“Uma Advogada Brilhante” marca a quarta parceria em live-action da diretora Ale McHaddo com Leandro Hassum. Juntos, a dupla realizou “O Amor dá Trabalho”, “Amor sem Medida” e “Meu Cunhado é um Vampiro” – fora as animações nos anos 2010.
Desta vez, Ale traz a experiência enfrentada no mercado de trabalho após fazer a transição de gênero – situações enfrentadas pelo protagonista como mansplaining e o misappropriation também foram vividas pela cineasta.
Ela revela isso em uma entrevista exclusiva para o Cine Set assim como também o desafio de trabalhar com humor em tempos de politicamente correto bem aflorado.
Cine Set – Este é o quarto longa da parceria entre você e Leandro Hassum. A que você atribui o “match” dessa parceria?
Ale McHaddo – Temos uma comunicação muito fácil e uma percepção do humor semelhante. Inclusive, fora do set, fazemos o mesmo tipo de piada. A gente tem um encaixe. O Leandro é o tipo de ator que consegue fazer o humor físico, quase um cartoon. Ele tem um trabalho excelente com o rosto, o olhar, a voz, mas, especialmente, com o corpo; sabe cair, tropeçar, contar uma piada com o corpo inteiro. Isso foi uma das primeiras coisas que me aproximou dele, e fomos descobrindo essa cumplicidade. E foi dando muito certo. O Leandro já fez de tudo nos meus filmes e sempre tem algo novo para superar.
Cine Set – Muito se fala da generosidade dos atores, mas, em uma comédia como Uma Advogada Brilhante, há uma generosidade grande do cineasta, pois é necessário se despir da rigidez de ter o controle sobre tudo para deixar o improviso rolar. Como é para você essa relação? Foi difícil nos primeiros trabalhos?
Ale McHaddo – Foi mais difícil no início, pois saí da animação, que é um ambiente absolutamente controlado, para o live-action, um local colaborativo do começo ao fim. Eu nem chego a ser generosa; vou para o set para “pescar” bons momentos. Não vou lá para fazer o que eu quero ou para repetir o que está no roteiro.
O roteiro é um grande guia, mas vou lá para “pescar” coisas improvisadas, momentos que acontecem naturalmente. Por isso, trabalho com vários comediantes e não apenas um. O Leandro consegue criar com frescor. Eu jamais ensaio um filme de comédia porque acho que isso deve acontecer ali no set.
Muitas vezes, o grande momento acontece na primeira vez, e minha função é provocar para que isso ocorra. No máximo, eu combino com o Leandro de jogar a piada de tal forma para ver qual será a reação de surpresa do parceiro dele em cena. Em outra ocasião, faço o inverso, para que o Leandro seja provocado a improvisar. Tenho uma visão muito da comédia também por fazer stand-up, logo, sei o que quero capturar da situação.
Cine Set – Neste sentido, como é para você selecionar o que vai para a versão final do filme, o que fica nos pós-créditos e o que ficará de fora?
Ale McHaddo – Eu vou muito pelo faro para saber quais são as piadas boas, mas sempre faço uma montagem maior. Testo com o público para saber quais funcionam. Às vezes, deixo uma piada que não acho tão boa, mas que funciona muito bem com o público. Não existe uma ciência exata do humor; tudo é bastante espontâneo. No stand-up, há muitas noites de teste de piadas para saber se elas entram ou não no seu show. No cinema, não é um processo fácil, pois é necessário abrir mão de momentos hilários.
Cine Set – Quem faz parte desse público teste?
Ale McHaddo – Tem de tudo: começo fazendo com um amigo de amigo, porque acho que amigo nunca é real – ou ele vai achar tudo muito ruim ou tudo muito bom. Já o amigo do amigo não tem nada a perder. Logo, acaba sendo algo muito visceral: na hora, sabemos se deu certo ou não pela reação ser física e visível.
Depois dessa etapa, chamo companhias de pesquisa que avaliam um público já ligado ao filme para saber seu potencial e afinar certas coisas.
Cine Set – De cara, me lembro bastante de Tootsie e Uma Babá Quase Perfeita. Foram mesmo as referências ou houve outras?
Ale McHaddo – Tootsie foi uma super referência, um dos filmes mais importantes da minha infância. Mostrava como as mulheres eram tratadas no mercado da televisão na década de 1980. Muita coisa mudou de lá para cá, então quis revisitar essa história no ambiente corporativo.
Já Uma Babá… se inspira mais na cena do tribunal, porque ali não é apenas um homem fazendo uma mulher, mas, acima de tudo, um homem jovem fazendo uma mulher mais velha. Os dois filmes são mais engraçados pela situação ridícula de não saber lidar com aquilo, do que simplesmente pelo fato de um homem vestido de mulher. E em ambos os casos, nunca é caricato. Não é o Renato Aragão vestido de Betânia; é o Pernalonga como Valquíria.
Cine Set – Gostaria que você falasse sobre os desafios de abordar tantos conceitos caros ao feminismo, como a falta de oportunidades, assédio no trabalho, mansplaining e mansinterruping, em uma comédia. O que norteou você na elaboração do roteiro?
Ale McHaddo – O objetivo de uma comédia é fazer rir, mas sempre tenho alguma mensagem que quero abordar. O Amor dá Trabalho, por exemplo, é sobre uma pessoa que passou a vida sem fazer nada de bom e morre. Depois disso, ela tem a chance de viver de verdade. Já Amor sem Medida está muito ligado à aceitação do diferente.
Em Uma Advogada Brilhante, além de querer abordar questões ligadas à mulher no trabalho, também quis tratar de muitas coisas que enfrento desde a minha transição. Foi assustador notar coisas que as mulheres sentiam e que comecei a enfrentar também. O mansplaining e o misappropriation existem de fato!
Fui para o roteiro e coloquei isso de forma irônica, porque é tão absurdo que é engraçado, entende? É muito humor de observação.
Cine Set – Um debate muito presente, especialmente na comédia, está relacionado aos excessos do politicamente correto. E acho interessante que a personagem do Hassum até brinca com os diversos tipos de pronomes de tratamento com os quais ela fica perdida. Era uma preocupação não ser tão certinho ou jogar mais no risco?
Ale McHaddo – Este é o grande tabu da comédia atual: os limites do humor. Eu sou contra o politicamente correto, porque ele engessa e você deixa de fazer piada por não poder, passando a virar um ativista. Você pode defender temas importantes fazendo humor, mas sem melindres. Do outro lado, há a grosseria, o preconceito, um discurso de ódio disfarçado de piada.
Acredito que estamos no meio do caminho, pois é necessário se arriscar para fazer humor, mas com a consciência de que é preciso respeitar. Estamos em um momento delicado no humor. Acho que temos que ter essa consciência de que estamos fazendo humor respeitoso, com propósito, mas sem “lacração”.
Cine Set – Diante disso, temos essa polarização, com um acirramento grande entre direita e esquerda. Uma Advogada Brilhante chega no meio desse tiroteio. Teme alguma reação contrária ao filme ou acredita que ele pode ser uma ponte?
Ale McHaddo – Os grandes extremos dos públicos – radicais dos dois lados – terão visões opostas: um lado vai achar que é lacrador porque está falando sobre a mulher no mercado de trabalho e as poucas oportunidades, enquanto o outro deve se incomodar com a piada e com a forma como a personagem é retratada. De qualquer forma, acho que essas pessoas não são o nosso público, nem o da comédia em geral. A vida é triste para elas, precisando de fake news para se alimentarem.
Para quem gosta de comédia, vai se divertir. É um público amplo, do humor tradicional, livre, quase como As Branquelas. Uma Advogada Brilhante é um filme divertido, com um embasamento real de coisas que acontecem na sociedade, com temas que precisam ser ditos. Mas é um filme para fazer rir; não acho que ofenda ninguém.
Cine Set – No filme, você faz uma advogada. Isso não é algo inédito nos seus filmes, pois você eventualmente faz participações especiais. Como é para você realizar essas pontas, visto que você trabalha em várias funções – direção, roteiro, produção?
Ale McHaddo – Foi algo que comecei a brincar em O Amor dá Trabalho, quando fiz uma policial. Aí virou uma marca: em Meu Cunhado é um Vampiro, fiz uma vampira e agora faço uma advogada. Neste caso, até faço um papel maior, mas deixando claro que, apesar de ter três personagens trans, a temática de Uma Advogada Brilhante não é essa.
Gravar e dirigir é muito desafiador – na minha cena de maior destaque, por exemplo, precisei até de uma dublê para, quando a câmera estivesse longe, eu ficasse nos bastidores conduzindo a sequência. Gosto muito de participar e até fazer participações maiores futuramente.














