O novo “Corra que a Polícia Vem Aí” é como uma criança hiperativa tentando impressionar os pais. O filme te esbofeteia com um milhão de piadas por segundo até te levar a nocaute, apenas para atirar algumas piadas a mais por precaução. É como aquela gag no final do longa original de 1988: depois que o vilão despenca do alto de um estádio, ele ainda é atropelado por um ônibus, um rolo compressor e, finalmente, uma banda marcial.

Dou um exemplo: o novo filme, após uma resolução um tanto quanto abrupta, é suplementado por uma cena pós-créditos, mostrando o que acontece com os policiais que passam pela corregedoria — piada número um. Essa cena descamba então para uma nova piada envolvendo um freeze frame, que é arrastada por mais alguns minutos. Acaba a sequência e o longa parte para uma nova piada — a terceira em menos de cinco minutos de, lembrem-se, créditos finais: desta vez, uma homenagem ao longa original. Quando finalmente cortamos para a tela preta e as letrinhas começam a subir, recebemos mais um gracejo: a voz áspera de Liam Neeson entoando uma balada infantil. E, enquanto isso acontece, o espectador mais atento pode encontrar mais algumas piadinhas escondidas entre os nomes nos créditos.

Por um lado, esse desejo obstinado por nos fazer rir impressiona. Não estamos acostumados a ser tão paparicados assim, ainda mais em tempos de escassez de comédias escrachadas. Mas não só um número considerável de piadas erra o alvo, como o imperativo do “Mais! Mais! Mais!” acaba abreviando as que funcionam. O que não deixa de ser uma estratégia de compensação: em meio a essa avalanche de gracinhas, alguma delas tem que funcionar.

É o que acontece com a cena da câmera corporal, hilária, que faz o simples e se sai bem com uma boa e velha piada de caganeira. Já alguns momentos com referências pop foram recebidos com um estrondoso silêncio da plateia — caso de um longo e sofrido diálogo envolvendo “Buffy, a Caça-Vampiros”, por exemplo (mas me alegro em reportar que uma menção passageira a “Sex and the City” arrancou gargalhadas altissonantes da moça atrás de mim).

E há ainda aquelas piadas que, inexplicavelmente, são encerradas antes de atingir seu potencial máximo: ficamos esperando, por exemplo, que a pancadaria ao som de “Fergielicious” atinja patamares mais absurdos, dadas as circunstâncias da trama em seu terço final. Mas esse momento nunca chega.

Não que não se trate de uma cena engraçada: ela é, mas apenas o bastante para um sorriso ou risada breve. A gente fica admirando o que o filme almeja mais do que realmente se escangalha de rir.

Claro, ajuda que Liam Neeson e Pamela Anderson estejam absolutamente comprometidos com a palhaçada. Neeson, por carregar décadas como astro de ação em seu cenho franzido, traz uma camada a mais de humor à tela. Não é apenas o caso de estar “interpretando a sério”, playing straight (como Leslie Nielsen o fizera antes dele); mais do que isso, sua carranca sulcada é perfeita para encarnar um policial durão elevado à mais estúpida das potências.

Esse casal estelar não deixa a peteca cair, mesmo quando o restante do filme está cambaleando — como aquele bobo atrapalhado que acaba destruindo tudo ao tentar agradar demais.