Depois do sucesso de Vidas Passadas, Celine Song voltou às telas do cinema com Amores Materialistas. Liderado pelo trio Dakota Johnson, Chris Evans e Pedro Pascal, o filme aborda o amor no contexto contemporâneo, evidenciando como o ambiente urbano molda as relações por meio do materialismo, da ambição profissional e das expectativas sociais. Song questiona o conceito tradicional de romance e constrói personagens femininas independentes, mas também cheias de contradições.
O Cine Set participou de uma coletiva de imprensa com Celine Song e Dakota Johnson, na qual elas comentaram sobre as referências de Amores Materialistas e sobre como o romance contemporâneo é visto hoje.
Cine Set — Você me lembrou muito a Anne Hathaway dos anos 2000 e as comédias românticas dos anos 90. Quais foram as referências para construir a Lucy?
Dakota Johnson — Falamos bastante sobre os filmes da Nora Ephron, sobre o trabalho do James L. Brooks, Billy Wilder e, claro, Diane Keaton. Ela sempre foi uma grande inspiração para mim. Para este filme, especialmente, pensamos muito em como Nova York aparece e em como essas mulheres tentam organizar a própria vida.
Celine Song — São mulheres neuróticas, inteligentes e trabalhadoras vivendo em Nova York. É sobre isso que estamos falando: como essa mulher vive em 2025? Antes, esses personagens trabalhavam no jornalismo; hoje, muitos desses empregos envolvem lidar diretamente com clientes. Acho que o filme é muito identificável para qualquer pessoa que trabalhe com isso.
Dakota Johnson — Também me inspirei em mulheres que conheço e que trabalham com relações públicas. Estou com as mesmas publicistas há quase 30 anos e vi de perto como elas conciliam relacionamentos e a vida profissional. Existe algo universal na experiência de uma mulher que precisa trabalhar mesmo atravessando uma dor profunda — e agir como se estivesse tudo bem.
Lucy oferece esperança e compreensão para os clientes, mas, quando olha para si mesma, se sente confusa, perdida, cheia de medo. Ainda assim, ela precisa aparecer para os outros. Até algo simples como trabalhar com cólicas menstruais extremas é brutal. Homens nunca dariam conta.
Celine Song — Isso é profundamente identificável. Você simplesmente precisa seguir em frente, ser inteligente e manter o controle. O que eu respeito no amor é que ele é o único lugar onde a resposta é abrir mão desse controle. Por isso é tão cinematográfico ver uma mulher moderna, organizada e profissional perder completamente a cabeça por amor.
Dakota Johnson — Mesmo quando a Lucy começa a desmoronar, tudo ainda é muito contido. Ela ferve por dentro, mas não explode. Não seria coerente com quem ela é.
Celine Song — Exato. Não faz parte da caixa de ferramentas da Lucy descarregar isso nos outros.
Cine Set — Celine, como suas histórias se conectam com o público contemporâneo e refletem a forma como vivemos o romance hoje?
Celine Song — Tento aparecer de coração aberto, e isso precisa se refletir em como o elenco e toda a equipe aparecem também. Se conseguimos nos apresentar assim, talvez possamos pedir ao público que faça o mesmo.
O filme quer conversar com as pessoas, não impor uma mensagem. Quando alguém se permite ser vulnerável, o engajamento acontece de outra forma. Tratar o público como seres humanos vivos, inteligentes e capazes de conversas profundas é fundamental.
Dakota Johnson — Que são inteligentes.
Celine Song — Exatamente. Respeitar o público é assumir que ele é capaz de reflexões sofisticadas sobre a própria vida e sobre o amor. Filmes feitos para mulheres precisam encontrá-las nesse nível. Para mim, só existe uma maneira de ter uma conversa honesta: acreditar que o público é tão inteligente quanto você.
Pergunta — Celine, você foi influenciada por Jane Austen ou por outras comédias de costumes?
Celine Song — Sim, fui muito inspirada por Jane Austen. Acho que toda a obra dela gira em torno de como é, para uma mulher, tomar decisões sobre a própria vida. Existe algo muito profundo ali, tanto nas questões práticas do coração quanto no problema real do amor e do amor verdadeiro. Ela está, sem dúvida, na base do filme — tanto nesse lado mais pragmático quanto na ideia de seguir aquilo que o coração aponta.
Se você pensar em Orgulho e Preconceito, o que há de fascinante naquela fantasia é que o amor da sua vida também acaba sendo a solução para todos os seus problemas financeiros. Eu pensei muito sobre isso e sobre como, na vida moderna, é cada vez mais difícil encontrar tudo isso reunido em uma única pessoa. Essa tensão sempre me influenciou muito.
Pergunta — O filme tem uma visão muito interessante sobre as falsas aparências e suas consequências, especialmente no namoro. Como você acha que isso ressoa no mundo atual?
Dakota Johnson — Acho que hoje tudo gira em torno de falsas aparências. As redes sociais transformaram isso na principal forma de apresentar identidades e “verdades”, mas isso simplesmente não é real. Ficamos obcecados com o que a sociedade da internet considera valioso, quando, na verdade, o que há de mais valioso em uma pessoa é a alma, o coração, coisas que são quase inefáveis.
Essas qualidades essenciais acabam sendo substituídas por altura, renda, tamanho dos lábios ou dos peitos. É assim que passamos a medir o valor de alguém, e isso é muito triste. Talvez, agora que estou falando sobre isso, nosso filme seja mesmo um pouco triste.
Pergunta — Celine, o filme rompe tanto com as expectativas da comédia romântica quanto com aquelas criadas após Vidas Passadas. Como você enxerga a reação do público e da crítica a essas escolhas?
Celine Song — Eu sempre quero fazer algo com o qual eu mesma esteja aprendendo. O que eu jamais gostaria é chegar a um ponto em que estou criando algo apenas por saber como fazer, sem descoberta. Para mim, grande parte do processo é justamente tentar algo novo.
Antes da Dakota, por exemplo, a Lucy não existia. Ela era apenas palavras no papel. Então, muita coisa precisou nascer dentro do próprio filme. Eu entro em cada projeto como se fosse a primeira vez.
Existe uma palavra coreana, choshin, que significa “coração inicial”. No contexto criativo, ela quer dizer que você deve sempre voltar a esse ponto de origem. Não faz sentido, para mim, pensar: “Já fiz Vidas Passadas, agora vou fazer algo a partir disso”. Não. Você sempre começa do choshin.
Dakota Johnson — Eu amo isso.
Celine Song — É sempre sobre voltar ao coração inicial. A reação do público depende do contexto deles, mas, para mim, tudo começa perguntando: o que vai me fazer sentir que esta é a primeira coisa que estou criando na vida? Esse é o único caminho para a originalidade.
Pergunta — Lucy transita entre dois relacionamentos muito diferentes, mas nunca cai no estereótipo da mulher superficial. O que guiou essa complexidade na interpretação?
Dakota Johnson — Existe uma força e um fervor na Lucy, mas também uma grande inocência. Essa justaposição é interessante porque ela trabalha combinando pessoas a partir de critérios superficiais, mas, quando se trata dela mesma, percebe rapidamente que isso não funciona. Não faz a alma dela cantar.
As duas opções que se apresentam para ela são assustadoras. O desafio foi equilibrar essa mulher poderosa, inteligente e bem-sucedida no trabalho com alguém vulnerável, insegura e perdida em relação à própria vida. Eu me identifico muito com isso: no trabalho, você acha que sabe tudo; em casa, se pergunta o que está fazendo da própria vida.
Celine Song — Foi exatamente isso que me fez me apaixonar pela Dakota como Lucy. Essa capacidade de estar completamente no controle profissionalmente e, ao mesmo tempo, desmoronar por dentro. Sempre conversamos muito sobre essa contradição.
A Lucy carrega muita autocrítica e até auto-ódio, e isso é parte do que a torna tão vulnerável e bonita. Ela precisa se apresentar como alguém rígida no trabalho, mas, por trás disso, existe uma fragilidade enorme. São essas duas coisas convivendo o tempo todo.














