Dona de uma das maiores carreiras do cinema mundial dos últimos 40 anos, Kate Winslet poderia apenas se contentar em buscar um segundo Oscar em Melhor Atriz ou fazer um blockbuster como “Avatar” ao lado do amigo James Cameron para manter o nome em evidência e, claro, ganhar uns trocados. A estrela britânica, entretanto, resolveu seguir um caminho mais ousado: estrear na direção com “Adeus June”.

O drama com estreia prevista na Netflix para o Dia de Natal não chega a ser aquele filme fofinho para reunir toda a família impunemente no feriadão. Adeus June mostra os últimos dias da matriarca de uma família em um hospital britânico. Com muitos momentos dramáticos para fazer o público chorar, a produção mostra todos os amores da vida da protagonista – do marido aos filhos até chegar aos netos – superando antigas desavenças para proporcionar a melhor partida possível para a mãe, esposa e avó.

Apesar da aventura de estrear na direção, Kate jogou em casa: Adeus June conta com o roteiro do filho da estrela, Joe Anders, enquanto o elenco reúne grandes nomes e amigos dela, incluindo, Helen Mirren, Toni Collette, Timothy Spall e Andrea Riseborough. O Cine Set teve a honra de conversar com a diretora que revelou curiosidades sobre os bastidores do longa.

Cine Set – Quando surgiu seu desejo de dirigir pela primeira vez e como Adeus June se tornou parte dessa jornada?

Kate Winslet – Antes de Adeus June, eu já tinha pensado em dirigir de vez em quando ao longo da minha vida. Mas, sendo honesta, foram outras pessoas dizendo que eu deveria dirigir que realmente me fizeram pensar nisso com mais profundidade. Outros diretores às vezes me diziam: “você deveria dirigir, você pensa como uma diretora”. Depois, membros das equipes de filmagem às vezes diziam o mesmo, atores também.

Aquilo me fazia parar e refletir de verdade: talvez isso pudesse fazer parte da minha vida. A razão pela qual eu não tinha feito isso até agora é porque jamais faria algo assim sem sentir que realmente sabia o que estava fazendo. Eu não sou o tipo de pessoa que faz as coisas “no impulso”. Além disso, eu estive criando uma família. Então, paralelamente à minha carreira como atriz — e a complexidade que isso envolve — a minha prioridade sempre foi a minha família. E dirigir exige um tempo enorme, muito maior do que para um ator. Do começo ao fim, é pelo menos um ano inteiro de trabalho contínuo, se não mais. E, quando você é mãe, simplesmente não é possível dedicar tanto tempo assim. Não é um trabalho das 9h às 17h; é muito mais intenso.

Esse roteiro, quando meu filho o escreveu na escola de roteiro e me mostrou depois, ele mesmo achava que não era bom. Estava nervoso em me mostrar, mas queria meu retorno como mãe. Eu li e disse imediatamente: “isso pode virar um filme, de verdade”. E ele respondeu: “do que você está falando? Mãe, não é isso. Você não precisa me elogiar só porque é minha mãe”. E eu disse: “não, está realmente muito bom”.

Joe (Anders) trabalhou mais no roteiro, desenvolveu melhor a história, e depois de algumas versões o texto se tornou um roteiro muito sólido. A ideia inicial era que eu produzisse o filme e interpretasse uma das irmãs. Mas então a Netflix entrou no projeto, e chegamos ao momento de começar a considerar diretores. Foi aí que eu percebi, de repente, que não queria abrir mão daquilo.

Aquela história se tornou importante demais para mim para que eu apenas atuasse ou ficasse restrita à produção. Queria dirigir também. Senti de verdade que essa era uma oportunidade que talvez tivesse sido um erro deixar passar. E eu não queria me arrepender disso. Nesse momento da minha vida, eu podia fazer, eu me sentia pronta.

Também queria que meu filho fizesse parte disso, que continuasse envolvido. Normalmente, roteiristas não estão no set, não acompanham de perto a materialização das personagens e das histórias. Para ele, eu queria que tivesse a experiência de ver os atores habitarem esses personagens e ver tudo aquilo ganhar vida. Sinceramente, me sinto muito orgulhosa do filme e, mesmo que eu nunca mais dirija nada na minha vida, fico orgulhosa de ter feito esse. Foi uma experiência muito especial e estou profundamente feliz por tê-lo realizado.

Cine Set – Um momento que realmente me chamou a atenção foi quando June, exausta e com dores, disse que não sentia mais nenhuma dignidade naquela situação. Gostaria de saber a sua opinião sobre a importância de Goodbye June abordar uma fase tão delicada do fim da vida e a necessidade de oferecer o melhor cuidado possível a alguém que está se aproximando de seus momentos finais.

Kate Winslet – Era muito importante dar dignidade à June, mesmo que ela própria se sentisse indigna. Ela é uma mulher muito orgulhosa, internamente forte, que ama a família de maneiras muito, muito diferentes, sendo a espinha dorsal de todos alis. Se tivéssemos levado a narrativa longe demais no sentido de mostrar o seu declínio, realmente poderíamos ter feito isso.

June fala, por exemplo, sobre as injeções na barriga todos os dias. Eu poderia ter mostrado isso. Poderíamos mostrar que, quando a pessoa já não consegue sair da cama com frequência, ela passa a ser lavada ali mesmo, na cama, e todas essas coisas. São situações que a June jamais teria permitido que a família visse. Por isso, era importante manter esses aspectos separados do núcleo principal da nossa história, porque, ao fazer isso, estávamos preservando a dignidade dela. E isso era o que mais importava para ela.

Ela também estava no controle do que estava acontecendo com ela. Como ouvimos dos profissionais de cuidados paliativos no início, eles dizem exatamente isso: foi uma escolha dela. Ela foi até eles sem contar à família, justamente para ter algum controle, alguma autonomia sobre o que viria a seguir.

Acho que, culturalmente — certamente no meu país — não somos muito bons em falar sobre perda, morte e doença. Realmente espero que, com este filme, possamos oferecer ao público um espaço para se sentir um pouco mais corajoso ao enfrentar essas conversas difíceis, seja com os pais, seja com pessoas que amamos. Porque é difícil. É difícil encarar a verdade. Mas é algo que, inevitavelmente, acontece com todos nós.

Cine Set (Pâmela Eurídice) –  Tem uma parte do filme que me toca muito, quando trata desse processo de esperar pela morte de uma pessoa querida. É uma história muito sensível sobre uma família cercada pelas pessoas que ama em uma data tão especial quanto o Natal. Você poderia falar sobre a escolha do tema e suas referências?

Kate Winslet – O roteiro foi escrito pelo meu filho. E quando ele me mostrou o roteiro pela primeira vez, eu fiquei realmente emocionada com ele, porque ele começou a escrevê-lo quando tinha apenas 19 anos. E, sabe, ele tem só 21 anos agora. E de alguma forma ele criou uma história que parecia muito real. Eu acreditei em todos os personagens. Eu acreditei em todos os diálogos. Também achei muito engraçado, além de ser tocante. E é sobre algo que, sabe, eu também já passei por perdas. E eu me lembro de quando perdi minha mãe, de ter ficado tão impressionada com o fato de todo mundo se reunir, de como foi uma experiência incomum estar em um mesmo espaço com toda a minha grande família. Nós nem sempre nos vemos o tempo todo mais. As pessoas moram em lugares diferentes, e de alguma forma vocês todos são atraídos para se reunir por causa daquela pessoa importante.

E é um tema tão identificável porque acontece em qualquer família, não importa como ela seja para você. A perda é algo que todos nós vivenciamos. E na verdade eu acho que tentar fazer uma história que fosse sensível, que parecesse identificável e que, de certa forma, fosse quase catártica, isso era algo muito importante para mim — que as pessoas pudessem se sentir à vontade para falar sobre suas próprias histórias e suas próprias experiências de perda.

Sabe, e há alguns dias, um grupo de pessoas assistiu ao filme e alguém me disse: “Sabe, eu não vejo minha irmã, nós não nos falamos há sete anos.” Sete anos. Ela disse: “Eu vou ligar para ela agora mesmo e dizer: vamos, a vida é muito curta.” Eu pensei: meu Deus, que maravilha poder oferecer a alguém até mesmo o pensamento de que ela poderia ter essa conversa. E eu amei isso. Amei fazer esse filme. Amei produzi-lo. Amei interpretar a Julia. Amei dirigi-lo. Amei tanto. Nunca queria que acabasse. Foi a experiência mais extraordinária.