A certa altura de Anaconda, o filme do diretor Tom Gormican que foi vendido como remake/reboot/reimaginação do filme de cobra gigante dos anos 1990, fica claro que os responsáveis por essa produção simplesmente não poderiam fazer uma nova versão que fosse séria e assustadora. Estamos vivendo numa era pós-Anaconda, não o filme, mas a música da Nick Minaj, que inclusive toca nesta nova produção. Depois dessa pérola da cultura mundial, não é possível mais existir uma Anaconda assustadora.

Por isso, essa nova versão aposta na comédia e no nonsense. Na história, Jack Black e Paul Rudd são dois amigos cinquentões, cujas vidas estão estagnadas. O personagem de Black ambicionava ser diretor de cinema, mas hoje só consegue dirigir vídeos cafonas de casamentos; o personagem de Rudd é um ator que só consegue papel de uma ou duas falas em seriados policiais ou médicos. Mas quando eram adolescentes, eles e mais dois amigos, interpretados por Thandiwe Newton e Steve Zahn, fizeram um filme e sentiram a paixão do cinema.

De algum jeito, eles conseguem os direitos para refilmar Anaconda (1997), e partem para a Amazônia para fazer uma versão cinema de guerrilha do filme de monstro que impulsionou as carreiras de Jennifer Lopez e Ice Cube. No caminho, eles topam com um estranho guia expert em cobras – vivido de forma impagável por Selton Mello – e com umas anacondas de verdade, e precisam lutar para sobreviver.

É curioso perceber como o roteiro de Gormican e Kevin Etten – parceiros nos filmes anteriores do diretor, o divertido O Peso do Talento (2022) e o redundante Um Tira da Pesada 4 (2024) – a partir de certo ponto começa a empilhar uma piada metalinguística em cima da outra. Ora, já vimos Jack Black como cineasta e realizador de filmes amadores, em King Kong (2005) e depois em Rebobine, Por Favor (2008). Algumas das melhores piadas são tirações de sarro com Hollywood e a noção de refilmar Anaconda com alguns cenários parecidos e fanservices. Um dos melhores momentos é uma citação ao Jordan Peele, outro envolve um javali e um esquilo – existem esquilos na Amazônia? – e há algumas pitadas de humor brasileiro.

O roteiro até perde força lá pela metade, mas depois a recupera ao apostar no absurdo e, principalmente, na química entre os atores. Anaconda 2025 pode até se atrapalhar às vezes, mas ninguém pode acusar o filme de não ter coração. Todos em cena parecem estar se divertindo muito – Zahn rouba algumas cenas – e a amizade dos personagens, especialmente entre os de Rudd e Black, carregam a história com facilidade.

É um filme que joga tudo no liquidificador: cenas de ação, um espírito de Trovão Tropical (2008) que também tinha Jack Black, efeitos digitais, uma Amazônia recriada na Austrália e uma vontade de zoar com a própria noção de refilmagens e a indústria hollywoodiana que hoje parece uma cobra comendo o próprio rabo, se autoconsumindo. Anaconda nunca leva sua brincadeira ao nível maluco e autodestrutivo de um Adaptação (2002), por exemplo, pois Gormican e Etten não são Charlie Kaufman, e nem é essa a proposta. Mas é um filme que consegue divertir, com uma pitada leve de acidez. 

É como se todo este Anaconda fosse no estilo daquela cena do original em que Jon Voight era cuspido pela cobra após ser engolido, e piscava para a câmera. Ali, era um ator que sabia exatamente o tipo de filme no qual estava, mesmo que os demais envolvidos na produção não soubessem. No novo Anaconda, todo o elenco e equipe estão por dentro da piada, e felizmente eles a contam de modo divertido para o público.