Quando as primeiras informações sobre o núcleo familiar de Sophie Charlotte e Dira Paes em “Três Graças” saíram na internet, o X (antigo Twitter) veio abaixo por não aceitar que Sophie seria mãe de uma adolescente de 17 anos e Dira, consequentemente, avó. O que Aguinaldo Silva pretende discutir na futura novela das nove é o que Ana Lígia Pimentel traz aos holofotes em “Os Avós”, longa-metragem amazonense selecionado para a 53a edição do Festival de Gramado.

A diretora carioca, radicada no Amazonas desde 2006, analisa uma situação observada na convivência dela com casos do tipo nas comunidades ribeirinhas. “Em 2026, fará 20 anos que eu frequento comunidades ribeirinhas e sempre me espantou as pessoas serem avós tão novas. Em 2017, quando fui morar na comunidade em que a minha mãe reside, eu pensei: ‘vou fazer um documentário sobre isso’”, contou a diretora, cuja inquietações para esta produção caminham ao lado da jornada de vida e da criação com uma mãe e irmão sociólogos. “Sempre olhei a sociedade como um coletivo que precisa ser cuidado. A minha inquietação é absoluta em relação a tudo: a fome, o condicionamento humano, comportamento estruturais/culturais repetitivos, traumas”.

A construção dos personagens

Filme está selecionado para o Festival de Gramado deste ano na categoria de documentários nacionais.

Contando com personagens de áreas periféricas de Manaus, como a Comunidade do Livramento e o Parque das Tribos, “Os Avós” narra a trajetória de homens e mulheres que entre 30 e 35 anos já ocupam a referida função dentro do seio familiar. “O filme aborda como funciona a dinâmica familiar de quem passa por essa condição e como lidam em serem avós tão novos”, revelou a  diretora. Para isso, os personagens escolhidos possuem trajetórias muito diferentes, seja em relação a estruturas familiares, classes, recortes sociais e etnias, com singularidades e peculiaridades de como foram condicionados a esse caminho. “É importante que seja dito o quanto essa situação ocorre em cenários cujo único diálogo entre si é uma juventude que foi interrompida por ter que cuidar do outro”, complementou Ana. 

O processo para a escolha dos protagonistas de “Os Avós” passou por intensa pesquisa, contando com pessoas das comunidades escolhidas para auxiliar nesta missão. A ativista indígena Vanda Witoto, aliás, foi uma delas, atuando no Parque das Tribos, maior bairro indígena de Manaus. “Ela havia comentado conosco sobre a problemática de maternidades precoces que existem nessa localidade e, consequentemente, a existência de vários avós jovens. Tê-la ao nosso lado foi fundamental para encontrar os personagens nessa comunidade multiétnica e compreender também a dinâmica indígena”, disse.

Em relação à comunidade ribeirinha, a equipe de produção teve que fazer uma seleção. “Conhecia várias famílias, procuramos entrevistá-las e depois decupamos, porque infelizmente não pudemos colocar todas as narrativas”, contou. Nesse processo, chegou-se a seis famílias que têm suas jornadas documentadas em “Os Avós”. 

Temática regional com ecos mundiais

“Os Avós” marca a estreia de Ana Lígia Pimentel na direção de documentários em longa-metragem.

Para “Os Avós”, Ana Lígia Pimentel se baseia na estética do cinema russo com referências a Sergei Eisenstein, Dziga Vertov e a busca pela vida real no cinema olho. Um ponto importante nessa construção são os dados do Censo do IBGE que a realizadora utiliza como motivação do documentário. A edição de 2022 aponta que a região Norte é o território onde há mais avós jovens. “Percebe-se que isso é um condicionamento cultural. O braço do Estado já chegou de diversas maneiras, por exemplo, com o Ministério da Saúde. A prevenção já acontece, mas isso não se estende às questões pessoais e psicológicas”, comentou. O que chama a atenção é a repetição de um comportamento geracional: “as pessoas continuam tendo muitos filhos e tem uma repetição de exemplo do seio familiar, de dentro de casa. Então, a gente procurou trazer esse comportamento para dentro do documentário”, continuou.

O documentário se identifica com uma temática universal, uma vez que existem avós jovens no mundo inteiro. A gravidez na adolescência é uma questão universal, no entanto sendo mais divulgada e frequente em um lugar do que em outros. “Existem leis ainda no Brasil que obrigam crianças a maternar, leis que são muito rigorosas. Crianças de 10, 11 anos que são obrigadas a gerar filhos, levar a gravidez adiante, sem chances de interrupção. Isso é uma temática que tange todo o Brasil e eu acredito que toca dinâmicas familiares que são complexas”, afirmou. 

Time coeso

Maria Ribeiro retorna ao Festival de Gramado, onde foi consagrada com “Como Nossos Pais”.

Gravada em comunidades ribeirinhas e periféricas de Manaus, “Os Avós” conta com uma equipe enxuta, predominantemente amazonense e feminina. “Fizemos uma equipe pequena por ser um trabalho muito íntimo em relação àquelas famílias, em respeito ao próprio espaço delas, o que significa não colocar muitas pessoas em suas casas e em suas vidas”, revelou Ana Lígia ao destacar a coesão do time. Isso, segundo ela, possibilitou um set leve no qual, “apesar do tema pesado, nós conseguimos criar uma mini família bem legal”, comentou. 

Os profissionais de fora do Estado foram de áreas que não se conseguiu contratar pessoas de casa devido a alta demanda e agendas cheias durante o período de gravação. Uma dessas profissionais é a diretora de fotografia Ana Rezende, do Rio de Janeiro. “Gosto muito do olhar dela voltado para documentários. Ela consegue captar com um olhar delicado criar intimidade com as pessoas por meio da câmera”, contou a diretora que já fez parceria junto a fotógrafa em outros projetos, ao ponto de Ana Lígia afirmar que entrega “todos os roteiros para ela, acreditando em seu olhar único na direção de fotografia”, declarou.

Outro membro do time de “Os Avós” que se destaca é a atriz carioca Maria Ribeiro, que empresta a voz para guiar a narrativa. Atuando no podcast “Par ou ímpar”, disponível no Spotify, e na narração de audiolivros, não apenas gravou os textos do documentário, como também é uma grande apoiadora do projeto. “Desde a primeira vez que eu falei o nome dela para equipe, todo mundo incentivou a tentarmos. E ela foi super solícita, a equipe dela também foi super parceira nossa. Maria foi um dos maiores presentes na trajetória do documentário até aqui”, contou a diretora, que também confirmou a presença da atriz em Gramado junto à equipe do filme. 

Marcos para além de Gramado

Documentário foi gravado em regiões periféricas e ribeirinhas de Manaus.

Fascinada por contar histórias que a deixam curiosa, a diretora enxerga “Os Avós” como um marco em sua carreira, uma vez que é o seu primeiro documentário em longa-metragem. “Apesar de amar assisti-los, nunca foi muito a minha linguagem, porque os meus primeiros curtas foram todos de ficção. Como sou editora, já tinha editado vários documentários para outras pessoas, mini programas e até mesmo reportagens. Ou seja, sempre transitei com as imagens reais, mas tendo um carinho maior pela ficção. Sou roteirista, gosto de escrever roteiro, tenho muitas ideias de filme – não documentais -, mas então essa história se apresentou pra mim, no meu cotidiano”, revelou a diretora que se inspirou, conversando com os amigos na comunidade do “Livramento” e notando o quanto mesmo jovens já eram avós.

Nesse panorama, a diretora percebe o quanto “Os Avós” se difere de “Sete Cores da Amazônia”, sua produção anterior, baseada na obra de Ademar Vieira. “”Sete cores” foi desenvolvida com uma verba pequena, enquanto “Os Avós” teve um orçamento oito vezes maior, o que oferece melhoria na qualidade da imagem e da própria técnica cinematográfica, além de realmente ter-se um set de cinema”, comentou. Ela percebe ainda que no atual projeto, teve tempo, paciência, maturidade e experiência, “elementos importantes para fazer as escolhas no filme”, pontuou. 

Para Ana Lígia Pimentel, “Os Avós” é um filme especial, que marca sua carreira. “Não apenas por estar no Festival de Gramado, mas também pelo alcance gigantesco que oferece ao cinema amazonense”, afirmou, “mostra que temos capacidade técnica, visual e toda a abordagem cênica”, continuou. Todos elementos que evidenciam a capacidade que a região possui de ser representada nos maiores festivais nacionais e internacionais.