alvez por ter assistido Two Prosecutors em um dia cansativo, com três filmes na bagagem e ele sendo a última sessão (às 22h) desse dia no Festival de Cannes, isso tenha atrapalhado a minha apreciação como um todo em relação ao trabalho do diretor ucraniano Sergei Loznitsa.
Reconheço o quanto o filme é feroz em seu registro histórico sobre a opressão praticada pelo governo de Stalin contra os adversários políticos do regime, antes da Segunda Guerra Mundial.
A trama acompanha um jovem promotor (Aleksandr Kuznetsov) que recebe uma carta de um antigo promotor (Aleksandr Filippenko), que se encontra preso, e, ao investigar sua situação, percebe que existem inconsistências em sua prisão, levando-o a crer que ela foi injusta.
Two Prosecutors é um exercício de tensão psicológica realizado de maneira lenta por Loznitsa, para evidenciar como a burocracia soviética da época criminalizava a justiça moral e ética, negando-a em favor da máquina estatal.
Gosto da primeira metade do filme, com direito a um grande diálogo entre os dois promotores na prisão, que traz à tona a perseguição política e o terrorismo praticados pelo Estado na tortura de pessoas — sem contar a violação dos direitos humanos.
Loznitsa cria, nesse cenário, uma espécie de labirinto kafkiano deliberado para apresentar uma ameaça que o espectador não consegue ver ou identificar, mas que sente nos momentos de silêncio vivenciados pelo jovem promotor nas confrontações diárias dos bastidores do judiciário penal soviético, enquanto tenta investigar as questões que levaram à prisão do antigo colega de profissão.
É uma obra pautada pelo desconforto das cenas, no estilo visual frio que ressalta a crueldade do fascismo — uma ideologia que não é fácil de ser desmantelada, mesmo quando confrontada pelo idealismo.
O uso da teatralidade, com o texto repleto de diálogos, reforça o olhar formal da produção, sem um grande clímax ou reviravolta dramática, deixando a lógica da ação sempre alijada da narrativa e do tempo, intermediado por uma crescente impotência.
O próprio ritual de espera que o promotor de Kuznetsov experimenta nas relações com as chefias hierárquicas oferece ao público uma dimensão exata da tortura e do tédio institucional, que funcionam como personagens do filme.
Tanto Aleksandr Filippenko quanto Aleksandr Kuznetsov estão muito bem em cena, com atuações fortes nas representações de seus respectivos protagonistas.
O grande problema do trabalho é sua outra metade, quando Kuznetsov resolve fazer sua investigação particular, o que gera dispersão pelo formalismo exagerado que Loznitsa imprime — onde os diálogos mais diretos se revelam pouco atraentes para deixar um impacto duradouro.
No fundo, ainda que pertinente no debate crítico, Two Prosecutors não encontra um caminho prático para desenvolver seu argumento político, oscilando dentro da própria história.













