No oceano de remakes, live actions, sequels e prequels, chegou a vez de Corra que a Polícia Vem Aí ganhar a sua em 2025. Marco da comédia pastelão norte-americana, a comédia de 1989 é uma deliciosa sátira ao gênero policial, levando situações absurdas ao extremo, com um humor que transita entre o nonsense, a paródia e a comédia física. 

Corra que a Polícia Vem Aí coroava o auge do trio ZAZ (Jim Abrahams, Jerry Zucker e David Zucker) iniciado em 1980 com “Apertem o Cinto, o Piloto Sumiu”, a série “Esquadrão de Polícia” (1982) e “Top Secret!: Superconfidencial” (1984). A produção mira nos filmes policiais de espionagem, especialmente, na série James Bond com os equipamentos de última geração, os vilões terríveis dispostos a destruir o planeta e as mulheres deslumbrantes apaixonados pelo agente secreto. 

Diferente de muitas obras cômicas da década de 1980, o longa de Zucker resgata o tom das comédias screwballs da década de 1930, como Levada da Breca (1938) e consegue criar e seguir um estilo que não depende de referências datadas, mas sim da universalidade do riso diante do ridículo. Não são necessárias piadas de cunho preconceituoso ou ofensivas; basta apenas uma batida de carro ou um queijo falante para arrancar um riso do espectador. 

Ainda que seja impecavelmente dirigido e roteirizado, o longa é majoritariamente marcado pela atuação impecável de Leslie Nielsen. A interpretação do detetive Frank Drebin, um policial atrapalhado e ao mesmo tempo absurdamente confiante, dá vida a uma sucessão de histrionismos visuais e verbais que beiram o surreal – vale citar aqui um trocadilho com a palavra ‘castor’, que infelizmente se perdeu na tradução. 

Nielsen domina o timing cômico e eleva o filme além da caricatura, transformando cada tropeço e cada expressão séria em momentos memoráveis de humor físico (como no seu videoclipe romântico de um relacionamento de um dia). Vale aqui um destaque também para Priscilla Preslley, em seu debut nas telonas, que não faz feio em acompanhar o veterano. 

A comédia de ‘Corra que a Polícia Vem Aí’  não se limita ao slapstick pastelão tradicional, mas o expande ao satirizar o cinema policial e aos clichês narrativos de Hollywood. O longa ri da própria linguagem cinematográfica, subvertendo expectativas e brincando com o absurdo em cada cena. Talvez isso explique o filme não parecer datado em detrimento de seus contemporâneos: ele constrói seu humor sobre situações universais, compreensíveis em qualquer época e sem ofender a ninguém. 

O humor é bobo, exagerado, camp, nunca ofensivo. Além disso, um dos méritos é, com certeza, ser curto e leve, propício a qualquer ocasião. Essas qualidades fazem com que ele continue sendo uma obra divertida para novos públicos, mesmo quase quatro décadas após sua estreia. 

Ao fim do dia, ‘Corra que a Polícia Vem Aí’ é um clássico da comédia que resiste ao tempo com brilho raro. Sua combinação de sátira inteligente, comédia física e nonsense o torna atemporal, garantindo gargalhadas tanto para quem o viu nos anos 80 quanto para quem o descobre hoje.