Em algum lugar, há algum tempo, George Harrison disse que a coisa que mais gostava de fazer ao chegar em casa era ouvir seus discos de Bob Dylan. Segundo ele, era reconfortante saber que mais alguém no mundo se sentia sozinho.
Se você embarca na trip dylanesca na idade certa (a julgar pela minha experiência, por volta dos 15 anos), então a voz do prolífico compositor estadunidense se torna a única possível para os momentos de solidão. Mas o que Um Completo Desconhecido nos mostra é que, se Dylan se sentia só, então era uma solidão autoimposta.
Claro, é preciso uma dose cavalar de autoconfiança para chegar à cena e conquistá-la por completo em questão de meses. E todos, ou pelo menos os iniciados, conhecemos o ar distante de Dylan, algo entre o irônico e o desinteressado, o brincalhão e o estoico, que fomenta toda sua aura mística e enigmática. O problema é que, se o filme de James Mangold tem uma tese, é a de que, às vezes, é preciso ser um babaca para escrever bem.
Esse é o único caminho para Mangold, já que ele não parece particularmente interessado no processo de criação artística em si. As músicas já nascem prontas, magicamente conjuradas do além pelos dedos e cordas vocais de um jovem garoto do Minnesota. Ou seja: não há lá muito drama a ser extraído disso. A solução de Mangold é partir para um triângulo amoroso entre Dylan (Timothée Chalamet), Joan Baez (Monica Barbero) — cantora, compositora e sua parceira musical — e Sylvie (Elle Fanning), versão fictícia de Suze Rotolo, com quem Dylan aparece de braços dados na capa de seu segundo álbum.
O triângulo, em si, é estranhamente manufaturado, já que o Dylan de Chalamet é menos um ser humano do que um ícone vivo. Ele surge aqui como um vagante maltrapilho atravessando os EUA de carona para visitar Woody Guthrie em seu leito de morte; ele é algo como um conman, um farsante que chega à cidade sem um tostão e, graças à lábia e ao jeito misterioso, consegue abrigo e comida. Também ajuda que este forasteiro saiba compor e que suas músicas estejam sintonizadas ao zeitgeist. Mas como traduzir a genialidade para uma cinebiografia?
Há sempre um pacto em jogo. Um Completo Desconhecido nos diz que tal artista é um gênio e devemos comprar essa máxima. Se eu não conhecesse e amasse Dylan de antemão, sairia do cinema convencido? Não, por este filme. Essa é a estranha contradição do projeto: como inserir uma figura tão iconoclasta numa cinebiografia convencional? A resposta: não se insere, e o filme padece inerte na arapuca que ele mesmo armou para si.
Sobra, então, a reconstituição lindamente fetichista da Nova York dos anos 1960, bem como a demonstração de virtuosismo técnico da parte de todos os envolvidos. Chalamet chega na aspereza roufenha, nas notas prolongadas e nas súbitas oscilações do cantar do jovem Bob Dylan. Barrera imputa força e atitude à sua Baez, e sua voz se aproxima graciosamente da altivez de sua contraparte real. Já a pobre Elle Fanning fica relegada a reaction shots sempre que seu macho sobe ao palco para cantar coladinho à Joan Baez. Lá pela quarta ou quinta sequência do tipo, a coisa perde a graça.
Enquanto os atores demonstram sua proeza vocal em cenários saídos de fotografias da época, com o chiaroscuro e a fumaça de cigarro devidos, a câmera se aproxima elegantemente de seus rostos, em belos travellings flutuantes, dissolvendo o espaço que ocupam. É essa a estratégia de Mangold, número após número, canção após canção — e são muitas delas. Não espere por estrutura, desenvolvimento ou qualquer coisa do tipo. James Mangold, este velho burocrata da imagem, não tem muito a nos oferecer, a não ser uma coletânea de greatest hits.
Para quem não é parte do fã-clube (e o que você faria aqui se não fosse?), qual é a imagem que fica do grande Bob Dylan? A de um magrelo babaca, com voz de marreco e dentes amarelados de cigarro, cuja salvação é ter músicas excepcionais a dar com o pau. De fato, como Um Completo Desconhecido não é capaz de explicar o mistério ou de jogar com ele, tem-se a impressão de que as canções vieram à tona pelo puro poder da babaquice. Passar duas horas e vinte com esse sujeito é difícil, e olha que eu já tenho a minha carteirinha. Aos não iniciados: passem longe.
Ou melhor: assistam Não Estou Lá como lembrete de que uma cinebiografia pode ser mais do que uma coletânea ilustrada.














