Desde a exibição no Festival de Berlim na competição oficial pelo Urso de Ouro, “O Último Azul” acumula elogios da imprensa internacional. O novo drama distópico de Gabriel Mascaro se passa na Amazônia quando o governo brasileiro decide mandar os idosos para uma região isolada em nome da produtividade. No meio disso, está Tereza, uma mulher acima dos 70 anos, que embarca em uma jornada inesquecível para escapar deste destino.
Atriz com passagens em sucessos de bilheteria do cinema brasileiro como “Guerra de Canudos”, “De Pernas pro Ar” e “Linha de Passe”, Denise Weinberg é a protagonista de “O Último Azul”, talvez, seu maior papel nas telonas. Ao lado, um elenco formado por atores amazonenses, entre eles, Adanilo, a mexicana Miriam Socarras e Rodrigo Santoro – o filme, aliás, é a primeira parceria do galã com Mascaro.
No dia seguinte à exibição do filme na Berlinale, Denise e Santoro conversaram com a Natália Bocanera, parceira do Cine Set nesta cobertura. Confira abaixo:
Cine Set/Coletivo Crítico – Rodrigo, como um ator com uma carreira internacional muito consolidada e impressionante, o que você nota sobre a percepção estrangeira de obras como O Último Azul e de seu próprio personagem, que trazem uma brasilidade bastante característica?
Rodrigo Santoro – Para te responder, vou falar de uma senhora alemã que veio falar comigo após o término da sessão: ela estava extremamente emocionada, sentindo-se representada e intrigada com a forma como a Amazônia aparece. É uma região muito idealizada e romantizada para o estrangeiro. O Último Azul mostra uma Amazônia industrial, realista, mas que flerta com o mágico.
O meu personagem, inclusive, traz isso através de um caracol, um psicoativo que se encontra no meio da floresta. É interessante também como o Cadu foge do padrão deste tipo de filme, porque a tendência é idealizar a liberdade masculina com a figura do viajante que foge das pressões do lar, mas aqui é o oposto – o barco representa uma prisão, afinal, ele está ali por viver longe do seu grande amor. O Cadu expõe sua fragilidade por estar com o coração em luto, contando com uma força sobrenatural, bem metafórica, para conseguir aceitar o seu desejo e passar por cima do julgamento social.
O cinema do Gabriel [Mascaro] é bastante autoral. Perguntei a ele sobre a opção de fazer o formato mais quadrado [tela 1:1]. A resposta dele foi justamente para não romantizar a paisagem da Amazônia, deixando o interesse na paisagem humana. Então, a gente fica com Teresa (Denise Weinberg) nesta Amazônia linda, sim, mas mais realista e pungente.
Logo, o olhar do estrangeiro é de surpresa, até porque o filme vai na contramão de uma série de estereótipos e caricaturas. Por isso me interesso tanto em fazer O Último Azul.
Cine Set/Coletivo Crítico – É comum notar como os filmes do Gabriel são tratados como distopias, mas, se olharmos bem, as realidades dos filmes dele estão bem próximas do nosso mundo…
Rodrigo Santoro – Ele não é futuro, não é presente, não é passado. É uma realidade criada para dar suporte à narrativa, mas perfeitamente possível.
Cine Set/Coletivo Crítico – Como você acha que este seu novo personagem irá repercutir no Brasil no sentido de masculinidade, afinal, ele faz parte desta jornada de empoderamento da Rosa e ainda encontra acolhimento nela?
Rodrigo Santoro – É um personagem que traz uma outra visão do masculino. Justo em um momento em que isso está muito debatido, com toda essa desconstrução. O Cadu empodera a Rosa, de fato, e juntos se descobrem. O interessante é como a relação deles começa de forma muito dura; ele é um cara extremamente fechado, amargo, enquanto ela tem quase uma pureza, uma luz que vai encantando-o até que o quebra. No fim, o Cadu, mesmo sem querer, a liberta e a transforma com a experiência do psicoativo. Acho um personagem lindo.
Tinha vontade de trabalhar com o Gabriel desde que assisti Boi Neon; fiquei muito impressionado. A gente flertou em Divino Amor, mas eu já estava trabalhando em outro projeto. Certo dia, ele me procurou dizendo que tinha escrito um personagem para mim com uma participação afetiva. Fiquei emocionado, e ele disse para marcarmos um encontro para que eu trouxesse coisas para ele. Ele é um cara maravilhoso; o Gabriel sabe exatamente o que quer, mas está sempre com uma escuta muito aberta. Algumas vezes, eu propus coisas no set, testei, e ele quis manter porque funcionou.
É um processo muito vivo de um cinema autoral em que acredito desde Bicho de Sete Cabeças.
Cine Set/Coletivo Crítico – O Último Azul traz uma tensão na temática, mas, ao mesmo tempo, apresenta pausas quase meditativas…
Rodrigo Santoro – Exatamente. Isso foi obtido na edição. Eu vi o filme ontem pela primeira vez. Pediram para ver no iPad antes da coletiva de imprensa, mas eu queria ter a primeira impressão no cinema, ao lado de outras pessoas, como gosto de ver. Foi incrível.
O filme tem um ritmo, uma pulsação, investindo na protagonista e na jornada interna. Então, ele está lá na Amazônia, tudo acontecendo, mas você fica com ela o tempo todo, conectado, torcendo pela Rosa. O Último Azul é sobre esperança, o direito de sonhar e sobre como nós, como sociedade, olhamos para o idoso em um mundo dominado pela performance, produtividade, o resultado, o algoritmo dizendo o que funciona e o que não funciona… Por isso, é um filme muito potente e importante.
Cine Set/Coletivo Crítico – O Último Azul parte de um contexto social de improdutividade da pessoa idosa. A Teresa encara uma aposentadoria compulsória, mas ela mostra o contrário a partir do empoderamento feminino vindo através da idade. Diante disso, como você nota a representação da pessoa idosa no cinema e de que forma os filmes têm um papel social a cumprir nesse sentido?
Denise Weinberg – O cinema é uma arte completa, tal qual o teatro, logo, possui um papel político e social nessa construção. O debate sobre o etarismo é algo novo, até pelo fato das pessoas estarem vivendo mais e com menos filhos, logo, a sociedade está ficando muito velha, o que faz com que não haja gente para cuidar. Apesar da estética charmosa do Gabriel, O Último Azul não é uma obra utópica nem distópica, mas extremamente real.
Isso pode acontecer amanhã – quem sabe surja uma nova pandemia e o governo baixe uma norma parecida. Há um preconceito na sociedade de que o velho tem que ficar em casa fazendo tricô. “Ah, tá velho”, dizem. Isso é muito feio, fruto deste capitalismo selvagem em que é necessário estar sempre produzindo. Basta olhar a Fernandona [Montenegro], com 95 anos, filmando. Há essa bobagem da síndrome de não envelhecer, ficar colocando botox, etc. Deixem minhas rugas: elas valem ouro! O medo de envelhecer é herdado dos americanos, de Hollywood.
Agora, com o fenômeno de Ainda Estou Aqui abrindo as portas para o mundo para o cinema brasileiro – a Berlinale está com 13 produções do país, algo muito significativo para nós. Estamos saindo das cinzas depois do horror que passamos, e estamos aqui. Que maravilha ser acolhido, porque santo de casa não faz milagre. Afinal, se estreássemos apenas no Brasil, não ia dar em nada. Cheguei a fazer um filme belíssimo chamado A Metade de Nós, que ganhou o prêmio do júri popular da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Estreou no Rio de Janeiro e ficou uma semana em cartaz. Agora, a “porcalhada” fica meses. Parece até um plano diabólico para emburrecer – a televisão faz isso demais, baixando o nível cada vez mais.
Impressionante como somos e vamos morrer colonizados. Não sabemos o que é não ser colonizados, pelo menos no Sudeste – nisso, o Nordeste e o Norte são bem mais independentes. Logo, este momento de ressurreição do nosso cinema e de ser reconhecido por ele não tem prêmio melhor.
Márcio Sallem (Cinema com Crítica) – Sua personagem começa abatida e rejuvenesce no barco. Gostaria que você falasse sobre este processo da Teresa.
Denise Weinberg – Engraçado você falar isso porque eu comecei gravando do final para o início. A Teresa começa dura na indústria de jacaré naquela vida horrorosa, e as visitas de cada um que entra fazem com que ela perceba algo interessante. Ela se atrai pelo lado marginal trazido pelos personagens do Adanilo e do Santoro. “Você faz coisa errada?”, ela pergunta – neste instante, a Teresa nota que existem outros mundos, culminando na Roberta (Miriam Socarras), no navio, vendendo Bíblia digital – acho aquilo um máximo, diga-se.
Até porque isso existe mesmo – enquanto estava gravando no Amazonas, eu vi um barco com um padre e um telão para chegar nas populações ribeirinhas. O Brasil é um sincretismo tão doido que tudo é possível.
Toda essa realidade abre o mundo e a cabeça da Teresa para outras possibilidades, até ela decidir que vai cair fora com a Roberta. É uma parceria nada sexual; as duas fogem e vão viver na marginalidade. São duas pessoas oprimidas ao longo da vida de alguma forma e que não puderam fazer aquilo que desejavam realizar. Para muitos, isso tem efeitos lá na frente, com a pessoa se tornando amarga, ranzinza, frustrada. Viram aquelas pessoas chatas, tomando remédio a vida inteira.
Cine Set/Coletivo Crítico – Por isso, chama muito a atenção o fato de não haver maquiagem.
Denise Weinberg – Fiz de cara limpa o tempo todo. Vem de dentro, a luz que temos dentro de nós. Fora que o lugar é inspirador para filmar: você acordar na Amazônia e olhar tudo aquilo é incrível. Tudo é feito de barco, é um boat movie. Fiz pouca coisa em terra firme. Era difícil ficar com os dois pés no chão. Isso vai mudando você. Às vésperas de acabar as gravações, fui tomar um tacacá com o Gabriel e disse para ele que não sabia o que seria de mim depois daquela experiência. Isso por conta da intensidade vivida ali. Depois de dois meses no Amazonas, voltei para São Paulo e fiquei um mês sem sair de casa. Não tinha vontade de sair, de fazer nada. Precisei me reconstruir porque é um trabalho que mexeu muito com minha alma.
















