Quando, logo na primeira cena, um tornado começa a matar, um a um, a equipe de adolescentes metidos a cientistas comandada por Kate (Daisy Edgar-Jones) como um vilão de filme slasher, fica claro que estamos diante de algo diferente do “Twister” de 1996. Leia-se: um filme um pouco mais interessante.

Porque o grande problema daquele longa, estrelado por Bill Paxton e Helen Hunt, é que ele se esquiva de uma verdade fundamental: que essa coisa de caçar tornados é uma baita babaquice. Daí que, naquele caso, não importam as belas composições em widescreen : acompanhar aqueles personagens é sempre um saco. Porque Jan de Bont não é nenhuma Kathryn Bigelow e o vício em adrenalina daqueles personagens nunca adquire qualquer peso. Sobra apenas o drama matrimonial sem graça entre Paxton e Hunt.

O que este “Twisters” consegue fazer logo de cara, portanto, é instaurar um senso de perigo no mundo dos personagens: essa linha ocupacional que eles escolheram está longe de ser divertida, pelo contrário: é profundamente traumática.

Assim, é bem mais fácil se interessar pelo drama vivido por Kate e ajuda que Edgar-Jones seja profundamente carismática. Ela é relutantemente arrastada de volta ao olho do furacão por um antigo amigo, que a convence de que é possível fazer a diferença e salvar vidas com a novíssima tecnologia que tem em mãos. Como o senso de perigo é melhor trabalhado, a gente compra o barulho e segue firme com a moça.

ECOS DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS

O problema é que é temporada de tornados e todo o tipo de maluco aparece no caminho dos cientistas. O maior deles é vivido por Glen Powell com um chapéu de cowboy, seu sorriso de um milhão de dólares e aquela fuça de cafajeste que a gente adora odiar. Powell interpreta Tyler, um youtuber famoso por suas lives em que caça tempestades. Que Tyler e sua equipe tenham a mesma energia irritante dos heróis do longa de 1996 surge como uma grata surpresa: dessa vez, são os certinhos que despontam como heróis, enquanto essa equipe disruptiva surge para antagonizá-los. É como se “Twisters” admitisse que, sim, os protagonistas do longa original são meio babacas, mas que estamos em boas mãos desta vez.

É porque os tempos mudaram. Os disaster movies dos anos 1990 eram vendidos a partir da ideia do “e se”: e se isso acontecesse com você? Mas havia um quê de distanciamento nisso que permitia uma exploração lúdica do horror através de imagens espetaculares. Em tempos de crise climática, a coisa se complica. A inocência foi perdida. Cavalgar na direção do tornado rindo diante da destruição pega mal.

ENCRUZILHADA MORAL

Ao mesmo tempo, se o longa tenta condenar a exploração da tragédia em nome do lucro por um lado (Kate irá descobrir que sua equipe não é tão nobre quanto pensava), “Twisters” é parte dessa mesmíssima máquina, por outro. Afinal de contas, o filme se vende a partir da sua capacidade de impressionar a plateia com imagens de destruição. Nisso, inclusive, ele não decepciona. Desse modo, “Twisters” se coloca numa certa encruzilhada moral que não chega a resolver, mas que também não ignora. Isso o torna um artefato simultaneamente falho e intrigante.

Falho, porque para seguir desenvolvendo seu ponto, “Twisters” acha necessário dar um cavalo-de-pau e inverter o que vinha construindo. É assim que os certinhos voltam a ser os vilões e os intrépidos caçadores de tempestades comandados por Tyler se revelam, na verdade, heróis. Isso significa que, infelizmente, Powell precisa largar mão do seu jeito de cafajeste para se manter dentro das engrenagens do roteiro. Essa guinada não chega a comprometer o filme, mas o esforço para manter as coisas nos trilhos transparece.

Até chegar nesse ponto, no entanto, já havíamos sido cativados pela primeira metade do longa. E Edgar-Jones e Powell têm carisma e personagens interessantes o bastante para nos manter fisgados até o derradeiro happy ending, não importa o quão turbulenta seja a jornada.