Quando Pequenas Criaturas estreou no Festival do Rio 2025, chamou atenção por transformar Brasília em muito mais do que um cenário. A capital planejada surge como um espaço de passagem, pertencimento e incerteza, refletindo os conflitos de personagens que vivem entre a esperança e a dificuldade de encontrar o próprio lugar no mundo.
Em entrevista ao Cine Set, a diretora Anne Pinheiro Guimarães fala sobre como sua experiência como filha de diplomata e quase uma década como assistente de direção moldaram seu primeiro longa. Ela também explica por que escolheu ambientar a história em 1986, comenta as contradições de Brasília e revela como sua trajetória pessoal atravessa cada camada do filme.
A cineasta ainda relembra os aprendizados ao lado de diretores como Cacá Diegues e Karim Aïnouz, revela as referências que vão de Paris, Texas a Lua de Papel e explica por que queria que Pequenas Criaturas fosse um filme marcado pela delicadeza, pela infância e pela esperança, mesmo diante das incertezas da vida.
Cine Set – Você trabalhou por quase dez anos como assistente de direção ao lado de nomes como Cacá Diegues, Karim Aïnouz, Miguel Falabella e Bruno Barreto. Olhando para Pequenas Criaturas, de que forma essa experiência influenciou o seu trabalho como diretora? E houve algum momento em que você percebeu ecos desses cineastas no seu próprio set?
Anne Pinheiro Guimarães – Foi nesse período que aprendi muito sobre o fazer cinematográfico: o que é estar em um set de filmagem, como organizar uma produção e fazer tudo funcionar da forma mais eficiente possível. Em um filme pequeno como Pequenas Criaturas, de pouco orçamento e filmado em apenas 20 dias, essa experiência foi essencial.
Era uma produção que exigia muita eficiência. Tínhamos crianças e animais em cena — crianças têm limite de horário, os bichos não obedecem. Então, entender profundamente o funcionamento de um set fez toda a diferença. Sem essa vivência como assistente, sinceramente, acho que eu não teria conseguido realizar o filme.
Trabalhar com todos esses diretores também foi muito importante porque cada um tem uma forma completamente diferente de fazer cinema. Você percebe que não existe um único jeito de dirigir um filme; há tantas maneiras quanto pessoas fazendo cinema. Isso me permitiu compreender as diferenças entre produções maiores e menores, entre um cinema mais autoral e um mais mainstream, e me deu um amadurecimento muito grande no aspecto técnico da profissão.
Já a parte artística vem de outro lugar. Ela nasce da Cinemateca, dos filmes que você vê, das referências que busca e, principalmente, da sensibilidade de cada pessoa. Cada diretor constrói isso à sua maneira. E, para ser sincera, durante aqueles 20 dias de filmagem eu também me xingava bastante, porque fui eu quem escreveu o roteiro. (risos) Eu pensava: “Quem foi que inventou um filme com tanta criança e tanto bicho?“. Foi difícil, mas conseguimos encontrar o ritmo. Claro que eu gostaria de ter tido mais tempo para filmar, mas deu certo. Ainda bem.
Cine Set – Sempre existiu no Brasil a ideia de sermos o “país do futuro” — algo que, de certa forma, também está presente na própria concepção de Brasília. Em Pequenas Criaturas, porém, esse futuro aparece por outro ângulo, revelando não apenas a promessa de progresso, mas também as contradições e armadilhas desse ideal. Como essa relação com Brasília e com essa ideia de futuro influencia os personagens?
Anne Pinheiro Guimarães – A noção de futuro é central no filme. Ela está muito presente na infância, que é justamente o tema da história, e também em Brasília. A cidade foi projetada em um momento de enorme esperança, quando se acreditava no crescimento do Brasil e na construção de um país que ainda não existia, mas que viria a existir. É um projeto arquitetônico lindíssimo, concebido com uma visão muito otimista do futuro.
Ao mesmo tempo, Brasília carrega muitas contradições. É uma cidade bonita, mas difícil para quem chega. É uma cidade sem calçadas, onde os encontros acontecem com mais dificuldade. Foi planejada em uma época em que se acreditava que o automóvel seria a solução para tudo, por isso há tantas avenidas. Durante muito tempo, isso trouxe consequências graves. Tenho muitas lembranças de famílias que perderam filhos e irmãos atropelados. Felizmente, Brasília melhorou bastante nesse aspecto.
Essa dualidade da cidade é muito parecida com a essência de Pequenas Criaturas. Brasília é fascinante e, ao mesmo tempo, desafiadora. Da mesma forma, o filme mostra como aquele universo pode ser muito bonito, mas também muito difícil para os personagens habitarem.
Acho interessante também essa ideia de que o Brasil é o “país do futuro”. Existe aquela frase atribuída ao Charles de Gaulle de que o Brasil é o país do futuro e continuará sendo. Durante muito tempo, eu via isso como um problema. Hoje já me pergunto se não pode ser uma bênção. Talvez estar sempre olhando para o futuro também signifique manter viva a esperança de que podemos fazer melhor. No fim das contas, o futuro é um assunto enorme.
Cine Set – Pequenas Criaturas se passa em 1986, um momento em que o Brasil vivia a redemocratização após um longo período de ditadura. Ao mesmo tempo em que havia esperança, também existia uma sensação de incerteza sobre o futuro. Por que escolher justamente esse período para ambientar a história?
Anne Pinheiro Guimarães – Na verdade, 1986 era um momento de limbo para o país. O Brasil tinha deixado uma realidade para trás, já não precisava mais lutar contra aquilo que existia antes, mas ainda não sabia muito bem o que fazer com tanta liberdade.
Isso espelha o que acontece com a família da Helena e com a própria personagem. Ela também está em um limbo. É um momento em que para para olhar a própria vida e perceber que talvez nunca tenha sido movida pelos próprios desejos. Existe uma frase no filme em que ela diz: “Tenho a impressão de que faço tudo isso sem querer, que as coisas simplesmente acontecem comigo”. Ela começa a perceber justamente isso.
Então, o limbo vivido pelo Brasil em 1986 é também o limbo desses personagens. E Brasília reforça essa sensação. É uma cidade que parece suspensa no tempo, quase vazia por ser período de férias, com um ritmo mais lento, mais distendido. Tudo isso dialoga diretamente com o estado emocional da Helena e da família.
Por isso a história sempre foi pensada para acontecer em 1986. Essa escolha esteve presente desde o início do projeto, justamente porque aquele momento histórico sintetizava muito bem o sentimento que eu queria transmitir.
Cine Set – Você é filha de diplomata e viveu parte da infância e da adolescência em constante deslocamento. Quantas cidades e países marcaram essa trajetória? E de que maneira essa experiência influenciou a construção de Pequenas Criaturas?
Anne Pinheiro Guimarães – Curiosamente, quem me fez conhecer o Brasil foi o cinema. Como assistente de direção e depois dirigindo documentários, viajei pelo país inteiro. Foi trabalhando que conheci lugares muito diferentes, do Sul a Marabá. O cinema me deu essa possibilidade.
Como filha de diplomata, minha mãe era americana, então sempre carreguei essa binacionalidade, que já cria uma espécie de rachadura cultural dentro da gente. Mas, ao contrário do que se imagina, não morei em tantos países, porque meu pai gostava muito do Brasil. Passei por três cidades e vivi um período fora, mas a experiência de ser filha de diplomata sempre marcou muito a minha vida.
Chegar a um lugar novo é muito difícil. Você chega em uma idade em que ainda está tentando entender quais são as regras de convivência, quem são as pessoas, como elas se relacionam. Então você fica mais quieto, observando, tentando descobrir como tudo funciona. Quando essa mudança acontece para um país com uma cultura diferente, muitas vezes sem falar a língua, o isolamento é ainda maior.
Isso aparece no filme. Existe uma frase em que a personagem diz que, quando somos jovens, pensamos apenas no futuro, e depois chega uma fase em que começamos a pensar muito mais no passado. Eu me identifico bastante com isso. Em algum momento, a experiência acumulada começa a ganhar mais peso, e você passa a olhar para trás e imaginar como certas escolhas poderiam ter sido diferentes.
No fim, tudo isso reforça como é difícil ser filho de diplomata. Acho que os personagens carregam um pouco dessa sensação de deslocamento. E Brasília também contribui para isso. É uma cidade em que o convívio acontece de uma forma menos tradicional, onde os encontros não são tão espontâneos quanto em outros lugares. Tudo isso acaba dialogando com o universo do filme.
Cine Set – Diante de toda a sua experiência como filha de diplomata e de todos os sentimentos que ela despertou, qual era o elemento que você considerava indispensável em Pequenas Criaturas? Que emoção ou ideia precisava, de qualquer maneira, orientar tanto a história quanto a construção visual do filme?
Anne Pinheiro Guimarães – Que pergunta boa. (risos) É difícil responder porque o filme trata de muitas coisas ao mesmo tempo.
Ele acompanha uma mulher que chega a um momento da vida em que começa a se questionar. É uma personagem que abriu mão de muitas coisas em nome da maternidade e, de repente, percebe que os filhos já não dependem mais dela. Não diria que é uma crise de meia-idade, mas um momento de tomar consciência da própria vida e tentar descobrir qual é o desejo que ainda a move. Isso era muito importante para mim.
Ao mesmo tempo, voltando à experiência de ser filha de diplomata, existe essa sensação de chegar sempre como alguém novo. Como você se adapta? Como encontra um lugar ao qual realmente pertence? Esse é um sentimento que vivi muito. Quando finalmente você se sente pertencente, consegue relaxar, se sentir em casa, ser mais inteiro e mais você mesmo. É exatamente esse processo que os personagens atravessam ao longo do filme.
Também era fundamental para mim a energia do Dudu. Ele é um otimista patológico, acredita que tudo vai dar certo, que o universo está sempre enviando sinais positivos. Essa abertura para a vida me interessava muito porque eu nunca quis fazer um filme pesado. Pelo contrário, queria preservar essa energia muito própria da infância, de acreditar sinceramente que as coisas podem dar certo.
Ao mesmo tempo, o filme também precisava mostrar que essa esperança convive com pequenas dificuldades. Personagens como a vivida pela Letícia Sabatella funcionam quase como um espelho da protagonista, mostrando aquilo em que ela pode se transformar no futuro: uma mulher marcada pela solidão e por escolhas que nunca são ditas explicitamente, mas que estão presentes.
Todos esses temas precisavam estar no filme. Juntos, eles formam a essência de Pequenas Criaturas.
Cine Set – Pequenas Criaturas inevitavelmente desperta comparações com filmes de formação e de memória. Há quem cite Lady Bird, Boyhood e outros coming-of-age. Quais foram as principais referências que ajudaram a guiar o filme?
Anne Pinheiro Guimarães – Um filme que me marcou profundamente foi Paris, Texas, do Wim Wenders. Eu o vi pela primeira vez quando era adolescente e acho que, de certa forma, foi o filme que me fez querer fazer cinema. Curiosamente, ele não esteve tão presente durante as filmagens, mas voltou com muita força na etapa de finalização. Pensei: “Vou rever esse filme“. Não porque ele tivesse exatamente a ver com Pequenas Criaturas, mas pelo sentimento que transmite.
Existe uma cena específica, em que eles assistem a um filme em Super 8 projetado dentro de casa, que sempre me emocionou muito. Há uma delicadeza e uma beleza naquele momento que me acompanharam. Também havia algo da paisagem e da luz. Eu dizia que queria filmar com luz natural, com câmera na mão, dentro do carro, buscando registrar a luz de Brasília do jeito que ela realmente é. Acho que ela nunca foi mostrada no cinema exatamente como eu a vejo.
Também me interessavam esses tempos mais distendidos, uma narrativa muito simples. Conversando agora, lembro de Dias Perfeitos, também do Wim Wenders. É um filme completamente diferente do meu, mas compartilha essa delicadeza de encontrar beleza nas pequenas coisas.
Como esse projeto levou muitos anos para acontecer, naturalmente fui acumulando muitas referências ao longo do caminho. Lua de Papel (Paper Moon), do Peter Bogdanovich, foi uma delas, especialmente pela energia da criança protagonista. E A Última Sessão de Cinema também foi muito importante. Inclusive, havia uma cena em Pequenas Criaturas que seria uma homenagem direta ao filme, mas, por causa do cronograma apertado de apenas 20 dias de filmagem, acabamos precisando cortá-la.
São filmes muito diferentes entre si, mas todos, de alguma forma, ajudaram a construir a sensibilidade de Pequenas Criaturas.
















