Joel Edgerton costuma interpretar personagens complexos e moralmente ambíguos, frequentemente atravessados por questões de masculinidade, família e identidade. Uma característica recorrente em sua filmografia — e que chama atenção em trabalhos como Loving e, agora, Sonhos de Trem — é a forma como constrói protagonistas silenciosos, profundamente emocionais mesmo quando contidos.

O Cine Set participou de uma coletiva de imprensa em que o ator falou sobre sua parceria com o diretor Clint Bentley, a masculinidade presente em seus personagens e o processo de improvisação que ajudou a dar vida a Robert Grainier.

Pergunta – Li bastante sobre o processo de direção do Clint Bentley, que costuma colocar os atores em cenários reais para improvisar, permitindo que sintam as emoções e reajam organicamente às situações. Como ator, que diferença faz ter esse espaço para improvisar e vivenciar essas emoções?

Joel Edgerton – Eu adoro isso. Quero dizer, conheço atores que não gostam de improvisar, que preferem seguir estritamente o roteiro — e essa é uma abordagem que eu respeito totalmente. Às vezes, porém, pode ser problemático se não houver trilhos de segurança, certos limites, e tudo ficar completamente solto. Isso já é uma outra metodologia. Mas há atores que realmente se sentem à vontade nesse tipo de processo.

Conhecia meu personagem tão bem que o diretor podia dizer algo como: “Ok, eu não roteirizei uma cena na cozinha, mas quero ver você e a Felicity cozinhando. Quero ver a Gladys e o Robert preparando uma refeição no primeiro dia depois de meses separados”. E foi exatamente isso que fizemos. Estávamos cortando legumes, preparando um ensopado, e a intenção do Clint era criar um roteiro muito estruturado e intencional, mas, ao mesmo tempo, abrir esses momentos da vida doméstica para ajudar a construir todo o tecido da relação.

Outro exemplo fundamental foram as cenas com o bebê e, depois, com a Katie aos dois anos, ainda muito pequena. A ideia era simplesmente nos permitir interagir com a criança enquanto dizíamos o diálogo, deixando espaço para que a cena se moldasse àquela situação específica. Se o bebê estivesse chorando, aquela seria a cena. Se estivesse dormindo, tudo mudava. Percebemos que acabávamos falando mais baixo, quase sussurrando, como pais fariam naturalmente para não acordar o próprio filho.

O Clint tinha escrito um roteiro para essas cenas, mas, muitas vezes, precisávamos deixá-lo de lado e pensar: “Ok, a essência da cena é a brincadeira” ou “a intenção aqui é a despedida”. A despedida, inclusive, quando eu tiro a flor da minha mão, foi algo que simplesmente improvisamos. Isso tornou a experiência muito especial, porque acrescentou pequenas camadas a esse casamento, em vez de sermos apenas uma sequência de cenas. Estávamos, de fato, vivendo uma vida em família naquele ambiente.

E isso se conecta com o que você mencionou sobre os cenários reais. Aquela cabana era completamente funcional: dava para morar ali, cozinhar, abrir qualquer gaveta ou armário e encontrar objetos da época — tecidos, talheres, brinquedos, ferramentas. Não havia aquele medo de abrir algo e encontrar um equipamento moderno. Fora da cabana, havia uma horta com vegetais de verdade, ferramentas, um machado, lenha cortada. Você podia ir a qualquer lugar.

A ideia era que o diretor de fotografia, Adolpho Veloso, simplesmente nos seguisse, e que pudéssemos escolher nossos próprios caminhos dentro da cena. Mas, ainda assim, não era algo totalmente solto: sabíamos que estávamos seguindo um plano muito claro.

Cine Set – Seus personagens costumam parecer fortes à primeira vista, mas revelam grande vulnerabilidade e profundidade. Robert segue esse caminho. Como você o enxerga em relação a outros personagens que já interpretou?

Joel Edgerton – Cada personagem acaba se tornando algo próprio, com seu próprio mundo e abordagem. Costumo me fazer perguntas curiosas sobre eles: eles acreditam em Deus? Como se sentem em relação à amizade? Que tipo de marido ou pai seriam?

Quanto mais perguntas você faz, muitas respostas estão no roteiro ou na história, mas também é possível ir além e pensar em como esses personagens veem o mundo. Frequentemente reflito sobre como definir a masculinidade desses homens. Quando assisto a outros atores, fico interessado nos aspectos mais duros — resistência, capacidade, resiliência, às vezes até violência. Mas também acho essencial imaginar quem foi a criança que cresceu e se tornou aquele homem.

Por isso, me pergunto quanta sensibilidade existe em cada personagem, o quanto eles conseguem articular seus sentimentos, o quanto estão dispostos a demonstrá-los. Mostrar essas dimensões é fundamental para ampliar o que entendemos como masculinidade. Não acredito que demonstrar emoção torne um homem menos forte — pelo contrário, vejo nisso uma dignidade maior.

No caso do Robert, ele me lembra homens extremamente sensíveis, cheios de sentimentos, mas que viveram em uma época em que demonstrar emoção parecia errado, como se isso os tornasse fracos. Isso cria uma tensão enorme, porque sabemos que ele carrega perdas profundas e muito luto. Parte de mim se entristece ao pensar em homens que não conseguem se sentir livres para expressar o que sentem.

Pergunta – Houve alguma inspiração visual para a construção do personagem? Fotografias da época ou filmes que retratam aquele período da história dos Estados Unidos, como os faroestes?

Joel Edgerton – O Clint me enviou muitos livros, especialmente livros de fotografia da era industrial, com imagens da extração de madeira e das ferrovias. Aquelas fotos incríveis das árvores gigantes, com equipes de homens posando ao redor, foram muito marcantes para mim.

Há uma cena no filme com uma árvore enorme, com uma cunha cravada nela, e homens posando em tábuas dos dois lados — algo muito parecido com essas fotografias antigas em preto e branco. Ver aqueles homens marcados pelo trabalho, pela dureza física, foi essencial para construir o personagem. Quando chegamos ao set, parecia que estávamos vivendo dentro dessas imagens.

Muitos figurantes, inclusive, tinham experiência real na indústria madeireira. Eles sabiam usar as ferramentas, vestiam roupas de época com naturalidade. Tudo isso ajudava. Fiz bastante preparação quando chegamos a Spokane, praticando com as ferramentas, para não parecer deslocado derrubando árvores ou usando um machado.

Também conversamos bastante sobre sotaques. Procurei gravações de homens da época falando sobre o trabalho nas ferrovias e nas florestas. Ouvia como falavam, os sons, as histórias do cotidiano — desde problemas simples até acidentes graves. Tudo isso, imagens, sons e relatos, foi fundamental para formar a abordagem do personagem.