É sempre uma felicidade quando podemos testemunhar o nascimento de uma estrela e/ou um/a grande realizador/a. Aquela sensação de surpresa e alívio por ainda ter pessoas comprometidas com a arte e a sensibilidade aflorada é absurdamente satisfatória.

E acabo de testemunhar isso com “Adeus Garoto”, longa de estreia do diretor napolitano Edgardo Pistone. Seu filme soa como uma anunciação de uma promissora carreira, mas também uma anunciação dentro da narrativa da película, um coming of age dramático, seco e sofisticado.

Attilio (Marco Adamo) é um adolescente de 17 anos que, juntamente com seus amigos, nasceram e cresceram na periferia. São meninos à toa, o que conhecemos por aqui no Brasil com “nem nem”; fumam, bebem, passam o dia na praia e vivem de pequenos furtos para manter suas necessidades juvenis.

Jovens que não tem muita perspectiva de vida para além daquele lugar marginalizado em que, também, a contravenção é uma imposição para a sobrevivência. E Attilio sabe muito bem disso, pois seu pai acaba de sair da prisão, deve uma pequena fortuna a um agiota, este por sua vez, circula a vida do jovem em busca do pagamento, uma vez que “algumas pessoas herdam dinheiro, outras herdam problemas”. E ele herdou problemas do pai.

Paralelo a isso, ele aceita trabalhar para um outro contraventor, este cafetão, para proteger a jovem prostituta Anastasia (Anastasia Kaletchuck), dessa relação noites afora nasce uma paixão entre eles.

O início do filme fala sobre a dualidade da vida, do peso e medidas, como um sujeito não é totalmente bom ou mal e isso ressoa muito nos dois personagens centrais. Ambos são dois jovens que sabem muito pouco da vida, mas reconhecem a miséria instaurada. É esse elo que os une. O amadurecimento de Attilio é gradativo, porém intempestivo, como pressupõe a sua pouca idade. Já Anastasia é um pouco mais madura por ter que ser, explorada sexualmente e longe da família, precisou inventar a si mesma para sobreviver na dura realidade.

Em certo momento do filme, ainda no seu início, há uma cena muito bonita de queima de fogos. E volto ao início quando falo da anunciação, como espécie do que está por vir e como Attilo deve dar adeus ao garoto em si para tornar-se um homem, afinal, ingenuidade e bondade não é uma opção no lugar em que se vive.

A direção de Pistone em conjunto com a fotografia em preto e branco de Rosario Cammarota é de uma beleza ímpar e tem todo um significado, talvez as cores aqui pudessem desviar a atenção de toda melancolia, incompletude, do vazio e do silêncio que ele busca imprimir em sua estreia. 

Toda a angústia retraída e a paixão internalizada entre os protagonistas tem também todo o mérito dos seus atores. O jovem estreante Adamo brilha em um tipo calado em que sua fúria está em seu olhar, enquanto a vulnerabilidade e incerteza do amanhã estão impressos no corpo de Anastasia e sua beleza à lá Brigitte Bardot. Duas performances que extraiu o máximo dos seus intérpretes, sem a necessidade de grandes rompantes.

Há beleza em meio a miséria humana, há algo de heroico em ir até as últimas consequências para proteger a quem se ama, mas também é preciso saber lidar com as emoções e atos inflamados pelo caos compulsório. Dito isso, mal posso esperar pelos próximos passos de Edgardo Pistone.

À espera.

Autor

  • Filósofo, mestre em Sociedade e Cultura na Amazônia. Viciado em cultura e divas pop. Apaixonado por audiovisual (e isso inclui os novelões). Produtor de cinco curtas-metragens, entre eles "Manaus Hot City" e "Meus Pais, Meus Atores Prefiros". Jurado na 5° Edição Olhar do Norte 2023 e Curador do Ecossistema do Audiovisual no Festival Aceita 2024. E contando...!

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