Intitulado “Seven”, o quarto episódio de “O Cavaleiro dos Sete Reinos” nos apresenta as consequências dos eventos de encerramento do episódio anterior: Dunk (Peter Claffey) enfrentando Aerion (Finn Bennet) para defender Tanselle (Tanzyn Crawford) e Egg (Dexter Sol Ansell) revelando sua identidade como Aegon Targaryen. Como a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco, é Dunk quem leva a pior. 

Aprisionado a espera do que Lord Ashford e Baelor Targaryen (Bertie Carvel) farão com ele, o grande destaque, para mim, é a movimentação de câmera que passa a sensação de que o cavaleiro andante está preso dentro da boca de um dragão. Evidencia atestada, por exemplo, no enquadramento que o deixa envergado e encolhido — posição apontada por si mesmo desde o episódio piloto. 

O trabalho de Claffey atrelado a direção de Sarah Adina Smith (responsável pelo episódio anterior e também por séries como Uma Questão de Química) verbaliza o necessário sobre os sentimentos e incômodos que permeiam os personagens, utilizando poucas palavras e abusando — de forma eficaz — dos outros elementos que compõem a linguagem audiovisual como a fotografia, a direção de arte e a direção de atores. Dunk se sente traído e enganado, ainda assim continua a ver-se de forma inferiorizada diante dos nobres e do próprio Egg. Poucas palavras são ditas por ele, mas o retraimento de seu corpo, as expressões faciais e o olhar amedrontado conseguem nos transmitir toda essa caracterização do personagem. 

O mesmo acontece com o filho mais novo de Maekkar (Sam Spruell), Dexter Sol Ansell lhe confere uma postura régia e — me perdoem o comparativo —, embora ele seja o quarto filho de um quarto filho e, portanto, esteja bem longe do trono de ferro, seu comportamento e sua postura é de alguém que realmente tem o porte de herdeiro do trono, algo que não vimos em Aegon 2, de Casa do Dragão, e nem nos filhos de Cersei Lannister. Ainda que acoado e sem justificativa para suas ações, o menino segue imperial e com costumes bem diferentes da nobreza que parasita os Targaryen, mas sem perceber como sua sede por viver para além das imposições do título e do berço prejudica Dunk. 

A síndrome de pobre menino rico, contudo, parece ter sido herdada do pai. Afinal, Maekkar parece sempre estar com um grande dilema para ser resolvido — imagina se ele fosse Mão do Rei e Príncipe de Pedra do Dragão? —, sendo que a solução poderia estar nele mesmo, como, por exemplo, na criação dada a Daeron (Henry Ashton) — o maior colírio Targaryen ao lado de Vallar, em minha humilde opinião —, Aerion e até mesmo de Egg. Mas é difícil quando você tem que viver a sombra de alguém tão incrível quanto Baelor. A pior parte é perceber o quanto isso é escancarado não só para nós quanto para Westeros. 

Perceba, por exemplo, que Maekkar entra em Batalha porque precisa defender e apoiar a escolha de seu filho cruel por um combate de sete que não acontece a mais de 100 anos — daí o nome do episódio — e apenas para não manchar o nome de sua casa, por outro lado, Baelor entra em campo para defender os ideais de cavalaria, lutar para defender a honra de um inocente. Não a toa, todo o povo percebe o quão justo e grandioso ele é e nós, porque me incluo nesse público, o olhamos com a mesma admiração que o garoto Egg faz. E sabe o que é curioso? É o quanto “Seven” nos aponta o destino que aguarda Baelor. 

Não darei spoilers do próximo episódio, mas te convido a ficar atento em duas coisas que nos são apresentadas aqui: primeiro, o sonho de Daeron no qual há um dragão morto por Dunk. Uma fera tão grande que cobria toda a campina. Além disso, a trilha sonora do momento catártico do episódio é a música oficial de Game of Thrones, me faz pensar que nenhum personagem está isento de morrer e que a figura mais justa d’As Crônicas de Gelo e Fogo tem um final trágico. São apenas indícios, mas que cooperam para a mudança de ritmo e de subgênero que temos aqui. Não é só a névoa que invade o campo de batalha, ela engrossa o clima que Ira Parker havia estabelecido.

No primeiro momento, “O Cavaleiro dos Sete Reinos” passava uma áurea leve, divertida, arrancando algumas risadas intensas. No entanto, este episódio, em específico, abre mão desse tom de comédia para dar espaço ao drama que tanto permeia esse universo. E ai, temos um acúmulo de momentos icônicos em um mesmo episódio a começar pelo sonho de dragão revelado — é bom ver um Targaryen naturalmente sonhador, sem ser a forçação que Casa do Dragão faz —; passando por Lyonel Baratheon (Daniel Ings) armando cavaleiro o grande amigo de Duncan, Raymun Fossoway (Shaun Thomas), e aqui a direção de fotografia e de arte tornam o momento ainda mais singular com os planos alternando entre zenital e plano aproximado, para nos mostrar a beleza da complementaridade do amarelo Baratheon com o vermelho da maça Fossoway em destaque sobre a lama acizentada de Vaufreixo. A escolha por captar os detalhes desse momento a partir da câmera na altura dos olhos tanto de Lyonel quanto de Raymun dá valor a esses personagens secundários e ao momento, além de emitir a atmosfera da novela de cavalaria. 

Tal contexto cresce ainda com o juramento em off, o qual nos presenteia também com o encerramento do discurso de legado de Sir Arllan (Danny Webb), que atormentou Dunk até este momento. O cavaleiro andante agora está apto para caminhar por si mesmo. Por isso, as imagens e o trabalho corporal de Claffey abrem mão do temor que o sonda e expõem um cavaleiro que parte para a batalha mais importante da sua vida, mas firma no juramento que fez outrora e sem mostrar medo para aqueles que nunca lhe foram condescendentes e/ou amigáveis. E tudo isso nos prepara para o momento que talvez seja o mais especial para o público: a chegada de Baelor para defender Dunk. O Príncipe herdeiro mostra porque é tão amado e diferente de toda a sua família — e sim, incluo  qualquer outro Targaryen que conhecemos até aqui neste universo — e como sua simples presença é capaz de trazer o sol para um campo de batalha dominado por névoa.

Dessa forma, “Seven” funciona como um episódio de transição para o final desta temporada. A comicidade diminui, acontecendo em momentos específicos, e abre espaço para o drama, buscando nos preparar para os momentos emocionalmente angustiantes que virão. Até lá, estarei nas trincheiras pelo querido Baelor.