São mais de 20 anos da primeira parceria do diretor Paolo Sorrentino com o ator Toni Servillo. De “As Consequências do Amor” em diante, os dois levaram o cinema italiano a mais um Oscar com “A Grande Beleza” e participações constantes nos principais festivais mundo afora, além de amores e ódios por parte da crítica e do público.

“La Grazia” marca mais uma colaboração entre os dois e retorna ao universo político que já haviam trabalho em “O Divo”, de 2008. Desta vez, nada de personagem real: acompanhamos o ficcional presidente italiano Mariano De Santis. Vivendo os últimos dias de poder após longo oito anos, ele enfrenta a solidão após a morte da esposa com a inquietação de não saber quem foi o amante dela há 40 anos. No meio disso, uma importante decisão sobre o direito ou não à eutanásia está em suas mãos.

Em coletiva de imprensa para votantes do Globo de Ouro, o Cine Set representado por Caio Pimenta e Pâmela Eurídice tiveram a oportunidade de conversar com Sorrentino e Servillo. Abaixo trazemos os melhores momentos de um interessante bate-papo com dois gigantes do cinema mundial.

Cine Set (Caio Pimenta) – O que você vê em De Santis que mais sente falta nos políticos atuais? E o que acha que o personagem tem em comum com políticos da vida real?

Toni Servillo – Esse personagem tem uma visão tão nobre da política que quem ele é se alinha ao que ele faz — seus pensamentos se parecem com suas ações. Já hoje, muitas vezes, encontramos políticos que fazem muito espetáculo, escondendo seus verdadeiros pensamentos e apostando sobretudo em gestos, comportamentos e slogans como forma de ação política. Mariano De Santis deixa claro para o público que aquilo que ele é corresponde às ações e decisões que ele toma.

Paolo Sorrentino – Acrescentaria que esse personagem tem algo que vemos cada vez menos nos políticos de hoje, que é — não sei nem como dizer melhor — a frugalidade. No filme isso aparece de forma simples, através da comida, mas a frugalidade, para mim, em um político, significa ter uma vocação para a responsabilidade, para a dúvida, para o papel quase paternal. Enquanto, muito frequentemente, nos políticos atuais — e infelizmente, sobretudo naqueles que ocupam cargos centrais de poder — vemos menos vocação e mais participação na política por puro oportunismo.

Cine Set (Pâmela Eurídice) – O filme fala muito sobre fins: o fim de uma carreira política, a morte de uma pessoa querida, o término de uma relação e a eutanásia. Paolo, o que te inspirou nesse assunto?

Paolo Sorrentino – As coisas que chegam ao fim… Bem, eu acho que existe uma dimensão romântica e também dolorosa no fato de que tudo termina. Termina a fase do trabalho, termina a vida… E isso nos coloca, como seres humanos, em uma relação romântica com tudo que nos cerca. Uma relação romântica com os filhos… Há uma cena que, para mim, é muito bonita no filme: é quando o presidente se despede de seus colaboradores, cumprimentando-os no pátio. É uma despedida que, embora atravessada por relações de trabalho, carrega um certo romantismo que passa por todos eles. Para mim, é uma das cenas mais bem-sucedidas do filme.

Pergunta – Houve algum Presidente da República Italiana que tenha servido de inspiração para este personagem?

Toni Servillo – Não houve um presidente específico. Eu e Paolo consideramos várias figuras que tinham pontos em comum: eram viúvos, tinham apenas uma filha que costumava acompanhá-los em cerimônias públicas e, principalmente, eram homens do direito — muitos presidentes italianos vieram dessa área. Olhamos para essas características para nos afastarmos dos nossos filmes anteriores, que também tratavam da política. Neste caso, acredito que Paolo quis criar algo realmente original, sem um modelo direto.

Pergunta – Paolo, o senhor espera que o filme ajude a renovar a discussão sobre a eutanásia, já que ela ainda é amplamente proibida na Itália?

Paolo Sorrentino – Sim, eu ficaria muito satisfeito se o filme contribuísse, mesmo que minimamente, para recolocar o debate sobre eutanásia no centro das atenções. Isso mostraria que o filme também tem uma utilidade no diálogo civil. Na Itália, essa discussão às vezes ressurge por causa de episódios específicos, mas logo se esvazia. Talvez seja hora de enfrentar o tema por inteiro, de maneira mais orgânica e definitiva, porque a legislação atual é bastante fragmentada. Não vou entrar nos detalhes — seria cansativo —, mas essa é a situação.

Pergunta – Qual é a gênese desse projeto? Você costuma escrever ideias que ficam na sua cabeça talvez por anos. Como nasceu este filme?

Paolo Sorrentino – Fizeram-me a mesma pergunta antes e eu não soube responder. Depois, me lembrei da resposta que Kieslowski dava a essa questão — uma resposta belíssima — e resolvi adotá-la. Ele dizia que, em certo momento, começa a sentir perfumes capazes de romper o silêncio. E é isso. Chega uma hora em que você começa a perceber sinais, um murmúrio externo que precisa apenas ser organizado. E então surge a presunção — porque fazer um filme sempre envolve um certo grau de presunção — de acreditar que esses “perfumes”, esse silêncio que se rompe, têm a capacidade de revelar algo sobre a vida, sobre um tema, um personagem, uma história.

Pergunta – Gostaria de saber se o prazer de atuar continua o mesmo hoje — ou até maior — do que quando você começou. E como essa relação com a atuação evoluiu ao longo do tempo?

Toni Servillo – Sim, tenho exatamente a mesma paixão que tinha quando comecei, embora hoje eu a cultive de uma forma diferente do que quando era jovem. Acredito que, quando essa paixão acaba, a pessoa para — para de atuar. Há atores que deixaram a profissão justamente porque essa paixão desapareceu. Outros, ao contrário, desejaram atuar até o fim, alguns quase com a vontade de morrer no palco.

Com o tempo, certamente se escolhem de forma mais cuidadosa as ocasiões em que essa paixão pode realmente se expressar. Escolhem-se melhor os companheiros de jornada, seleciona-se mais, evitando fazer tudo ou tratar a profissão de forma mercenária. Ao contrário, aderindo apenas aos projetos onde essa paixão permite que você coloque, no filme, tudo de si.

Pergunta – O que significa, na sua opinião, quando líderes poderosos precisam enfrentar publicamente as próprias falhas morais?

Paolo Sorrentino – Significa que assumir a responsabilidade — algo que todos devemos fazer em relação ao que pertence ao campo da moral —, no caso de um político que precisa enfrentar isso em público, exige um grau adicional, um coeficiente ainda maior de responsabilidade.

Pergunta – Como a relação criativa de vocês evoluiu ao longo do tempo e de que forma isso influenciou seu trabalho em La Grazia?

Toni Servillo – Tive a impressão, fazendo este filme, de que nossa relação lembrava muito aquela dos nossos primeiros trabalhos juntos. Isso para dizer que o filme foi realizado dentro de uma grande felicidade criativa, em uma atmosfera muito serena, embora muito determinada. Há períodos em que não trabalhamos juntos, mas seguimos nos falando, curiosos sobre o que cada um está fazendo. Ainda assim, permanece constante um desejo que percebo por parte do Paolo: em determinadas circunstâncias, ele quer que eu dê testemunho dos valores profundos do personagem que imaginou.

Eu assumo essa responsabilidade com alegria e tento servi-lo da melhor forma possível. Sinto claramente que ele me confia isso — como quem diz: “isso é para você fazer”. O que também significa: faça seu, mas eu estou aqui com você. Assim, alimentamos uma dimensão de confiança recíproca. É como quando um material se torna maleável, não oferece resistência. Acho que percebemos isso um no outro.

Pergunta – Hoje, como espectadores, como público, o que mais entusiasma vocês no cinema — tanto na Itália quanto internacionalmente ou nos Estados Unidos? Que tipos de filmes, diretores ou atores vocês gostam de acompanhar?

Paolo Sorrentino – Se devo ser sincero, as generalizações são sempre equivocadas, claro — porque ainda existem grandes autores que produzem obras maravilhosas. Mas, de modo geral, acho o cinema de hoje menos apaixonante. Os filmes que se fazem atualmente me parecem, em média, menos envolventes do que aqueles com os quais cresci nos anos 1990, quando eu ia ao cinema como jovem.

Infelizmente, tenho a sensação de que hoje… enquanto os anos 1990, que foram o meu período de formação, eram uma época incrivelmente estimulante, porque os filmes de autor eram completamente livres — totalmente livres mesmo. Às vezes traziam narrativas que, se eu levasse algo parecido a um produtor hoje, provavelmente ele me expulsaria do escritório em cinco minutos.

Hoje me parece que essa liberdade está um pouco comprometida. Acho que, às vezes, todos nós — eu em primeiro lugar — começamos a escrever com um certo pensamento rondando a cabeça, algo como uma autocensura em certos temas. E o resultado, para mim, é que os filmes de hoje tendem a ser menos apaixonantes do que aqueles feitos alguns anos atrás.