Selecionado para a mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2026, Elefantes na Névoa marca a estreia em longas-metragens do diretor nepalês Abinash Bikram Shah. Ambientado em um vilarejo cercado por uma floresta habitada por elefantes selvagens, o filme acompanha Pirati, líder de uma comunidade Kinnar, após o desaparecimento de uma de suas filhas.
Misturando investigação, drama íntimo e comentário social, o longa mergulha nas relações de afeto, pertencimento e sobrevivência construídas dentro de uma comunidade marginalizada. Com um elenco que inclui atrizes da própria comunidade Kinnar, o diretor busca retratar personagens complexas, atravessadas por desejos, dores e contradições humanas.
Em entrevista ao Cine Set, Abinash Bikram Shah fala sobre a descoberta dessa comunidade durante a pandemia, a relação entre ancestralidade e identidade queer no Sul da Ásia e a construção política e emocional de Pirati. O cineasta também comenta as referências culturais do filme e a importância de enxergar suas personagens para além dos estigmas sociais.
Cine Set (Pâmela Eurídice) – Como surgiu a ideia de contar essa história?
Abinash Bikram Shah – Foi durante o período da COVID-19, uma época muito difícil, em que havia tantas notícias pesadas e acontecimentos horríveis ao redor do mundo. Para escapar um pouco disso, eu assistia a muitos filmes e séries, além de passar bastante tempo rolando o feed do celular. Foi assim que conheci essas mulheres pelo TikTok. Elas faziam vídeos muito divertidos, postavam o tempo todo, e eu comecei a acompanhar o conteúdo delas com frequência.
O que mais me chamou atenção foi o contraste. Enquanto elas publicavam vídeos cheios de humor e alegria, havia muitos comentários negativos e ofensivos nas redes. Mesmo assim, elas simplesmente não ligavam para isso e continuavam produzindo conteúdo. Achei essa atitude muito interessante e poderosa.
Houve uma pausa naquele período mais intenso da pandemia, e eu resolvi ir encontrá-las. Quando cheguei lá, elas foram extremamente acolhedoras. Claro que havia algumas dúvidas sobre quem eu era e quais eram minhas intenções, o que é completamente compreensível, mas ainda assim me receberam muito bem. Inclusive, me convidaram para jantar.
E foi ali que encontrei algo muito forte: uma verdadeira família escolhida. Muitas delas tinham sido expulsas de casa ou marginalizadas pela sociedade. Juntas, criaram um espaço de afeto, apoio e pertencimento. Ver como elas se conectavam e construíam esse vínculo familiar foi algo que me marcou profundamente. Foi aí que nasceu a essência da história.
Cine Set (Pâmela Eurídice) – O filme une tradição, ancestralidade a um ambiente queer. Como vocês encaram a proximidade entre essas temáticas?
Abinash Bikram Shah – A cultura Kimna existe há séculos. Não é algo novo. E eles vêm de uma espécie de grupo religioso,seguem algumas crenças próprias. São mulheres trans marginalizadas pela sociedade. Hoje, elas formam essa comunidade, esse grupo de mulheres trans e vivem como uma família. Então, não é algo recente. Isso vem de um período muito antigo, tipo 500, 600, 700 anos atrás.
Até existe um trabalho específico. No Nepal, chamam de kinner. E esse trabalho específico é acompanhar essas pessoas, sabe? Quer dizer, no Nepal acreditam que elas têm um poder espiritual de abençoar, e as pessoas realmente acreditam nisso. Mesmo que muita gente não goste muito de lidar com elas, por causa dessa qualidade espiritual acabam convidando-as.
Cine Set (Pâmela Eurídice) – Há uma troca de liderança dentro da casa, lembrando muito as famílias dos bailes nova-iorquinos. Há alguma ligação? Quais foram as referências que vocês usaram?
Abinash Bikram Shah – Não, na verdade, nós temos essa comunidade kinner, e ela é tão profunda que, se você decidir pesquisá-la, vai levar anos e anos da sua vida. Só o fato de tentar trazer essa cultura para fora já é um grande desafio. Não apenas um desafio, mas… é algo tão vasto que eu consigo encontrar material suficiente dentro dessa própria cultura. Não preciso olhar para fora; só preciso permanecer dentro dessa comunidade.
Sei que existe essa cultura queen etambém essa relação de mãe e filha. Também assisti a algumas séries sobre isso. Aqui é meio parecido, mas não é algo novo para nós, sabe? No Sul da Ásia — na Índia, no Nepal, no Paquistão, em Bangladesh — isso também existe há séculos.
Cine Set (Pâmela Eurídice) – Pirati é a líder de uma comunidade queer, mãe e uma mulher que quer ser amada. Qual o peso politico ou a importância da figura de Prirati?
Abinash Bikram Shah – Contar a história dessa comunidade feminina que vive à margem da sociedade já é por si só algo político. Mas, para mim, conscientemente, eu tentei olhar para isso de forma puramente humana.
Minha ideia com esse filme era mostrar essas mulheres. Não são apenas mulheres trans, sabe? Elas são humanas, amam, sentem dor, têm raiva, têm desejos. O nosso desejo era conhecê-las melhor de verdade. Então, a empatia foi a coisa mais importante para mim.
O que a Pirati representa é alguém que, no começo, tenta agradar todo mundo. Busca agradar sua líder, tenta agradar os moradores da vila, tenta agradar sua amante. Para ela, existe essa sensação de que precisa dar mais de si para ser aceita, entende? E, para mim, isso é algo muito humano.
Depois ela percebe que precisa escolher entre uma coisa ou outra. Isso é algo profundamente humano. Para mim, o mais importante era construir a Pirati como um ser humano completo. E essa dimensão política inevitavelmente aparece, porque eu escrevi esse filme querendo dizer algo específico. Mas, acima de tudo, a Pirati é um ser humano completo, como eu. Alguém que tem desejos, que se sente imperfeito.













