A missão de eternizar nos cinemas a trajetória do maior ídolo do Flamengo coube a um santista. Diretor de documentários como “Junho: O Mês que Abalou o Brasil”, “Larissa: O Outro Lado de Anitta” e “Meu Ayrton, por Adriane Galisteu”, João Wainer lança “Zico – O Samurai de Quintino”.

O filme parte da trajetória de um dos maiores jogadores da história do futebol brasileiro para ir além das quatro linhas. Mais do que revisitar gols, títulos e momentos emblemáticos, a obra busca entender o que sustenta o legado de Zico — um conjunto de valores que envolve disciplina, compromisso, ética profissional e respeito ao coletivo. A narrativa se constrói a partir de imagens de arquivo raras, muitas delas inéditas, além de depoimentos e uma pesquisa extensa que conecta diferentes fases da vida do ídolo, do subúrbio carioca aos gramados internacionais.

Em entrevista ao Cine Set, Wainer revela curiosidades sobre os bastidores do longa, o pedido de Zico para Jorge Ben Jor liberar a trilha para o filme e ainda aponta porque o Galinho é uma referência para os jovens atletas do futebol brasileiro.

Cine Set (Caio Pimenta) – Em “Pelé Eterno”, o Aníbal Massaini recria o gol mais bonito da carreira do Pelé contra o Juventus com animação; não há imagens deste momento. Assistindo “Samurai de Quintino”, chama minha atenção como a carreira do Zico tem registros de tudo, inclusive de partidas poucos lembradas como a estreia dele. Neste sentido, pela sua pesquisa e arquivos, seria exagerado dizer que o Zico foi o primeiro (ou um dos primeiros) astro do futebol brasileiro que teve este registros com tamanha riqueza do início ao fim?

João Wainer – Fiquei muito impressionado com a quantidade de material que existia do Zico. Desde o começo, todo mundo já sabia que ele era “o cara”, então ele foi muito filmado e fotografado ao longo da carreira. Mas o que mais me surpreendeu, de verdade, foi o senso de memória e preservação — principalmente da Sandra, esposa dele. O Zico também tem isso, claro, mas ela é ainda mais cuidadosa nesse aspecto.

Desde sempre, ela guardou absolutamente tudo: pastas com recortes de jornal, reportagens, fitas VHS, objetos, flâmulas, troféus, prêmios… até aquele caderninho onde o Zico anotava coisas. É algo impressionante. Esse cuidado com a memória foi fundamental para que a gente conseguisse chegar ao resultado que alcançamos.

E tem uma história curiosa: o Zico chegou a contratar um cinegrafista para filmar os jogos dele no subúrbio. Essas fitas estavam guardadas — cerca de 30 rolos de Super 8 que nunca tinham sido digitalizados. Nem ele sabia exatamente o que tinha ali. Eram imagens que ele tinha visto talvez há 20 anos, num projetor, e nunca mais. A gente digitalizou tudo. Além desse acervo pessoal, fizemos um trabalho de pesquisa paralelo muito consistente, que ajudou a complementar o material. E também contamos com a parceria da Globo Filmes, que abriu o acesso ao acervo da Globo, ampliando ainda mais as possibilidades.

Outro ponto importante foi o uso de novas tecnologias. Trabalhamos com upscaling, transformando imagens em SD — com resolução mais baixa — em material próximo de 4K, usando inteligência artificial. Isso faz muita diferença. Aqueles gols que, normalmente, você veria esticados na tela, com qualidade limitada, agora aparecem de um jeito completamente diferente. Mesmo o material que não foi filmado em película ganha uma nova vida. No cinema, essas imagens vão ser vistas como nunca foram antes.

E no cinema tem uma coisa muito especial também. A gente regravou todos os sons de torcida da época, o que fez uma diferença enorme na experiência. Quando fomos fazer essa captação, os instrumentos foram gravados em canais separados — cada elemento da bateria da torcida, cada detalhe, tudo isolado.

Além disso, regravamos os gritos de guerra com a galera da Flamengo, respeitando o que era cantado nas arquibancadas naquele período. Isso deu uma autenticidade muito forte.

Com esse material em mãos, o Edu, que assina o desenho de som do filme, conseguiu trabalhar essa espacialização de um jeito muito imersivo. No cinema, você sente o som vindo de todos os lados: um bumbo que entra por um lado, um grito que responde do outro, os cantos se espalhando pela sala. E quando sai o gol, o som vem como uma onda, cresce e parece que avança em cima de você.

A sensação é realmente de estar dentro de uma arquibancada. Não é só assistir — é viver aquele momento. Então, assim, a experiência cinematográfica está muito especial para esse filme.

José Carlos Araújo, Daniela Boaventura e Zico. Crédito: Peter Wrede

Cine Set (Caio Pimenta) – Já que estamos falando de sonoridade, gostaria de saber das versões do Jorge Ben Jor do hino e das canções da torcida do Flamengo. Como vocês conseguiram?

João Wainer – A gente encontrou uma versão muito especial: uma gravação do Jorge Ben Jor do hino do Flamengo, feita lá no programa Estágio, da TV Cultura. Foi um achado incrível.

Só que, quando fomos atrás do licenciamento, a resposta foi um balde de água fria. O pessoal dizia: “esquece, o Jorge Ben não licencia nada”. 

Aí eu virei para a produção e falei: “ok, vocês estão dizendo que ele não licencia… mas quantos gols vocês já fizeram pelo Flamengo?”. Ninguém, claro. Então eu disse: “é por isso. Deixa o Zico ligar pra ele”.

O Zico pegou o telefone, entrou em contato com o Jorge Ben, explicou o projeto… e na hora veio a resposta: “pra você, tudo, garoto. O que você quiser”.

E assim a gente conseguiu liberar a música. Foi um momento muito especial, não só pelo que ela representa, mas pela história por trás. Virou, sem dúvida, uma das coisas mais bonitas do filme.

Cine Set (Caio Pimenta) – Há uma cena em que vemos Pelé e Zico juntos em que é ressaltado como eles não deixavam de atender ninguém, sempre solícitos com todos. Seria este perfil mais acessível que faz dele ainda hoje um ídolo querido inclusive por torcedores rivais ao Flamengo? Falta mais isso aos jogadores de hoje em dia?

João Wainer – O Zico é a maior torcida do Brasil. Porque existe uma coisa muito curiosa: você pode ser botafoguense e, ainda assim, ser ziquense. Eu sou santista e também sou ziquense. Então, nesse sentido, a torcida do Zico talvez seja a maior do país.

E isso não tem a ver só com os gols ou com a postura dentro de campo. Claro, ele fez muito gol, mas outros jogadores também fizeram. Acho que passa muito por um lugar de compromisso e de respeito — respeito ao próprio trabalho, aos profissionais envolvidos e, principalmente, ao torcedor, que é, no fim das contas, o “cliente”. E existe uma máxima em qualquer área: você precisa respeitar quem está do outro lado. O cliente tem sempre razão, você tem que estar ali, presente.

Hoje em dia, a gente não vê isso com tanta frequência. Muitos jogadores são mais individualistas, pensam mais em si mesmos, têm pouca ligação com os clubes e trocam de time muito rápido. Falta esse senso de pertencimento.

Por isso, eu acho que o Zico e o Pelé, do jeito que são, acabam deixando uma lição importante. Porque, se dois caras desse tamanho nunca foram marrentos, fica difícil entender essa postura em jogadores que ainda estão começando. Você precisa ter humildade, precisa ter noção das coisas.

Gostaria muito que esse exemplo fosse mais observado pelas novas gerações. Talvez isso não mude — porque também é uma característica do nosso tempo —, mas é importante lembrar que o futebol é um jogo coletivo. E os maiores da história foram justamente aqueles que pensavam coletivamente. Então, alguma coisa isso quer dizer. Se Pelé e Zico eram assim, alguma razão tem.

Cine Set (Caio Pimenta) – Qual característica do Espírito Zico, deste samurai brasileiro, mais te toca? Em qual momento você destaca isso no filme?

João Wainer – O grande achado do filme foi entender o que a gente passou a chamar de “espírito Zico”. Porque existe uma ideia muito comum no Brasil de celebrar aquele jogador que vira a noite, enche a cara, sai com várias mulheres e, no dia seguinte, ainda faz gol — essa figura meio inconsequente que muita gente admira. E o Zico nunca foi isso. Ainda assim, sempre foi profundamente amado.

Quando ele chega ao Japão, isso fica ainda mais claro. Os japoneses não só identificam essa característica nele, como dão nome a ela — o tal “espírito Zico”, que virou algo quase simbólico dentro do Kashima Antlers. Mas o mais interessante é que, quando a gente olha para a trajetória dele desde o começo, percebe que esse espírito sempre esteve lá. Não é algo que ele aprendeu fora, é algo que ele sempre carregou.

A partir desse entendimento, ficou claro para a gente que o filme não era só sobre futebol. Era sobre esse espírito — sobre disciplina, compromisso, respeito, senso coletivo.

E, para tentar organizar isso narrativamente, eu acabei criando uma espécie de “teoria” na minha cabeça, quase uma fábula: de que o Zico seria, na verdade, um samurai japonês que morreu no século XVIII e reencarnou em Quintino com a missão de aprender futebol e levar esse conhecimento de volta ao Japão. Pode parecer viagem, e é mesmo, mas me ajudou a construir o filme.

Porque, de certa forma, tudo encaixa: ele cresce em um ambiente ideal, numa família que praticamente o forma dentro de uma redoma, como alguém que precisa cumprir uma missão. Cumpre sua trajetória no Flamengo e, quando essa primeira jornada se encerra, algo meio inexplicável o leva ao Japão.

E quando ele chega lá, mesmo antes da criação da J-League, encontra um ambiente onde tudo funciona de forma muito alinhada ao que ele acredita: disciplina, pontualidade, compromisso coletivo. É como se ele se sentisse, finalmente, em casa. Como se dissesse: “o talento eu ensino, mas isso aqui — esse senso de responsabilidade — é o que realmente importa”.

Na minha cabeça, então, a ida dele ao Japão tem esse significado simbólico de retorno. Claro que essa leitura não aparece de forma literal no filme, mas ela orientou a construção da narrativa. E, de algum modo, esse espírito está todo lá.