Sim, até o Oscar muito vai se falar de O Agente Secreto, é inevitável, mas, o cinema brasileiro não para em 2026. Lançamentos dos mais diversos vão chegar às salas do país ao longo do ano. Alguns dos filmes mais esperados, aliás, terão Iafa Britz como nome fundamental.

Ela é uma das produtoras brasileiras mais influentes dos últimos anos. Sócia da Migdal Filmes, Iafa realizou sucessos como a trilogia “Minha Mãe é uma Peça” e “Caramelo”, sucesso mundial da Netflix.

Em entrevista exclusiva ao Cine Set, a produtora fala das novidades da Migdal Filmes para 2026, incluindo, (Des)controle, drama com Carolina Dieckmann, a cinebiografia de Cássia Eller e “Geni e o Zepelim”, adaptação do clássico de Chico Buarque.

Cine Set: Iafa, como você observa a Migdal Filmes dentro do atual cenário do audiovisual brasileiro?

Iafa Britz – Eu vejo a Migdal como uma produtora bastante ativa, muito proativa e propositiva na busca por conteúdo mesmo, de tentar formatos e gêneros diferentes. Acho que essa é uma característica nossa: se está todo mundo fazendo drama, vamos fazer comédia; se está todo mundo fazendo comédia, vamos fazer drama. Estamos sempre tentando encontrar aquilo que o público quer ver, mas ainda não sabe que quer ver.

Isso também tem a ver com algo em que eu acredito — e que a gente acredita coletivamente —, que é produzir aquilo que a gente considera que precisa ser falado, desenvolvido, produzido. Obras que toquem o público de alguma forma, que tenha um propósito mesmo. E esse propósito pode ser entreter com veemência e força, sempre trazendo alguma coisa a mais.

Minha Mãe é uma Peça é uma trilogia muito bem-sucedida nesse aspecto, porque por trás de toda a risada, de toda a gargalhada, a gente fala sobre homofobia, sobre gordofobia, sobre famílias disfuncionais. A gente se identifica. Já M-8 é um filme absolutamente fundamental a ponto de que estamos preparando a segunda parte, porque depois de tudo o que continua acontecendo no Rio de Janeiro é como se o filme não tivesse acabado.

Dentro desse cenário audiovisual muito instável, muito cheio de imprevistos, de surpresas no processo, a Migdal tem conseguido manter uma certa consistência, com muito esforço. A gente trabalha muito. Nada vem fácil, sabe? 

Cine Set – Iafa, você esteve nos bastidores de sucessos gigantescos do cinema brasileiro como Minha Mãe é uma Peça e Caramelo. Quando um filme sai das mãos do produtor e passa a ter vida própria, quais são os maiores desafios desse processo?

Iafa Britz – São casos em que os filmes passam a ter vida própria. Às vezes você sente que tem um borogodó, mas às vezes você está errado. Isso acontece muito. Não posso falar desse processo sem falar do Diego Freitas, o diretor, que é um cara extremamente passional, profissional e inteligente. Vamos ouvir muito falar dele; ele vai ocupar um lugar muito forte no cinema brasileiro.

A gente precisa dos nossos heróis, né? Heróis nacionais, heróis brasileiros. O Paulo Gustavo virou um herói. Ele transcendia polarizações, transcendia diferenças. E o Caramelo ocupa esse lugar também. Ele é nosso. É algo que só a gente tem, só a gente entende o valor. Só a gente faz meme, só a gente cria páginas de Instagram dizendo “se matar eu não vou ver”. É uma coisa muito nossa, muito brasileira. Via muitas semelhanças nesse processo, nesse lugar da paixão.

Tinha a sensação de que ia funcionar porque o filme era lindo, emocionante, tinha beleza, tinha ação. Mas, ao mesmo tempo, era uma maluquice: juntava doença com cachorro, com cozinha, com um monte de assuntos. Era uma salada mista. Várias vezes eu pensei: “caramba, que loucura, será que isso vai funcionar?”. Ainda mais fazer um filme com um cachorro como protagonista — e um bom protagonista. Foi muito bom. A gente aprendeu horrores. Faltava esse filme. Faltava o nosso filme de cachorro. E só poderia ser o Caramelo.

O sucesso do filme fora do país foi algo que eu nunca tinha visto: eu estava falando com o Rafa Vitti, ele estava no Caribe, e uma mulher veio falar com ele. Ele achou que ela fosse mencionar alguma novela, mas ela disse: “você é do Caramelo”. Quando eu estava filmando no Marrocos, era o segundo filme mais visto naquele momento no país na Netflix. Era uma comoção internacional que foi muito linda de viver e totalmente inesperada. Sabe quando você passa por uma coisa que você nunca sonhou? Que nem parecia possível? Foi isso. Foi um processo incrível, realmente incrível.

Cine Set – Passando para os lançamentos da Migdal Filmes em 2026, o primeiro a chegar nos cinemas é (Des)controle, protagonizado pela Carolina Dieckmann. Além de produtora, você é a idealizadora do argumento. De onde surgiu o estalo para esta história sobre alcoolismo feminino? 

Iafa Britz – O cinema sempre foi para mim um canal para falar de coisas complicadas. A ficção ajuda muito a tratar tabus, porque é outra pessoa, é uma história, você sabe que aquilo é ficcional, mesmo quando está falando de algo muito real. O cinema tem um lugar curativo nesse aspecto: o personagem é fictício, mas representa uma realidade.

Durante a pandemia, eu comecei a observar um aumento muito desconfortável no consumo de álcool. As pessoas diziam “amanhã eu paro”, “é só no fim de semana”, mas isso acontecia numa escala muito grande. A pandemia da Covid acabou trazendo uma outra pandemia paralela: a progressão do alcoolismo na sociedade como um todo, de uma forma muito violenta. E isso aconteceu dentro da minha própria casa.

Criei, então, coragem para me aventurar num lugar que eu sempre quis: escrever. Escrevi o argumento a partir da minha própria história, da minha relação com o álcool, de uma recaída que eu tive depois de quase 14 anos de sobriedade. Foi uma recaída muito severa, que durou bastante tempo. E eu via muita gente passando por isso. É uma história tão comum, tão coletiva. 

A Rosane (Svartman), que escreveu o roteiro, trouxe muito da própria história dela também. Ela é psicóloga, conhece profundamente essa doença e ajudou muito a organizar, a conduzir, a dar contorno emocional ao filme. Todo mundo tem uma história. Todo mundo tem um amigo, um familiar, um pai, um tio, alguém muito próximo que está sofrendo — ou é você mesmo que está passando por isso. É um vínculo silencioso.

Sentia que estava escrevendo em nome de uma legião de pessoas — familiares, amigos, pessoas próximas de quem sofre dessa doença, o alcoolismo. A rede de apoio sofre muito. Quem tenta ajudar muitas vezes não sabe o que fazer, se impõe limites, se não impõe. Quando existe rede de apoio, ela também sofre. E cada pessoa que foi entrando no projeto foi trazendo suas próprias bagagens.

Documentário sobre Cássia Eller retorna aos cinemas de Manaus

Cine Set – A Migdal está à frente de um dos projetos mais aguardados do cinema brasileiro: a cinebiografia de Cássia Eller com direção do Diego Freitas. Vocês, aliás, já produziram o documentário. Em que pé está o filme? Já tem a protagonista definida?

Iafa Britz – Teremos um nome sim nos próximos meses. O trabalho de seleção de elenco está sendo feito pelo fantástico Gabriel Domingues, indicado ao Oscar deste ano por O Agente Secreto. Passamos os últimos meses fazendo testes e mais testes para encontrar tanto a intérprete da Cássia quanto da (Maria) Eugênia. Espero que até abril vamos anunciar. A ideia é que as gravações aconteçam ainda em 2026.

Cine Set – Como você observa a força das cinebiografias no cinema brasileiro historicamente? Ano passado, por exemplo, Homem com H foi um dos grandes sucessos nacionais.

Iafa Britz – Acho que existe, sim, uma vocação. A gente é um país musical, né? Desde Cazuza, passando por outros projetos — alguns funcionaram melhor, outros nem tanto, ainda que sejam belíssimos. Temos filmes que viraram séries, formatos diferentes. E, de novo, voltando para o início da nossa conversa, existe essa coisa dos nossos heróis. Os nossos heróis nacionais são muito ligados à música, à trilha sonora da nossa vida.

O Homem com H foi um filme que funcionou muito bem para o mercado, funcionou para o público mais jovem, para os pais, para públicos diferentes. E eu acho que a Cássia é mais uma gigante da nossa música. A Cássia é impressionante. Eu escuto Cássia Eller hoje através dos meus filhos, que têm 18 e 21 anos. Tem algo quase místico nisso: gente muito nova ouvindo Cássia, se conectando com Cássia. Isso é um sinal muito forte. Ela atravessa gerações. 

E a história dela vai muito além da música. A relação dela com a Eugênia, por exemplo, muda a história do país. Quando a Cássia morre e a Eugênia fica com a guarda do filho, aquilo estabelece, pela primeira vez no Brasil, o reconhecimento jurídico de um casal lésbico, de um casal homossexual, com direito à guarda. Isso muda toda a relação jurídica do país com casais homoafetivos. É algo enorme.

A Cássia, até quando morre, cria uma grande confusão no melhor sentido. Sempre foi uma quebradora de tabus, uma pessoa que não se encaixotava. Nunca disse “eu sou isso” ou “eu sou aquilo”. Não era uma mulher de bandeira; ela era da arte, da liberdade de expressão.

Cine Set – Para fechar, como foi gravar Geni e o Zepellim, baseado na música clássica de Chico Buarque, na Amazônia, em Cruzeiro do Sul?

Iafa Britz – No início, antes de ir, a gente chamava o projeto de Apocalipse Acre. Este é um projeto para Anna muito diferente: eu não a convidei a Ana somente para dirigir, mas para que colocasse a assinatura dela ali. Tudo isso aconteceu durante a pandemia, num momento em que eu estava lidando com os direitos da música. E eu lembro de ouvir a Ana falando: “essa música é um filme perfeito, é um museu das emoções, é um filme perfeito”. E eu disse: “então faz”. Porque esse filme é muito o filme da Ana enquanto mulher. Eu sou uma mulher de passagem nesse processo, sabe? Um meio de transporte.

E a Ana, imediatamente, disse: “mas tem que ser na Amazônia, porque a Geni é a Amazônia, a Geni é a floresta”. Aquilo me atravessou. Passei uma tarde inteira tentando entender como sair daquela situação, até que uma parte de mim — a parte que duvidava — percebeu que ela tinha toda a razão. Não tinha como fazer a Geni sem ser na Amazônia.

A partir daí começou uma busca enorme. Um desafio apavorante, com várias crises de pânico e ansiedade, pela responsabilidade de levar uma equipe grande para um lugar que a gente não conhecia. Passamos por Belém, Manaus, até que cruzamos com o Sérgio Carvalho, da GRX, no Acre. Foi quando começamos a ver fotos do Rio Grande, especialmente de Cruzeiro do Sul. E ali a gente sentiu que era um lugar diferente dentro de um lugar que já é diferente. Tinha algo muito lisérgico, parecia uma Nárnia dentro do mundo real.

Quando a gente chegou, o Cruzeiro do Sul “matou” a gente — no melhor sentido. Só ali entendemos o tamanho do desafio. O mosquito não era o problema. A floresta exigia muito equilíbrio emocional. As pessoas precisavam ficar meses longe de casa, longe da família. Não dava para ir e voltar toda semana. Isso exige uma estrutura emocional enorme. Ainda mais considerando o histórico já conturbado da personagem.

A Ayla Gabriela, que faz a Geni, é uma força da natureza. Ela é parte essencial de tudo isso. E eu te digo uma coisa, Caio: ninguém voltou igual dessa experiência. Ninguém. A gente sente falta da floresta. Eu estou falando isso agora de um apartamento, perto do mar, com montanha, num lugar privilegiado — mas cadê a floresta? O ar é diferente, a energia é diferente, o tempo é diferente.

Do ponto de vista estrutural, foi muito difícil. Montar uma grande produção ali, levar equipamentos por estradas que não estão preparadas, lidar com coisas que demoram semanas para chegar, cuidar das pessoas, garantir que nada falte. Foi extremamente desafiador. Que sorte a nossa ter vivido isso. Eu quero voltar para aí o resto da vida, de verdade. A gente já vive organizando viagens para retornar. Porque aquilo não sai da gente. Foi um encontro de pessoas do Brasil inteiro, um filme verdadeiramente coletivo.