Gabriel Mascaro é um dos principais nomes do cinema pernambucano contemporâneo. Diretor de filmes como Ventos de Agosto, Boi Neon e Divino Amor, ele construiu uma trajetória marcada pela experimentação, pelo diálogo com diferentes linguagens e por uma relação constante com questões sociais e culturais brasileiras. Boi Neon, em especial, ampliou sua projeção internacional ao passar por importantes festivais e consolidar seu nome no circuito do cinema de autor.
Em entrevista ao Cine Set, Mascaro relembra como assistiu a Baile Perfumado ainda adolescente e como o filme, conectado à efervescência cultural do Manguebeat, ajudou a mostrar que era possível fazer cinema em Pernambuco. O diretor também revisita a própria trajetória, a influência daquela geração e o impacto da circulação internacional de Boi Neon.
A conversa também passa por O Último Azul, sua experiência de filmar em Manaus e a importância da colaboração com profissionais de diferentes regiões e países. Mascaro fala ainda sobre a transformação da indústria audiovisual pernambucana, a importância das políticas públicas e os novos desafios para o cinema regional diante do crescimento das plataformas de streaming.
Cine Set – Gabriel, você tinha 14 anos quando Baile Perfumado foi lançado em 1997. Você lembra do impacto do filme? Pensou em algum momento que poderia começar a fazer parte disso?
Gabriel Mascaro – Eu vi Baile Perfumado no projeto Cinema na Praça. Minha mãe me levou para assistir e fiquei muito impactado. Era justamente o momento que eu estava vivendo como adolescente, com o movimento manguebeat na música, então, para mim, foi muito bonito, forte e potente. E também marcou a ideia de que era possível fazer cinema em Pernambuco.
Foi um choque, mas o filme vinha de um movimento nacional, o Brasil da Retomada, e também chamava atenção em Pernambuco. Acabou se tornando quase um espaço de festejo e de resistência cultural depois de um hiato tão grande na produção cinematográfica.
Além disso, Baile Perfumado trabalhava com referências muito fortes do imaginário nordestino, como o cangaço. Há uma dimensão metalinguística muito interessante, porque o filme fala sobre o próprio ato de fazer cinema: Benjamin Abraão tenta registrar o bando de Lampião, produzindo imagens que, de fato, existem. Isso me conectava muito com aquele imaginário.
Também havia uma celebração do movimento manguebeat, da música no cinema e de toda aquela cena cultural do Recife, que misturava o Nordeste pop, o samba e o rock. Baile Perfumado surge alguns anos depois de o próprio manguebeat começar a transformar a percepção sobre a cidade. Havia uma imagem muito negativa do Recife, inclusive repercutida internacionalmente a ponto de sair matéria no New York Times a considerando uma das piores cidades do planeta, e acho que isso marcou o imaginário das pessoas e criou um desejo de transformar a cidade em um lugar melhor para viver. O cinema e a música foram, de certa maneira, formas de ressignificar aquele lugar.
Cine Set – Seu primeiro longa já vem uma década depois de Baile Perfumado e dos sucessos de Cinema, Aspirinas e Urubus, Amarelo Manga, Baixio das Bestas. Como era chegar naquele cenário já consolidado?
Gabriel Mascaro – De alguma maneira, existe essa pressão, porque todos os meus “pais” cinematográficos haviam criado filmes com excelente circulação internacional, passando por festivais importantes e também chegando com força ao circuito comercial. Então, chega a minha vez.
Ao mesmo tempo, o Nordeste já havia apontado um caminho: olhar para o próprio lugar, para dentro. Naquela época, muitos realizadores brasileiros ainda olhavam para a indústria, para a possibilidade de dirigir novela ou serem aceitos pelo Rio de Janeiro e por São Paulo. O cinema pernambucano veio trabalhando justamente a partir dessa periferia do país, propondo outro olhar para o cinema.
Fui formado nesse lugar, dialogando com referências internacionais, mas olhando para outra perspectiva de mercado e de circulação. Então, quando Boi Neon entrou no Festival de Veneza, foi, obviamente, uma grande alegria.
Cine Set – Você vinha de projetos com boa repercussão crítica como Domésticas e Ventos de Agosto, mas sinto que Boi Neon foi para além do círculo cinéfilo. Chegou a um público maior. Você sente o mesmo? A que você atribui isso?
Gabriel Mascaro – O cinema feito em Pernambuco tem esse desejo de se conectar com as pessoas. Ele é inventivo, arriscado, experimental e, às vezes, segue por caminhos mais radicais. Mas Boi Neon, por exemplo, apesar do diálogo com um cinema mais lento, de montagem rarefeita, também tem uma dimensão pop. Tem humor, situações engraçadas e personagens que conseguem se conectar com o público.
O filme ocupa uma fronteira um tanto inusitada: é extremamente radical, com planos de sete minutos sem corte e imagens iconográficas muito fortes, mas, ao mesmo tempo, é pop, aberto e capaz de se comunicar com as pessoas. Boi Neon foi muito honesto nesse sentido.
Também foi importante trabalhar com um elenco que estava despontando naquele momento, como Juliano Cazarré e Maeve Jinkings, que se entregaram de corpo inteiro à construção dos personagens, em diálogo com os vaqueiros reais. Foi algo muito bonito e único. Olho para aquele momento como uma experiência de grande entrega, com pessoas muito abertas a investigar aqueles personagens.
Cine Set – Certa vez, você falou que foi um espanto ver Cinema, Aspirinas e Urubus selecionado para o Festival de Cannes, mostrando como era possível uma produção rodada em Pernambuco ser capaz de ir tão longe. E quando foi sua vez com Boi Neon participar do Festival de Veneza?
Gabriel Mascaro – Foi muito bonito. Primeiro porque sabemos que um festival dessa escala tem um impacto enorme na trajetória de um filme. Ele abre espaço para o segundo longa e também influencia diretamente o circuito de distribuição. Veneza e Toronto foram fundamentais nesse sentido.
Em Toronto, por exemplo, o júri da Mostra Plataforma, a primeira competitiva da história do evento, tinha o Jia Zhang-ke e a Claire Denis. Os dois assistem e ainda dão uma menção honrosa ao filme. Logo depois, vou para o Festival de Marrakesh em que o presidente do júri é o (Francis Ford) Coppola e ainda conta com Jean-Pierre Jeunet. Ainda teve o Jonathan Demme que me recebe nos EUA e abre as portas para Boi Neon no mercado de lá. Eu falei: “Caralho! Se eu soubesse que essa galera toda ia ver um filme, eu tinha feito um filme muito melhor!” (risos).
Cine Set – Seu último filme, O Último Azul, é ambientado em Manaus em uma coprodução internacional. Como você observa este cenário de um cinema pernambucano cada vez mais nacionalizado e internacionalizado? O que você sente que ainda leva do Estado com estas produções?
Gabriel Mascaro – Eu tive muita sorte, porque meu primeiro filme, Boi Neon, já teve uma coprodução internacional mais robusta, com Uruguai e Holanda. Fotografei o filme com um diretor de fotografia da Tailândia, que saiu do set e foi direto fazer Cemitério do Esplendor, do Apichatpong Weerasethakul. Então, foi muito interessante essa rede criativa que a coprodução internacional possibilitou.
Há cerca de dez anos, estávamos olhando para esse lugar internacional do nosso cinema, pensando em como os filmes poderiam circular, dialogar com o mundo e conversar com o cinema de autor internacional. Acho que ainda estamos colhendo os frutos desse movimento. O Último Azul, por exemplo, também é resultado de uma coprodução com México, Holanda e Chile.
Trabalhar em rede é muito bonito porque permite incorporar referências cinematográficas de outros países. O Último Azul foi montado no Chile pelo montador que trabalhou com Pablo Larraín. É muito especial ter essa possibilidade criativa de ser atravessado por outras cinematografias e contar com profissionais importantes do Chile ajudando a construir também o cinema brasileiro.
Cine Set – O que você sente que ainda leva de Pernambuco nestas produções que faz fora do Estado?
Gabriel Mascaro – Do ponto de vista da produção, acho que a escuta é muito importante. Quando comecei a trabalhar com cinema, percebia uma certa dependência do cinema pernambucano em relação a profissionais que traziam uma lógica de produção de São Paulo e do Rio. Foi muito interessante ver como isso mudou. Pernambuco criou outras pontes e a troca passou a ser mais horizontal, principalmente com a cooperação internacional. Deixamos de depender de profissionais do Rio e de São Paulo e passamos a colaborar com gente do México, Uruguai, Chile, Holanda e outros lugares.
Quando fui filmar no Amazonas, quis levar essa mesma ideia de troca. É importante aproveitar os talentos locais e entender o que eles podem acrescentar ao filme. As Boas Maneiras, por exemplo, foi beneficiado por ter um elenco pernambucano forte, que ajudou a trazer o sotaque e a identidade local para alguns personagens.
O Último Azul também foi muito beneficiado pelo trabalho com atores e atrizes de Manaus. O filme seria outro se eu não tivesse feito essa escuta e se Diogo Powers não tivesse participado, mostrando um pouco da cena local. A ideia foi justamente fazer o filme celebrando também a cena cultural que existe em Manaus.
Então, é uma aprendizagem da escuta. Trabalhar a partir dela é uma chave muito importante para mim.
Cine Set – Uma cena cinematográfica forte não se faz apenas de diretores, roteiristas e atores. Há toda uma cadeia de profissionais, incluindo gente de outras áreas como Direito, Comunicação participando do audiovisual. Como você vê esta evolução? E quais gargalos o cinema pernambucano ainda tem para superar?
Gabriel Mascaro – Estamos colhendo hoje o resultado de uma mistura de talento com uma cena cultural muito viva, que envolve música, cinema, artes visuais e também uma tradição histórica de produção. Pernambuco já tinha uma forte atividade cinematográfica desde os anos 1920, quando Recife chegou a produzir três longas-metragens. Existe, portanto, uma tradição cultural muito forte no estado.
Nos anos 1990, as políticas públicas também tiveram um papel fundamental. Pernambuco foi pioneiro ao criar mecanismos de incentivo que permitiram fortalecer quem já fazia cinema e, de certa maneira, tirar a produção cinematográfica de um lugar restrito às elites. Isso é muito particular daqui. Salvo algumas exceções, os realizadores pernambucanos não vêm de famílias abastadas. Marcelo Gomes, Kleber Mendonça Filho, Lírio Ferreira, Cláudio Assis e eu, por exemplo, viemos de famílias trabalhadoras. Minha mãe é professora de escola pública. Acho muito importante essa característica.
A política pública conseguiu valorizar quem estava fazendo e pensando cinema para além de um recorte de classe. E isso ajudou a formar uma cadeia cada vez mais ampla de profissionais. Hoje, porém, os desafios são outros. Pernambuco conseguiu superar muitos dos gargalos dos anos 1990 e 2000 e chegou a uma posição mais fortalecida, mas surgiram novas questões.
Uma delas é a regulação do streaming. Precisamos pensar em mecanismos que valorizem toda essa cadeia e permitam que a cinematografia nordestina tenha uma vida mais longeva, além de possibilitar o surgimento e o fortalecimento de cinematografias de outras regiões, como o Norte, que enfrenta seus próprios desafios. Hoje, portanto, o debate é mais complexo. Não se trata apenas de garantir produção, como nos anos 1990, mas também de discutir como regular as grandes plataformas e assegurar espaço para que diferentes cinematografias brasileiras possam continuar existindo.


















