O que caracteriza as mulheres da Amazônia? Como é o seu protagonismo frente a um território tão amplo e singular? É partindo desses questionamentos e reflexões construídas ao longo de sua trajetória na região amazônica que Carolina Fernandes arquiteta o filme-manifesto “Mães da Terra”, sua estreia como diretora de longas-metragens. Com uma extensa carreira em diferentes setores do audiovisual e à frente da Banksia Films, Carol comenta que este “tem sido um processo de imenso aprendizado, um exercício de desapego das fórmulas familiares. Está além do ego, da vaidade ou da necessidade de aprovação. É fazer com habilidade, mas, sobretudo, com verdade”, afirmou.
Mães da Terra evidencia a força da mulher amazônica por meio da jornada de três personagens que habitam a cidade de Manaus: Yra Tikuna, estilista e ativista indígena; Iolete da Silva, diretora do curso de Psicologia da UFAM e coordenadora de um programa de letramento racial; e Alessandrine Silva, advogada, feminista e ativista dos direitos humanos — todas escolhidas por meio de um processo de escuta e mapeamento de figuras femininas inspiradoras na região. Adotando um encaminhamento poético, o roteiro acompanha suas rotinas, lutas, vulnerabilidades e o processo contínuo de superação de traumas — “mostrando que sua força não apaga suas fragilidades, e sim as integra”, comentou Fernandes. Tais escolhas ressaltam o papel feminino como agente de transformação da comunidade manauara, pavimentando caminhos para que as próximas gerações exerçam suas decisões com mais dignidade.

Estilista Yra Tikuna, diretor do curso de psicologia da Ufam Iolete da Silva e advogada Alessandrine Silva são as protagonistas de “Mães da Terra”.
Dessa forma, o título Mães da Terra torna-se o espírito motor da narrativa, expandindo o olhar das três protagonistas para o diálogo coletivo que representam, expressando “a sabedoria ancestral e o papel essencial na preservação da vida que as mulheres, enquanto guardiãs do cuidado, do saber intuitivo e da conexão com o ambiente e com as pessoas, carregam”, revelou a diretora. Toda essa caracterização interliga as personagens e “seu desejo de que as gerações vindouras não enfrentem as mesmas desigualdades que as acometeram, além de externar a diversidade e profundidade das mulheres amazônicas”, acrescentou Carol Fernandes.
O projeto utiliza a força simbólica das personagens para abordar subtemas inseparáveis da realidade feminina na Amazônia: o impacto da crise climática na vida das mulheres, o racismo estrutural e a violência sexual. “Por meio dessas discussões setorizadas, busca-se conduzir reflexões sobre questões globais, como o debate ambiental, o racismo presente nas universidades e centros de pesquisa e o ativismo materno, que denuncia a violência obstétrica”, destacou. Há ainda a preocupação em retratar as mulheres sem rótulos ou idealizações, evidenciando sua humanidade e a complexidade de suas trajetórias.

Depois de atuar como produtora em “Ex-Pajé” e dos diversos projetos com a Banksia, Carolina Fernandes realiza agora “Mães da Terra”.
Gravado em Manaus e em comunidades indígenas no entorno da capital, Mães da Terra conta com uma equipe amazonense, que varia entre cinco e quinze pessoas, dependendo da cena, da locação e da presença das personagens. “A possibilidade de trabalhar com equipes reduzidas foi essencial para sermos mais discretos, quase invisíveis, o que permitiu captar com mais delicadeza os momentos íntimos e verdadeiros”, comentou Fernandes, ao destacar a sensibilidade da equipe em compreender a essência do filme. “Aprendemos com os erros, e eles nos guiaram a acertos valiosos. Entendemos onde posicionar a câmera, como lidar com o tempo das personagens. Como costumo dizer, às vezes é preciso pegar o caminho errado para descobrir paisagens inesperadas”, complementou.
Essas sensibilidades também decorrem da decisão da diretora de romper com padrões estéticos e experimentar novas linguagens, inspirada por filmes como Ex-Pajé, documentário dirigido por Luiz Bolognesi, no qual Carol Fernandes atuou como produtora. As possibilidades abertas pelos caminhos inesperados trouxeram-lhe novas descobertas criativas. “Impus a mim mesma algumas ‘regras temporárias’ como forma de me desafiar a evoluir, inovar e mostrar um outro lado — meu e da minha obra”, revelou.
Mães da Terra encontra-se na reta final de filmagens, com a montagem prevista para iniciar no segundo semestre deste ano. “A captação ainda está em andamento, pois queremos registrar tanto o auge da seca quanto o auge da cheia. O cronograma é moldado não apenas pelas estações amazônicas, mas também pelos acontecimentos reais na vida das personagens. As locações foram escolhidas com base nos espaços em que elas atuam e vivem”, explicou.
O lançamento está previsto para 2027 — sem dúvida, um filme que promete captar com sensibilidade o simbolismo da mulher amazônida e reforçar como o cinema está aberto para suas temáticas e visões.












