Na cena audiovisual brasileira, Tainá Müller sempre transitou entre múltiplos papéis: atriz de televisão e streaming e, nos últimos anos, voz ativa atrás das câmeras. Ísis Broken, por sua vez, tornou-se uma das figuras mais instigantes da nova geração — performer, artista multidisciplinar e referência para debates sobre identidade, corpo e criação contemporânea. Ao lado deles, Lourenzo Gabriel, o pai de “Apolo”, documentário sobre a jornada de uma família tão normal quanto as outras, mas que luta pra ser vista dessa forma.
Longe de seguir o caminho convencional do gênero, Apolo aposta na fusão entre performance, arquivo e encenação para construir uma narrativa que flutua entre realidade e subjetividade. O resultado é uma obra que dialoga tanto com a estética documental quanto com a poesia do vivido — um filme que não se limita a mostrar uma trajetória, mas a sentir junto com ela.
O Cine Set teve a oportunidade de conversar com Tainá Müller, Ísis Broken e Lourenzo Gabriel sobre o processo de criação, as camadas políticas e emocionais que atravessam o longa e a força simbólica por trás da figura de Apolo. A seguir, você confere a entrevista completa.
Cine Set – Como foi a colaboração do processo da montagem do roteiro ao corte final do documentário?
Tainá Müller – Foi um longo processo que começa com uma conversa nossa, onde a gente teve a sorte de ter uma afinidade muito grande (…). Só que a gente tinha uma urgência, que era a gravidez de Lourenzo. A gente não poderia planejar muito esse filme. Então, justamente por isso, a gente não teve o tempo, por exemplo, de inscrever em leis, para ter uma captação, como é um processo normal de filme. A gente precisava, ser rápidos e mandar uma equipe logo para Aracaju, que era a cidade que eles estavam, para acompanhar essa gravidez. Paralelo a isso, a gente entregou uma câmera para a Isis, que é uma câmera muito fundamental no filme, porque ela registra momentos de intimidade deles, que ela pode falar um pouquinho mais depois. E aí, a partir daí, a gente teve todo esse registro da equipe, da câmera da Ísis, e que depois, quando a gente foi para a ilha (de edição), com o tempo que a gente tinha para montar, precisou ser resolvido muito rápido, com todo esse material. E é isso, foi um processo visceral, eu diria.
Ísis Broken – Foi uma ideia minha, sim. Anos atrás, eu fui diretora de fotografia de um espetáculo em Sergipe. Eu também dirigia meus videoclipes, fazia as minhas fotos ali. Então eu tinha já uma ligação muito forte, assim, com o audiovisual. Eu falei, vamos falar da gestação assim, fazendo um vídeo bonito e tal. A gente foi pro Rio, que inclusive a gente volta pro Rio no filme.
Tainá Müller – E foi esse Rio que me ajudou a ter a ideia do documentário, porque eu vi que os dois eram muito interessantes, tanto criativamente como, a visão estética deles, da vida e tudo.
Ísis Broken – E aí, quando eu vim com essa câmera de mão, eu acho que eu trouxe uma camada a mais. Porque, às vezes, a equipe não pode estar com a gente 24 horas. Então, tinham coisas, assim, muito específicas que a gente conseguiu pegar ali na câmera de mão. Essa câmera de mão, ela é muito especial, assim, porque ela traz esse lugar muito íntimo, assim, da gente, que a gente queria trazer pro documentário.
Cine Set – Vocês abordam até desde antes da concepção do Apolo, como vocês se conheceram, como passaram a viver juntos, e também da descoberta de se enxergarem como pessoas LGBTQIA+, e a relação com a família de vocês. Como foi trazer tudo isso a público? E vocês esperam que, de alguma forma, isso mude o olhar de quem tá vendo de fora?
Lourenzo – Na verdade, durante o processo não foi nada confortável. Mas a gente sentia que a gente tinha que fazer por uma necessidade. Eu mesmo, durante a gravação, imagina, uma pessoa gestante ali, às vezes com sono, não conseguindo comer direito. Eu estava super irritado, inclusive, vários dias da gravação. Mas foi uma necessidade. Agora, sobre a aceitação…
Ísis Broken – Então, eu acho que tem uma coisa muito importante nesse documentário, que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo, a gente já sabe disso. Só que, por que as mulheres trans são tão assassinadas no país? E eu, nessa composição, eu estava pensando que toda a trajetória da comunidade trans, de mulheres trans principalmente, nossos corpos, eles são desumanizados. E aí, quando a gente assiste o documentário, nossos corpos são humanizados. Vocês vão ver que uma travesti, ela tem uma mãe, que ela tem um irmão, que ela tem uma avó que chora quando ela vai embora, que tem amigos. Então, aquele corpo, ele… ele é humanizado. E eu acho que tá faltando isso, assim. E eu acho que esse documentário, nesse lugar de trazer a família, de trazer pessoas próximas da gente, trouxe esse lugar da humanização. Era só isso que a gente estava contando, na verdade. Era um casal como qualquer outro. Mas que, por falta dessa humanização de corpos trans no Brasil, a gente estava sofrendo o que estava sofrendo.
Cine Set – E que tipo de mudanças práticas vocês esperam que o Apolo provoque nesse olhar da sociedade, especialmente em instituições de saúde do país, que a gente vê que vocês tiveram que mesmo mudar de cidade para poder ter um atendimento humanizado, um atendimento que entendesse vocês e a dificuldade que vocês estavam tendo com essa novidade, com a chegada de uma criança?
Lourenzo – Já com o filme sendo gravado ali, a gente gravando o documentário, a gente viu algumas movimentações, como, por exemplo, acho que se eu não me engano, o STJ definiu ali a certidão de nascimento para não ser mais aquela coisa de pai e mãe, e sim filiação. Então, mudou essa questão aí.
Ísis Broken – Teve um menino também que conseguiu uma carteira que não fosse a carteira da gestante, que o SUS dá uma carteira, que se chama carteira da gestante, que é uma carteira, assim, super binária. E eu acho que a gente tá conseguindo, assim, aos poucos, porque também a comunidade trans é a minoria que mais tá levando rebarba agora, ultimamente. Depois de Trump e essa perseguição a pessoas trans no mundo inteiro.
Lourenzo – Nos esportes…
Ísis Broken – Uma das maiores escritoras do mundo, a J.K. Rowling, financia partidos de direita que são contra pessoas trans. Ela comemorou um retrocesso da comunidade trans em Londres. Então, o Brasil tá indo na contramão. Tem que ir na contramão disso, sabe? O Brasil sempre foi na contramão disso. Então eu acho que a gente consegue sim ser diferente desses lugares. A gente parar com essa síndrome aí, de vira-lata e ficar pegando coisa enlatada dos Estados Unidos. E eu acho que esse documentário é super isso, ele é um documentário que fala sobre o Brasil, a identidade travesti é latino-americana, muito mais forte aqui no Brasil. Tem esse recorte geográfico que a gente tem que sair dos nossos lugares. A gente começa no Nordeste, que tá nesse lugar periférico do país, então é um filme que fala muito sobre o Brasil e que é muito urgente pra que a gente consiga fazer com que essas novas gerações, que a gente tá vendo muitos casais trans aí se formando, muitos homens trans aí gestando, então eu acho que potencializar isso com filme é muito importante pra nossa comunidade pra gente crescer, evoluir e materializar tudo isso.
Cine Set – Qual mensagem você gostaria que outros homens trans e o público em geral também recebessem ao assistir esse filme?
Lourenzo – Existe um mito de que homens trans não podem gestar depois que tomam a testosterona. Então, primeiramente, desconstruir esse mito de que testosterona não é um método contraceptivo. Eu sempre falo isso. E também tem muitos homens trans que têm vontade de ser pai, mas não enxergam uma possibilidade. Então, eu acho que fica, não uma referência, porque eu acho que eu não sou referência para ninguém, mas eu acho que, pelo menos, conseguir enxergar uma pessoa como eles? Tendo ali uma trajetória no qual eles podem se enxergar também, eu acho muito importante. E caso não queira ter um filho, que cuide da sua saúde reprodutiva Use preservativos, também se preocupe com doenças, com ISTs, né? E para o público em geral, eu acredito que, Apolo, mostra ali as violências, mas ele é, acima de tudo, uma história de amor. Mostrar que um casal trans, um casal LGBTQIAPN+, pode sim se reproduzir, pode sim ter filho. E pode sim criar uma família, constituir uma família.













