Uma mulher bem-sucedida mergulha sem explicação em um lago congelado durante uma viagem à Suíça. A partir desse gesto abrupto e misterioso, As Correntes constrói um retrato delicado e inquietante de alguém que já não consegue reconhecer a própria vida.
Novo longa da cineasta argentina Milagros Mumenthaler, o filme acompanha o retorno de Lina a Buenos Aires após sobreviver ao episódio. Distante do marido, da filha e da carreira que a consagrou, ela passa a enfrentar um profundo processo de desconexão emocional, enquanto tenta compreender a transformação que ocorreu dentro de si.
Em entrevista ao Cine Set, Mumenthaler e a atriz Isabel Aimé González-Sola falaram sobre a origem da impactante cena de abertura, os anos de amadurecimento do projeto, a construção de uma personagem marcada pela ausência e os conflitos entre maternidade, identidade e desejo de pertencimento que atravessam a obra.
Cine Set – A sequência inicial é absolutamente impactante e capaz de prender o espectador em querer conhecer aquela mulher. Gostaria que você falasse sobre como foi pensado este momento para iniciar o filme.
Milagros Mumenthaler – Essa cena foi a semente de todo o projeto. Um dia, eu estava em Genebra, caminhando às margens do lago, e de repente imaginei uma mulher caindo na água gelada. Aquela imagem me despertou muitas perguntas: quem é essa mulher? Ela se jogou de forma consciente ou foi algo inconsciente? O que aconteceu com ela debaixo d’água? Que mistério existe por trás daquela situação?
Foi assim que a cena surgiu. E, desde o primeiro momento, tive a sensação de que ela precisava abrir o filme. A partir dali, a história se desenvolveria tentando responder a essas questões — não de maneira simples ou direta, mas aos poucos. Ela mora ali? Tem família? O que a levou até aquele momento? Foi uma decisão consciente ou não?
Por isso, me pareceu muito natural começar o filme dessa forma. Era o mesmo caminho que eu havia percorrido no processo criativo para imaginar essa história. E também achei que essa deveria ser a forma de o espectador descobrir a personagem: acompanhando, passo a passo, o desvendamento desse mistério.
Cine Set – Nove anos separam La Idea del Lago, seu filme anterior, de As Correntes. O que levou a este tempo todo de pausa? As inquietações deste período aparecem de que forma neste novo filme?
Milagros Mumenthaler – Na verdade, quando apresentei meu filme anterior no Festival de Locarno, a ideia deste já existia. É verdade que levou bastante tempo para se concretizar, mas nunca vivi isso como uma demora. Para mim, foi um processo muito orgânico.
Acredito que o tempo também está ligado à ideia de habitar uma história, de se aproximar gradualmente de uma personagem e começar a viver com ela. Existe um percurso de convivência com o filme, de descobrir como você mesmo passa a habitá-lo.
Durante muitos anos, essa personagem me acompanhou. Eu pensava através dela e recebia estímulos por meio dela. Às vezes, bastava caminhar pela rua e observar uma situação qualquer para que aquilo despertasse novas ideias e me fizesse enxergar o mundo a partir do olhar da personagem.
Por isso, nunca senti aquela pressão de que precisava me apressar ou começar a filmar imediatamente. As coisas foram acontecendo naturalmente. Quando o roteiro ficou pronto, começamos a buscar financiamento, e essa etapa nem demorou tanto assim.
No fim das contas, cada filme tem seu próprio caminho e seu próprio ritmo. E acho que esta obra é o que é justamente por causa do tempo que levou para ser pensada, amadurecida e construída.
Cine Set – É natural que a primeira coisa ao se deparar com Lina é querer entender a razão da insatisfação dela, o que a leva a se jogar da ponte. As Correntes, porém, não busca responder isso, pelo menos, não da forma mais tradicional. Neste sentido, como funcionou para você: buscou também racionalizar bastante ou foi por outro caminho?
Isabel Aimé González-Sola – Pessoalmente, me aproximei da personagem de forma muito intuitiva. Ela é alguém marcada pela ausência, por uma sensação constante de falta, de saudade de algo. E esse é um sentimento profundamente humano, então não foi difícil me conectar com ele e tentar explorá-lo em sua camada mais profunda, até o ponto em que ele nos afasta da própria vida e passa a ocupar todo o espaço.
Ao mesmo tempo, houve um trabalho muito intenso em parceria com a Mila, a diretora. Ela me ofereceu uma quantidade enorme de material porque já havia imaginado e sonhado essa personagem por muito tempo. Afinal, ela é o ponto de partida e o olhar através do qual a história é contada. Tivemos um diálogo muito rico, no qual recebi muitas informações sobre os aspectos mais obscuros e enigmáticos da personagem.
Parte desse processo envolveu descobrir quem ela era por conta própria, mas também construir características que eram muito diferentes das minhas. Ela tem uma energia mais baixa, mais cansada, outro ritmo de vida. Foi aí que começou um trabalho de atuação fascinante, mas também bastante desafiador, com momentos de vertigem e incerteza, como acontece em qualquer processo criativo, quando você se perde sem saber exatamente se vai encontrar o caminho.
Esse trabalho foi desenvolvido ao lado da Mila, mas também contou com uma preparadora de elenco, com quem buscamos a fisicalidade da personagem, uma preparadora vocal e até com o fato de eu passar muito tempo em Buenos Aires, cidade onde não moro. Isso me ajudou a mergulhar completamente naquele universo. Foi quase uma experiência de imersão total, uma busca pela personagem em todas as suas dimensões.
Cine Set – Lina parece em um dilema muito grande sobre ser mãe: de um lado, ela não consegue ajudar a filha no banheiro, enquanto afirma que desistiu de seguir no rio ao ver o rosto da menina. Como você vê este conflito da maternidade entre o não querer e o amor para com a filha?
Isabel Aimé González-Sola – De certa forma, a personagem já carrega uma ferida muito profunda na relação com a própria mãe. E isso inevitavelmente desperta uma pergunta: que tipo de mãe alguém se torna quando teve uma mãe como a dela? Acho que ela já tenta ser muito diferente, embora essa marca continue presente.
Falando da história, há um momento muito significativo quando a personagem se joga no lago. A imagem que surge para ela é a da filha, e é justamente essa lembrança que a faz voltar à superfície. É a única coisa que a impulsiona a respirar novamente e escolher a vida. Há um chamado muito forte ali.
Como atriz, porém, a experiência de atuar com Sofia, que interpreta sua filha, teve um impacto especial. Ela era muito pequena, e a inocência das crianças costuma desmontar qualquer defesa. Muitas vezes elas não fazem ideia do que está acontecendo emocionalmente com os adultos ao redor, enquanto nós tentamos manter a rotina funcionando. E a Lina está justamente vivendo isso: cada vez mais fragilizada pelo que atravessa, mas ainda precisando cuidar da filha, dar banho, preparar comida, seguir em frente.
Ao mesmo tempo, a própria filha começa a fazer perguntas simples, mas que a confrontam diretamente: “Por que você não cozinha?” ou “Por que você não é assim?”. Isso coloca a personagem diante de suas próprias limitações. E, para mim, como atriz, também era um desafio, porque atuar com uma criança é muito diferente de atuar com um adulto. Elas são imprevisíveis, vivem completamente o presente e você nunca sabe exatamente como vão reagir. Isso tornava tudo muito interessante em cena.














