O primeiro Zootopia foi lançado em 2016 e inovou ao apresentar uma proposta muito criativa: uma metrópole que abriga diversas espécies de animais, com uma variedade de construções e bens de consumo, além de configurações climáticas que se adaptam às particularidades de cada espécie. A partir de animais com características humanas, típico das fábulas e animações, a animação da Disney utiliza este conceito para moldar todo universo da trama. A continuação lançada nove depois segue pelo mesmo caminho.

A proposta, ao mesmo tempo que traz algo de inédito ao currículo fortemente marcado por adaptações de clássicos literários que a Disney tem — sendo um dos raros casos de roteiros originais do estúdio —, também parece remeter muito bem à essência criativa utópica idealizada por Walt Disney, com a ambição por construir mundos visionários — desde os parques temáticos até Tomorrowland, que até chegou a virar filme — e a grande paixão por animais.

Aliado a isso, temos uma trama policial que sabe equilibrar aventura, suspense e comédia de forma harmoniosa, com uma dupla de protagonistas muito cativante, como a coelhinha Judy Hopps e a raposa Nick Wilde, em um ótimo buddy cop movie regado a elementos noir e muitas referências à cultura pop.

A ambientação não seria a mesma sem a proeza do trabalho visual, sobretudo no design de personagens, além dos acessórios e figurinos. O trabalho fenomenal de artistas visuais como Cory Loftis, Nick Orsi e Shiyoon Kim cativa os sentidos pelo tom cartunesco muito expressivo dos personagens, sem falar na paleta de cores vívida e intensa dos cenários. A caracterização das personagens tem sempre um charme especial; nesse sentido, detalhes como o “coque” de Judy na noite de gala, feito com suas próprias orelhas, dão todo o toque de personalidade que compõe esse fabuloso universo.

Neste segundo filme, a temática do preconceito permanece: se no primeiro havia a convivência entre predadores e presas como foco para se tecer comentários sociais, aqui temos o assunto abordado em outras camadas e com diferentes personagens, associado ao passado e à fundação da cidade. Assim, Zootopia 2 expande bem o universo apresentado no longa anterior, ampliando nosso interesse por ele.

Aqui é aproveitada uma lacuna do primeiro filme, que talvez muitos espectadores não tenham percebido, que é a ideia de Zootopia não ser habitada por nenhuma outra classe animal além dos mamíferos. Assim, este novo longa introduz alguns personagens novos para explicar a razão disso, como a cobra Gary e uma questionável família de linces de elite, uma espécie de máfia que construiu sua influência histórica em torno do trabalho de terceiros. Ainda por cima, eles têm em suas mãos o prefeito da cidade, Winddancer (com voz do sempre divertido Patrick Warburton). Assim, temos uma trama que discute, ao seu modo, colonialismo, segregação social, corrupção política e fake news.

É muito simbólico o uso de uma cobra como o anti-herói que precisa revelar a verdade sobre seus ancestrais, já que o réptil sempre foi utilizado para servir à representação do mal, sobretudo pela religião judaico-cristã. É desnecessário dizer que a cobra é só mais uma dentre tantos predadores da natureza. Dessa forma, a história aproveita a representação cultural negativa da cobra, bem como sua importância como símbolo do conhecimento também presente em algumas culturas, para discutir medos presentes em nossa própria sociedade. Não menos simbólica é a personalidade da cobra, que é dócil e vulnerável, tal qual o perfil de seu carismático intérprete no idioma original, Ke Huy Quan, destoando do predador temido que o animal é e como costuma ser retratado. (na dublagem brasileira, Danton Mello faz um incrível trabalho em que altera sua voz de modo a torná-la irreconhecível, captando bem a performance do ator original.)

A parceria entre Judy e Nick também é desenvolvida de modo a estabelecer a profundidade de sua amizade, abordando como um é capaz de transformar o outro em suas jornadas. Dessa forma, as desventuras que os dois passam durante a investigação são muito bem utilizadas para criar conflitos e colocar em pauta problemáticas de caráter da dupla, que aprofundam a natureza de seu vínculo e o seu potencial heroico.

Assim como no primeiro filme, o segundo capítulo também consegue repetir a façanha de entregar um surpreendente plot twist que causa uma forte tensão e um clímax poderoso, que não deixa nada a desejar em comparação a qualquer thriller live action.

A despeito de seu humor, que ora funciona bastante, ora distrai e cansa (sobretudo quando insiste em piadas de trocadilho, ainda que sempre criativas), Zootopia 2 se mantém muito bem em sua proposta, divertindo com seu tom aventuresco e também fazendo refletir com seus comentários, num cenário rico que pede por muitas revisitações.