Pontuado por lampejos de qualquer coisa singular, Um dia antes de todos os outros é a epítome do drama independente naturalista brasileiro contemporâneo. A simplicidade de um conceito: um dia para desocupar um apartamento que coloca quatro mulheres diferentes nesse mesmo espaço. O melodrama de relações: mãe e filha e uma mudança sobre a qual as duas discordam. Temas importantes: gênero, raça e classe de uma família carioca nordestina vinda da evasão regional. E o apoio em um elenco em uma situação dramática enxuta que dá a elas a oportunidade de se destacar do minimalismo da premissa: um desses lampejos que falo no início. 

Clarissa Pinheiro e Marianna Bittencourt, principalmente. A mãe que, depois da venda do apartamento onde trabalha como cuidadora, planeja voltar para o nordeste. E a filha, que não planeja ir junto. 

Valentina Homem e Fernanda Bond usam as duas como veículo do melodrama basilar aqui. Tudo ao redor delas. Do choque geracional e de opinião sobre a ida ou volta. Mas que também lidam com o que parece ser um tema. A incomunicabilidade disso. Uma não entende como foi difícil pra outra  a vinda para o Rio. Outra não entende que a uma que praticamente viveu a vida toda no Rio não enxerga mais Olinda como casa. Ao redor. Uma que tem plena consciência de classe e raça. Outra que não. Uma que fala pelos cotovelos, sem pensar. Até com as plantas. Outra que se expressa de outras formas. Pela rima da poesia e do slam. Pela música. 

Enquanto isso. Uma mulher não consegue se comunicar de forma nenhuma que não pelos olhares ou pela recusa. E a amiga que tenta, mas não consegue necessariamente articular esse meio de campo. Essa mediação entre elas. 

Tudo funciona muito. Tudo é muito agradável. Nada fica fora do lugar. Nada atrapalha. Nada provoca. O que talvez no fim das contas mais evidencie o cansaço desse tipo de drama no cinema nacional do que faça algo a favor do filme. Que, no todo, nunca supera essa pecha de cinema inofensivo. 

A direção das duas usa e abusa do apartamento em questão. Se esvaziando aos poucos. Fechado. Com a natureza lá fora. O mar logo ali mas tão distante. Assim como usa e abusa dos subtextos de classe nas conversas e nas relações. Meio que como um Que horas ela volta mais combativo e mais visto a partir da filha do que da mãe. Mas também ao mesmo tempo um Que horas ela volta menos lapidado na encenação. Mais aguado nas suas possibilidades. Mais simplista no como vai se expressar. 

Tipo as cenas que não deixam de ser deslocadas do slam e da poesia dita em um filme que é tão calcado num drama mais banal. 

No todo. Os tais lampejos realmente nos movem. A cena no mar. A ideia da comunicação. A entrega das atrizes é muito comedida. Mas são destaques de um filme que não se arrisca. Nem para um lado nem para o outro. Abraçando um singelo que para conquistar quem vê, exige um nível de interesse que ele não necessariamente cria ou justifica. 

É razoavelmente bonito. Mas será que permanece?