Premiado no Festival de Gramado com o curta “O Barco e o Rio”, o cineasta amazonense Bernardo Abinader vive agora outro momento importante em sua carreira: foi selecionado para a próxima edição da “La Factory des Cinéastes”, um programa do Festival de Cannes que busca revelar novos talentos do cinema ao redor do planeta. Desta vez, contou com o apoio de Karim Aïnouz (“Motel Destino”) para escolher profissionais vindos das regiões Norte e Nordeste do Brasil.
Abinader foi um dos quatro brasileiros escolhidos para compor quatro duplas, com a missão de coescrever e codirigir um curta-metragem cada. Sua parceira nesta empreitada foi a cineasta franco-egípcia Sharon Hakim. O curta intitulado “Como ler o Vento” foi rodado na região de Sabiaguaba, em Fortaleza, no Ceará. A história mostra Cássia (Esther de Paula), uma curandeira tradicional, que vem ensinando pacientemente seus segredos a Marjorie, sua jovem discípula. Agora, o destino chama Marjorie (Isabela Catão) a assumir esse legado.
Neste ano em que o Brasil é o país homenageado pelo festival, a participação de Bernardo Abinader no programa ganha ainda mais destaque e o lançamento já tem data para acontecer em Cannes: 14 de maio. O Cine Set conversou com ele sobre todo esse processo, a produção do curta e a expectativa de exibir um trabalho no maior festival de cinema do mundo.

“Como ler o Vento” é um curta de Bernardo Ale Abinader gravado ao lado da cineasta franco-egípcia Sharon Hakim. Foto: Jamille Queiroz
CINE SET – Primeiro, explique para os nossos leitores o que é essa iniciativa, a La Factory de Cannes.
BERNARDO ABINADER – Esse programa acontece dentro da Director’s Fortnight, antes do festival principal, mas faz parte da programação oficial. Todo ano, a iniciativa escolhe um país e seleciona quatro diretores emergentes para gravar um curta-metragem em dupla com cineastas de outros países. As duplas são formadas para gravar, cada uma, um curta.
A seleção se baseia na avaliação dos projetos de longa-metragem dos participantes. O programa começou em novembro, quando as duplas foram formadas e iniciamos o trabalho nos roteiros. A seleção brasileira, no ano passado, teve vagas específicas para o Norte e Nordeste. Fui escolhido a partir do meu projeto de longa-metragem. Após a pré-seleção, passei ainda por uma entrevista para confirmar a vaga destinada à Região Norte.
CINE SET – Então, foi a comissão da Factory que escolheu sua parceira, a Sharon Hakim?
BERNARDO ABINADER – Sim, a escolha foi feita pela comissão.
CINE SET – E depois da seleção, vocês começaram a conversar sobre o tipo de curta que iriam produzir?
BERNARDO ABINADER – Sim, nos conhecemos em novembro. Começamos a conversar sobre o curta, e foi um processo longo, com muitas reuniões e horas de conversa [risos].
CINE SET – Você já conhecia a Sharon ou o trabalho dela?
BERNARDO ABINADER – Não, não conhecia.
CINE SET – Como foi a experiência de codirigir o curta?
BERNARDO ABINADER – Foi um desafio e uma experiência muito legal. Apesar das diferenças culturais, eu e Sharon tínhamos ideias muito alinhadas sobre o filme. Tínhamos visões parecidas, o que facilitou bastante.
Claro que houve desafios, especialmente pela barreira linguística — ela não fala português — e isso exigia muito mais diálogo para tomar decisões. Em vários momentos, precisei atuar como tradutor para o elenco e a equipe. Mas aprendi demais. Codirigir faz você enxergar o projeto de novas formas.

Isabela Catão interpreta Marjorie, jovem aprendiz de uma curandeira tradicional vivida por Esther de Paula. Foto: Jamille Queiroz
CINE SET – E como será o processo de exibição no festival?
BERNARDO ABINADER – Será na Director’s Fortnight, durante o Festival de Cannes. Os quatro curtas serão exibidos juntos.
CINE SET – Qual é a sua expectativa para o festival?
BERNARDO ABINADER – É um sonho realizado! Ainda não caiu a ficha. Foi um processo muito intenso, especialmente porque nunca finalizei um filme tão rápido. Estou muito feliz. Cannes é o sonho de todo cineasta, e nunca imaginei que estaria lá tão cedo na carreira, com um filme meu.
Também é curioso porque será o primeiro festival presencial fora do Amazonas que vou participar. “O Barco e o Rio” circulou muito, mas durante a pandemia, de forma online. Então estou muito animado. O processo foi cheio de novidades: codirigir pela primeira vez, trabalhar fora do Amazonas, filmar numa cidade desconhecida, trabalhar com uma equipe incrível. O Pedro Sotero, diretor de fotografia de “Bacurau”, e a Deyse Barreto, diretora de arte de “O Último Azul”, participaram do projeto. Foi muito gratificante.
CINE SET – E sobre o cinema amazonense: o que mudou desde sua premiação em Gramado?
BERNARDO ABINADER – Temos produzido muita coisa bacana. Estou empolgado com os novos projetos, especialmente com os editais da Paulo Gustavo e Aldir Blanc.
Mas, infelizmente, os investimentos ainda são baixos. O edital com o qual fiz “O Barco e o Rio” é de 2018, e desde então os valores investidos diminuíram, o que é preocupante. Enquanto em Manaus lutamos para produzir poucos curtas por ano, aqui no Ceará, onde finalizei o curta, se produzem quase dez longas por ano com investimento local. A discrepância é enorme.
Então, embora estejamos vendo bons resultados agora, ainda precisamos de mais investimentos para fortalecer nossa produção cinematográfica.
CINE SET – E o curta “Dia dos Pais”? Tem previsão de lançamento?
BERNARDO ABINADER – Estamos finalizando o filme agora. Ainda não temos data de estreia definida, mas esperamos que ele seja lançado ainda este ano, após circular pelos festivais.












