos inquietantes bonecos de ventríloquo aproxima a narrativa de elementos típicos do terror infantil. Existe algo desconfortável na forma como aquelas figuras ocupam os cenários e observam os personagens, lembrando constantemente que a franquia ainda era capaz de encontrar novos tons mesmo após décadas de existência.
Seu principal problema talvez esteja na estrutura: a narrativa parece avançar em blocos, como se algumas ideias demorassem mais do que deveriam para alcançar seus objetivos. Ainda assim, continua sendo uma reflexão sensível sobre identidade e sobre a necessidade de entender quem somos antes de descobrir a qual coletivo pertencemos.
E, mais uma vez, a despedida não é um fim. É apenas um novo começo.
4º lugar – Toy Story 5 (2026)
Andrew Stanton sempre demonstrou interesse em utilizar personagens não humanos para discutir crises humanas. Foi assim em Procurando Nemo. Foi assim em WALL-E. E continua sendo assim em Toy Story 5.
Desta vez, a franquia olha para uma inquietação extremamente contemporânea: a hiperestimulação tecnológica.
O mais interessante é que o filme evita a solução mais fácil: em nenhum momento existe a tentativa de demonizar a tecnologia ou transformá-la em uma ameaça absoluta. O problema não está nos dispositivos, mas surge quando eles passam a ocupar espaços que antes pertenciam às relações humanas.
Quando olhar para alguém se torna menos importante do que olhar para uma tela.
Quando estar presente deixa de significar participar daquele momento.
Enquanto os humanos aparecem cada vez mais distraídos, os brinquedos seguem exercitando empatia, escuta e solidariedade. Existe uma ironia poderosa nessa inversão. São personagens feitos de plástico demonstrando mais humanidade do que as próprias pessoas.
Ao mesmo tempo, o filme entrega uma das aventuras mais inventivas da franquia. Stanton compreende que aqueles personagens habitam uma zona onde fantasia e realidade coexistem e utiliza isso para criar algumas das situações mais criativas de toda a série. Talvez ainda não alcance o peso emocional dos melhores capítulos, mas encontra um caminho legítimo para justificar sua existência.
3º lugar – Toy Story (1995)
Todo grande universo precisa de uma fundação.
O primeiro Toy Story continua funcionando justamente porque compreende com clareza aquilo que deseja apresentar. Antes de qualquer grande reflexão sobre o tempo ou sobre o amadurecimento, o filme precisa nos convencer de que aqueles brinquedos estão vivos.
E consegue.
A chegada de Buzz Lightyear desequilibra a posição de Woody dentro daquele pequeno ecossistema social. Pela primeira vez, o caubói percebe que não é único. Surge então um dos sentimentos mais humanos que existem: o ciúme.
A genialidade do roteiro está em transformar essa rivalidade em uma discussão sobre pertencimento. Woody precisa entender que não existe sozinho. Buzz precisa compreender que não é um patrulheiro espacial destinado a salvar a galáxia. Ambos precisam aceitar que fazem parte de algo maior.
Quando finalmente entendem isso, a amizade surge naturalmente.
O coletivo volta a funcionar.
É um filme mais simples que seus sucessores, mas continua sendo uma das apresentações de universo mais eficientes da história da animação.
2º lugar – Toy Story 2 (1999)
Se o primeiro filme apresenta esse universo, Toy Story 2 expande suas possibilidades emocionais.
Aqui a aventura desacelera um pouco para observar questões que continuam extremamente atuais. A principal delas talvez seja a transformação da nostalgia em produto. Woody descobre que seu valor pode ser medido financeiramente. Colecionadores enxergam nele um objeto raro. Uma peça de museu. Um item valioso.
Mas não um amigo.
A Pixar constrói então uma crítica surpreendentemente madura sobre consumo, memória e mercantilização do afeto. Algo que continua extremamente relevante em uma indústria cultural cada vez mais dependente da nostalgia.
É também o filme que apresenta Jessie e uma das sequências mais devastadoras já produzidas pelo estúdio. Pela primeira vez, Toy Story encara diretamente o medo do abandono.
Os humanos crescem.
Os brinquedos permanecem.
E essa diferença de percepção do tempo passa a definir toda a franquia dali em diante.
1º lugar – Toy Story 3 (2010)
Não me recordo exatamente da primeira vez em que assisti a Toy Story 3. Em compensação, lembro perfeitamente da sensação que seu final provocou.
Porque Toy Story 3 não funciona apenas como encerramento de uma trilogia.
Funciona como encerramento de uma fase da vida.
Durante mais de uma década acompanhamos Andy através dos olhos daqueles brinquedos. Vimos sua infância. Seus interesses mudarem. Seu quarto mudar. Sua vida mudar.
Enquanto isso, Woody, Buzz e os demais permaneceram ali.
Esperando.
Sentindo.
Acompanhando silenciosamente a passagem do tempo.
Por isso Toy Story 3 se torna tão poderoso. Ele compreende que crescer não significa abandonar aquilo que amamos. Significa aceitar que as coisas mudam.
Toda a narrativa caminha nessa direção. Da individualidade ao coletivo. Do medo à aceitação. Da despedida à renovação.
A famosa sequência do incinerador permanece impactante não por causa do perigo físico, mas porque representa o momento em que aqueles personagens aceitam, juntos, aquilo que não podem controlar.
Poucas animações compreenderam tão bem a ideia de coletividade quanto Toy Story 3.
Poucos filmes compreenderam tão bem a ideia de despedida.
E talvez seja justamente por isso que seu final continue funcionando tantos anos depois. Porque entende algo fundamental sobre a vida e sobre a própria franquia.
Nenhum fim é definitivo.
O fim é apenas um recomeço.

















