Se você tem dúvidas sobre como funciona as eleições nas pequenas cidades brasileiras, “Curral” é o filme preciso para compreendê-la. Dirigido por Marcelo Brennand, a narrativa se passa em Gravatá, uma pequena cidade no interior de Pernambuco, que está no ritmo da corrida eleitoral municipal. De um lado temos bandeiras vermelhas e do outro, bandeiras azuis; apesar de parecerem dar a tonalidade do roteiro, elas são apenas um lembrete de como o nosso sistema político funciona.

O roteiro assinado pelo diretor e Fernando Honesko trabalha cada passo do processo eleitoral nas ruas, mostrando desde as pessoas contratadas para distribuir flyers e virar votos até os comícios e homenagens aos líderes comunitários que apoiam o candidato eminente. A chamada festa da democracia é desnudada diante do público em cada fase de sua construção, o que é positivo tendo em vista o número de apoiadores de retrocessos como o voto impresso, contudo deixa escapar aspectos mais amplos como a política fora do período de campanhas. Isso não prejudica a trama, já que esta se concentra mais em apresentar para o público como alguém que acredita veemente no sistema pode ser tragado pela politicagem.

Curiosamente, a estratégia política de “Curral” é feita em cima do que chamariam no Twitter de terceira via: um candidato que se autoproclama a mudança, mas que é apenas uma outra roupagem para toda a velha política já estabelecida no país. A pessoa que a representa é Joel (Rodrigo Garcia), um advogado que decide se candidatar a vereador e convida seu amigo, Chico Caixa D’água (Thomas Aquino), para ser seu cabo eleitoral. A jornada de Chico se torna um dos estudos mais ricos de nosso cinema para a compreensão do sistema eleitoral brasileiro.

A jornada de Chico pelo olhar fotográfico

A câmera de Beto Martins (“Amores de Chumbo”) nos faz acompanhar quase que documentalmente os passos de Chico, tanto como um cidadão em busca de melhorias para os bairros com quem tem laço afetivo quanto como o assessor de um candidato. A produção investe em imagens naturalistas e na fluidez do personagem central, ele está sempre em movimento, mesmo quando reflete sobre a situação em que se encontra.

Com isso, há também a preocupação do diretor de fotografia em captar o espaço em que a trama se desenvolve. Estamos diante de uma cidade do agreste na qual as imagens mostram ângulos interessantíssimos que preparam o espectador para a catarse na cena derradeira, mas também evidenciam o quando o clima das eleições transparece posicionamentos nessas que eram conhecidas por serem currais eleitorais durante o período de coronelismo – não que haja tantas mudanças hoje em dia.

O desgaste da política nacional

Chico representa a derrocada do imaginário político. O personagem é, provavelmente, a única metáfora orquestrada na narrativa. Seu apelido é um indicativo da discussão mais latente na campanha eleitoral: a falta de água potável. O caminhão-pipa que dirige, a caixa com água parada que seu filho brinca, o nome do bairro em que reside, tudo aponta para esse elemento, que é um dos mais estimados no sertão brasileiro, responsável por motivar o protagonista em sua trajetória. De certa forma, ele acredita nas promessas do amigo e, por isso, se sente tão decepcionado diante da proximidade com o candidato corrupto.

Os sinais das intenções de Joel, no entanto, estão presentes sutilmente na trama. Seja pelo tom dúbio que Garcia emprega, seja pelas falas preconceituosas que solta sorrateiramente, tudo se coroa na humilhação que impõe a Chico disfarçada de “sou seu amigo e como político posso ajudá-lo”. Seu comportamento e a relação fraternal que se desgasta diante de nossos olhos é uma indicação da quebra de confiança trazida pela politicagem latente.

Perceba que o problema não é a política, afinal como diria Aristóteles, essa é a inclinação natural para a vida em comunidade, a questão é o quanto o nosso sistema está adoecido e enfraquecido por aqueles que se autointitulam a mudança necessária. Brennand não está preocupado em denunciar isso, mas em escancarar as necessidades de políticas públicas e a falha representacional nas câmaras e assembleias parlamentares.

Mais do que uma delação, “Curral” leva a reflexão sobre o que faremos diante das urnas. Uma ótima ferramenta para compreender o sistema eleitoral nacional e ponderar sobre nossas escolhas políticas.

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