Grandioso, venerável, admirável, fantástico, fabuloso, inesquecível. Adjetivos são poucos para classificar a potência de um ser da magnitude de Grande Otelo. Multifacetado, curioso, rebelde (com causa), consciente e gigantesco, o artista passeou com sua luminosidade e o dom de fazer sorrir e chorar na mesma proporção com seus olhos tristes e expressivos, mas cheio de vivacidade.
É assim, com um gostinho de muitos anos de atraso, que chega agora o documentário “Othelo, O Grande”, dirigido por Luiz H. Rossi dos Santos. O filme vencedor do Redentor de Melhor Documentário em 25° Festival do Rio 2023 traz uma pincelada por uma trajetória inesquecível, singular, relevante. Diferente da tradicional estrutura de um documentário, aqui, tudo é contado em primeira pessoa; a voz de Sebastião Bernardes de Souza Prata, o menino nascido no que conhecemos hoje como Uberlândia (MG) que, ainda criança, foi-se embora com uma companhia de artistas, com o aval da mãe, ganhar o Brasil sob o nome artístico de Grande Otelo. O menino que não cresceu em estatura, mas que se agigantou nas artes por excelência máxima.
Falar de Grande Otelo é falar para além do artista: nascido em 1915, ou seja, menos de trinta anos da “Abolição da Escravatura” (em aspas mesmo, se é que me entende!), esse menino-homem negro ousou em ser artista e fazer desse ofício o seu ganha pão.
Como ele mesmo diz, não foi fácil. Se ser negro em pleno século XXI ainda é difícil, imagine nas primeiras décadas do século passado? Não foi um caminho de flores, houve espinhos, mas ele passou com louvor, claro, não sem antes sofrer em sua própria pele negra o racismo, a exclusão e a negação de seu talento. Mesmo famoso e arrastando multidões no Cassino da Urca, o artista tinha que adentrar o clube pelas portas dos fundos, enquanto os endinheirados brancos riam de suas piadas, mas a estrela tinha que saber o seu lugar e esse lugar era pelos fundos.
Contudo, Otelo não se reprimia, consciente do seu corpo político, sabia que tinha que brigar na hora certa e em outros momentos, aceitar tais dissabores para sobreviver. E sua sobrevivência não era somente na vida artística como também na privada, quando passa por um grande trauma que mexeu com seu psicológico (sua primeira esposa, Lúcia Maria, matou o filho do casal, o Chuvisco, então com seis anos de idade, e depois suicidou-se), mesmo assim, seguiu forte e reconstruiu-se.
Otelo, transitou pelo cinema, teatro, televisão, pela Chanchada, pelo Cinema Novo, fez novelas, humorísticos, compôs sambas, esse pequeno gigante viu a cultura brasileira ser reconhecida mundo afora – a passagem com Orson Welles é bastante curiosa, e ser tão rica e diversificada fazendo parte disso.
Mesmo que seus papéis, em sua maioria, caíssem no estereótipo do negro malandro, de festejos, sem trabalho, bêbado, alívio cômico e outros estigmas que marginalizam corpos como o seu, Otelo fez todos os seus trabalhos com muita dedicação e amor. O ator sabia que, sendo negro, teria que trabalhar três vezes mais que um ator branco para garantir o seu sucesso e o sustento de sua família. Esse recorte racial não planfetário, pois faz parte da jornada desse heroi, é apresentado no filme de maneira sucinta e objetiva, até mesmo quando há uma fala de outra lenda das artes, Abdias Nascimento (fundador do TEN – Teatro Experimental do Negro).
O filme tem ótimos recortes de época, filmagens e depoimentos do artista, entretanto, menos de 90 minutos soam muito pouco para uma carreira extensa como de Grande Otelo, como as suas parceiras com Oscarito (e isso merecia um documentário à parte, quem conhece sabe e isso é mostrado muito rapidamente) e Ruth de Souza, por exemplo, bem como sua trajetória na televisão. Ficou um gosto amargo de quero mais.
O maior sucesso de Grande Otelo nos cinemas sem dúvidas foi “Macunaíma” de Joaquim Pedro de Andrade (1969), o herói sem nenhum caráter, como escreveu Mário de Andrade. Ah, uma pena Mário ter, possivelmente, testemunhado apenas os primeiros anos do nosso patrimônio histórico, o primeiro negro protagonista no cinema brasileiro, com uma carreira gloriosa que foi a de Grande Otelo, o nosso héroi com muito, muito caráter.













