Emily Blunt tem estatuetas do Bafta e do Globo de Ouro para chamar de suas, mas apenas em 2024 recebeu sua primeira indicação ao Oscar. Conhecida por estrelar projetos populares como “O diabo veste prada”, “Sicario” e “Um Lugar Silencioso”, é uma atriz versátil, que consegue apresentar papéis multifacetados e carismáticos — estamos constantemente torcendo pelas suas personagens.
Em “Coração de Lutador”, seu projeto mais recente, ela interpreta Dawn, a companheira de Mark (Dwayne Johnson) com quem vive altos e baixos de uma relação marcada pela busca de conquistas, o vício e a dor que os acompanha.
O Cine Set participou de uma entrevista coletiva, na qual Blunt falou sobre a parceira com Dwayne Johnson e Ben Safdie, a importância de discutir saúde mental e como o contato com Dawn Staples foi importante para compor sua personagem.
PERGUNTA – Será que uma mulher simplesmente fazendo muito bem o seu trabalho num universo dominado por homens já é, por si só, algo poderoso? Acho que hoje a voz feminina está mais alta, mais presente, algo que a sua personagem já trazia como aspecto. Ela tem força, mas também tem uma sensibilidade linda. Eu gostaria de saber o seu ponto de vista sobre essas qualidades, por favor.
Emily Blunt – Que pergunta linda. Eu realmente me apaixonei pela fragilidade da Dawn. Acho que essa fachada exterior dela, essa aparência formidável, não reflete de verdade quem ela é lá no fundo. Foi muito gratificante para mim — e um presente — ter podido conversar com a Dawn da vida real. Mesmo sabendo que eu ia interpretá-la num dos períodos mais explosivos e difíceis da vida dela, ela se abriu completamente comigo. Expôs cada nervo exposto do corpo dela pra que eu pudesse entendê-la. Não precisava concordar sempre com o jeito que ela agia, mas se eu entendesse de onde ela vinha, aí sim eu conseguiria criar uma personagem que não fosse toda arrumadinha, que nem sempre fosse agradável ou palatável.
Porque, como você disse, as mulheres muitas vezes são presas a um ideal feminino, principalmente no cinema. A gente quer que elas sejam sempre apoiadoras, abertas, disponíveis, gentis o tempo todo. E eu acho que a Dawn representou exatamente as partes mais perigosas e arriscadas do que significa ser humano.
O relacionamento deles não foi romantizado, a conexão entre eles não foi romantizada, e isso foi um presente de verdade. Acho que são essas vozes femininas que a gente precisa ouvir mais: não ficar tentando criar mulheres que sejam sempre queridinhas e simpáticas o tempo todo.
PERGUNTA – Vocês interpretam um relacionamento completamente louco, muito volátil, que chega a ficar violento em certo momento. E o seu parceiro de cena é um amigo muito próximo seu. Queria saber como foi mergulhar nessas emoções tão pesadas com alguém que você conhece tão bem.
Emily Blunt – Sabe, acho que várias coisas ajudaram. Existe uma rede de segurança natural quando você trabalha com alguém que conhece muito bem. Tem um atalho, uma espécie de linguagem secreta que é maravilhosa pra você conseguir ir pra esses lugares emocionais profundos. Você sabe que vai ter alguém te amparando durante e depois.
Outra coisa que ajudou demais, e que nem dá pra medir, foi o fato de o Dwayne estar absolutamente irreconhecível. Não eram só as próteses, foi uma atuação tão extraordinária que nem dá pra chamar de atuação. Era como se eu estivesse vendo ele chegar em casa de verdade, como se aquele papel tivesse sido feito sob medida pra ele. O seu jeito inteiro mudou, sumiu. E isso também ajudou muito: eu estava gritando na cozinha com alguém que eu simplesmente não reconhecia, sabe? Isso facilita bastante.
CINE SET – Você repete a parceria que já tinha com o Dwayne Johnson, em Jungle Cruise, só que desta vez acrescentando uma camada dramática muito maior. Como foi o processo de preparação para a personagem e para a parceria com o Dwayne neste filme?
Emily Blunt – Acredito que o que mais nos ajudou foi conversar com o Mark e a Dawn da vida real. Falamos com eles durante horas e horas. Quando você entende todo o espectro daquele relacionamento – o que o tornava tão perigoso, mas ao mesmo tempo tão profundamente amoroso, tudo isso acontecendo em questão de cinco minutos – você consegue enxergar a coisa toda. Depois que entendemos essa bagunça toda, aí sim conseguimos mergulhar fundo nas cenas.
Outra coisa que o Benny, o Dwayne e eu fizemos foi sentar e conversar muito, compartilhar experiências da própria vida, expor nossos próprios nervos à flor da pele: brigas que a gente teve, vergonha, arrependimento… tudo isso. Então, desde o fato de estarmos interpretando pessoas reais, passando pelo fato de o Dwayne ser meu amigo na vida real, até realmente abrirmos boa parte das nossas almas, acho que foi uma das experiências mais expostas que já tive – tanto num set de filmagem quanto na vida, sabe? Uma exposição bem humana mesmo. E acho que é exatamente essa realidade que aparece na tela, aquela que a gente viveu durante muitas semanas nas filmagens.
PERGUNTA – Já que você teve a chance de conhecer a Dawn da vida real, trouxe muito dela para a sua personagem ou construiu a sua Dawn mais do seu próprio jeito?
Emily Blunt – Cada conversa que eu tinha com ela, eu repassava imediatamente para o Benny. Porque os rapazes não falaram com a Dawn; eu fui a única que conversou com ela. Então, para garantir que a personagem fosse moldada de um jeito que fizesse justiça a sua figura, mesmo nos momentos mais vulcânicos da vida dela, eu realmente quis defender que a fragilidade aparecesse tanto quanto a ferocidade. Queria que as pessoas conseguissem entender ela de verdade, até nos momentos mais caóticos.
Tudo o que ela me contava era ajustado no roteiro. O Benny foi super colaborativo, ele sempre queria aprofundar mais os aspectos dessas pessoas. Então, sim, isso tudo moldou o meu relacionamento com a Dawn, moldou absolutamente tudo. Com certeza moldou o jeito como eu a interpretei e como eu a compreendi.
PERGUNTA – Este ano vimos várias cinebiografias sobre grandes estrelas, seja do esporte ou da música, que têm em comum a abordagem de mostrar um lado desconhecido desses ídolos, longe dos holofotes. Na sua opinião, estamos assistindo a uma mudança no modo como os filmes falam mais sobre saúde mental e as vulnerabilidades das pessoas famosas, especialmente dos homens?
Emily Blunt – Acho essa uma pergunta maravilhosa. Falando especificamente de “Coração de lutador”, acho que o filme faz uma exposição linda sobre a masculinidade, sem ser didático nem panfletário. É só você conseguir ver o que acontece atrás das portas fechadas de alguém que, para o mundo lá fora, precisa parecer invencível. Mas por dentro está desmoronando, está quebrado, frágil, lutando pra caramba.
O filme olha de frente para essa luta e talvez esses sejam os heróis de que a gente precisa: aqueles que estão segurando com unhas e dentes, que não têm todas as respostas. Talvez seja nisso que a gente queira investir emocionalmente – menos no herói de ação certinho que sabe tudo, e mais naqueles que estão sofrendo e que, mesmo assim, desafiam todas as probabilidades. Acho que esses são os melhores tipos de heróis.
E sobre a representação de pessoas públicas, como você disse – esses filmes sobre atletas ou artistas –, acho que mostrar o calvário enfrentado por essas pessoas, a vida interna que quase ninguém conhece, humanizar todo mundo… isso tem um valor enorme.
PERGUNTA – Você interpreta uma personagem que é ao mesmo tempo fisicamente poderosa e profundamente humana. Como você se conectou pessoalmente com as lutas e as forças dela, e de que forma interpretá-la desafiou ou refletiu partes de você mesma?
Emily Blunt – Justamente por ela não ser uma personagem glamourizada nem cinematográfica demais. Ela nem sempre era agradável, nem sempre arrumadinha, nem sempre boazinha. Isso me pareceu muito humano – ela não ficava presa a nenhum ideal.
O jeito que eu mais me conectei e consegui ter empatia foi conversando o máximo possível com ela. Eu acredito muito que, se você entende de verdade no que a pessoa foi “marinada” na infância – e todo mundo foi marinado em alguma coisa, todo mundo carrega feridas daí –, você passa a entender por que ela age do jeito que age.
Aprendi muito sobre a infância da Dawn e por que, para ela, o único jeito conhecido de amar e ser amada era aquele caos. Ela foi criada no caos. Isso tudo moldou o relacionamento que ela tinha com o Mark.
Eu a achei de partir o coração porque, por fora, ela vinha com o pé na frente, cheia de ferocidade, bem intimidadora. Mas eu a vi como uma pessoa profundamente frágil, linda, que precisava desesperadamente de amor. Tive muita empatia porque ela não era a única responsável pelo drama doméstico da casa. Ele também podia ser praticamente impossível de conviver.
Os dois adoravam provocar um ao outro, atiçar o fogo. Gostavam daquele caos – era parte da atração apaixonada que sentiam. Mas era exatamente por isso que não podia durar entre eles, sabe?














