Natural da pequena cidade mineira de Guaxupé, João Pedro Mariano encarou um desafio enorme logo na estreia nos cinemas: ser o personagem-título de “Baby”, drama do prestigiado diretor Marcelo Caetano (“Corpo Elétrico”).
O trabalho hipnótico em uma dobradinha excelente com Ricardo Teodoro rendeu ao jovem ator prêmios nos festivais do Rio de Janeiro, Fest Aruanda e Mix Brasil.
Neste entrevista exclusiva ao Cine Set, João fala sobre o processo de seleção para o filme, a relação com a cidade de São Paulo e um emocionante encontro com a espectadora na Mostra de Tiradentes.
Cine Set – Quanto tempo levou o processo de seleção para a sua escolha? E, em algum momento, o Marcelo Caetano ou alguém da equipe comentou o que acharam de você? Ficou sabendo por que você foi o cara ideal para fazer Baby?
João Pedro Mariano – O meu processo de seleção durou cerca de cinco meses. Foram várias fases, e a ansiedade era constante com aquela dúvida: ‘Meu Deus, será que sou eu? Será que não sou?”
O último encontro foi uma fase importante: fizemos um teste com o Ricardo Theodoro, que já estava confirmado para interpretar o Ronaldo. A cena que trabalhei nessa etapa foi a das cicatrizes, aquela cena linda do começo do filme, em que o Ronaldo fala sobre suas marcas.
Durante o teste, em uma parte em que o personagem mencionava a Fundação Casa, o Marcelo pediu uma pausa. Eu, que venho do teatro e costumo estar sempre em movimento, aproveitei essa quebra para perguntar diretamente a ele: ‘Sim, o senhor deseja que eu faça o que neste momento?’. A interação foi muito natural e fluiu bem.
Depois, conversando com o Marcelo, percebi que ele prestava muita atenção nessas reações dos atores, especialmente nos momentos inesperados, para entender como cada um se comportaria na dinâmica intensa das filmagens. Demorou um pouco até me contarem detalhes do processo, mas, agora, sei que um dos fatores decisivos foi a minha conexão com o Ricardo.
A gente deu match de imediato — houve um interesse genuíno de um pelo outro — e acredito que isso acrescentou profundidade às cenas, trouxe mais camadas para a relação dos personagens.
Cine Set – João, o que chama muito a atenção em “Baby” é como o roteiro e a direção evitam simplificar os personagens. Eles não são tratados de forma maniqueísta, como vilões ou heróis. Como é para você, como ator, construir um personagem tão complexo, que vive em condições adversas e tem características tanto boas quanto ruins? Como encontrar o tom e a dinâmica de um personagem com tantas possibilidades?
João Pedro Mariano – É uma questão interessante, porque esse tipo de projeto, com tamanha complexidade, é exatamente o que um ator espera. Ele oferece a possibilidade de adicionar muito ao personagem, mas também traz o risco de sobrecarregar a atuação com excessiva informação, tornando-a intelectualizada demais.
No caso do Wellington, o que me atraiu foi a base de pesquisa. Tive a oportunidade de visitar a Fundação Casa, onde conversei com os meninos, e isso me deu uma compreensão mais profunda do personagem.
O que mais norteou a construção do Wellington foi a questão corporal. Primeiro, busquei entender como esse garoto se comporta fisicamente. Vi que, muitas vezes, jovens no sistema socioeducativo, especialmente os menores infratores, tendem a se fechar, a se proteger, adotando uma postura mais retraída. Eles falam de forma curta, direta em um ritmo só – ‘sim’, ‘sim, senhor’, ‘não’.
Eu já vinha estudando a voz e o corpo, como aprendi no teatro, então foquei nesse aspecto para entender o Wellington. Ele vai para a prisão aos 16 anos, justo em uma idade que a gente realmente começa a se descobrir como pessoa, entendemos o que é o mundo, o amor, a paixão. O Wellington perde isso.
Quando ele sai dois anos depois, a primeira figura que encontra é o Ronaldo, logo, o Wellington começa a vivenciar esses sentimentos – ainda que tenha dificuldades em demonstrar as emoções. Para mim, era importante colocar uma máscara no personagem, entender tudo o que ele sente e o que está no subconsciente dele, mas sem expor isso de maneira explícita. Se colocássemos isso de forma aberta, o filme cairia no melodrama, o que deixamos mais para o roteiro do que nas atuações. Acho que esse foi o caminho para construir o Wellington de uma forma mais sutil e profunda.
A busca dele é por essa compreensão do que é amor, carinho e cuidado, especialmente em relação à mãe e à família. Eu quis construir um personagem que estivesse sempre nessa busca, sem ter todas as respostas sobre esses sentimentos.
Cine Set – Você mencionou a experiência de visitar a Fundação Casa. Quanto tempo você passou lá conversando com os internos? Como foi essa experiência para você?
João Pedro Mariano – A primeira vez que fui à Fundação foi muito emocionante. Foi bonito e ao mesmo tempo doloroso, porque, embora eu tenha muitos parentes por parte de mãe que fizeram parte do sistema socioeducativo, nunca havia visitado. O dia em que fui coincidiu com a oficina de qualificação que eles oferecem. Era uma oficina de pizza, onde os meninos aprendiam a fazer pizzas, e aquele era o último dia do curso. A família dos internos foi convidada a participar desse evento, então todos se sentaram juntos para cozinhar e comer. Tinha uns 15 meninos na turma, mas, curiosamente, a única família presente era a de um garoto, que estava lá com a mãe, o pai e a avó. Isso me marcou muito. De 15 meninos, apenas um teve a presença da família.
Após isso, voltei à Fundação outras quatro vezes. Nessas visitas, pude realmente conviver com os meninos, entender um pouco da vida deles, ver como era o dia a dia. Teve outras vezes em que fui em dias comuns apenas para observar. Tive a oportunidade de ver onde eles dormiam, como era a estrutura da Fundação, e até conversei com algumas pessoas responsáveis pela administração.
Cine Set – A relação entre o Ronaldo e o Baby passa por várias fases no filme. Há momentos de tesão, de amor, mas também uma relação quase paternal, de irmão, de colega de trabalho e tantas outras dinâmicas. Qual dessas fases mais te toca? Qual momento entre os dois você destacaria como o mais importante ou que mais te chama a atenção?
João Pedro Mariano – Tem uma cena que realmente me marcou muito e, para mim, define bem a relação entre os dois. É quando o Baby sai da Fundação Casa e, com aquele look dele, vai atrás dos pais. Ele vai para a Praça da República, não encontra ninguém e acaba indo parar no cinema, onde encontra o Ronaldo. O Ronaldo é o primeiro a perguntar: “Você já comeu? Está com fome?” Para mim, aqui pega demais! É a primeira vez que o Baby sai de um lugar tão rígido como a Fundação Casa, e o Ronaldo é o único que demonstra um cuidado genuíno, perguntando se ele já comeu, oferecendo um pastel.
Isso é algo tão simples, mas que revela tanto carinho e humanidade. Muitas vezes, nem paramos para perguntar se a pessoa já comeu, se está bem. O Ronaldo tem essa imagem de durão, de homão no início, e aí ele quebra completamente essa percepção com um gesto de cuidado. Ele oferece o que pode dentro da realidade dele, e é justamente isso que eu acho importante na relação deles: é um carinho, uma transformação, um amor que passa por essas questões do trabalho e até da exploração, mas, no fim das contas, é sobre o que eles podem oferecer um ao outro naquele momento.
O Ronaldo, para mim, representa uma dessas pessoas que entram na nossa vida, causam uma transformação, mas depois vão embora. Ficam com a gente de uma forma profunda, deixando essa sensação de: “Meu Deus, o que aconteceu aqui?” Para o Baby, o Ronaldo oferece um abrigo, uma forma de carinho, e é isso que mais me tocou. A relação deles, para mim, é sobre afeto, sobre transformação, sobre amor. É claro que também envolve trabalho e exploração, mas, no fundo, é o que cada um pode oferecer dentro do seu próprio mundo e das suas limitações. E é justamente por isso que o Ronaldo é um dos personagens que mais gosto. Ele é sobre esse afeto genuíno, essa forma de carinho que todos nós buscamos, de algum jeito.
Cine Set – Em uma entrevista, o Marcelo Caetano fala que “Baby” é um filme em movimento e o seu personagem representa muito isso, indo de um lado para o outro a todo momento. Isso casa muito com a própria São Paulo, a qual considero uma protagonista do longa tanto quanto o Wellington e o Ronaldo. Quais pontos você vê em comum entre o Baby, o Wellington e a cidade de São Paulo?
João Pedro Mariano – Se “Baby” não fosse gravado em São Paulo, ele não seria o filme que é. O Marcelo fala muito sobre o movimento, e eu diria que é também sobre a paixão. Não é só a paixão dos personagens, mas também a paixão que a gente tem por São Paulo, especialmente eu, o Ricardo e o Marcelo.
Quando eu tinha 13, 16 anos, eu já dizia que aos 18 queria morar em São Paulo, porque é uma cidade que brilha os olhos. Ela é a cheia de movimento, te leva para todos os lados. Acho que o Wellington tem um pouco dessa energia: em um determinado momento do filme, ele chega a dizer que o pai trabalhava na praça da República, logo, quem vive neste lugar está acostumado com a vida caótica. O Baby é muito influenciado por essa energia da cidade. Você vê essa pulsação da cidade refletida nos personagens.
E tem também uma questão importante no filme: como é ser gay em São Paulo. Quando eu morava em Minas, queria muito ir para São Paulo para poder ser viado, beijar na boca, conhecer gente. Para muitas pessoas gays, São Paulo é um lugar de referência, um lugar de resistência, de vivência. Apesar de ser uma cidade muito hostil e violenta, também tem essa parte de felicidade e resistência.
O Marcelo tem uma maneira única de filmar São Paulo, que já vimos em outros trabalhos dele. Ele filma a cidade com um olhar apaixonado, quase como se fosse uma história de amor. E é interessante porque, quando você começa a amar São Paulo, você não consegue evitar, é um amor complexo, que te pega de um jeito que você não espera.
Cine Set – “Baby” estreou no Festival de Cannes e passou por Chicago, San Sebastián, Bangkok, Florença, além de já ter estreado no circuito comercial. Diante de tudo isso, qual foi a reação mais surpreendente, aquela que mais te chamou a atenção?
João Pedro Mariano – Nossa, foram tantos! Mas, agora, o que está mais me surpreendendo é o pessoal de Taiwan. Eu tenho recebido muitas mensagens de lá, e é muito diferente, porque quando a mensagem vem em inglês eu até consigo entender o que estão falando, mas muitas vezes vem na língua deles e eu não consigo ler. Mesmo assim, dá para sentir o carinho.
Mas uma coisa que me tocou muito aconteceu agora em Tiradentes. Teve uma exibição linda de “Baby” lá. Eu estava do lado de fora, conversando com algumas pessoas, e uma senhora, devia ter uns 75, 78 anos, veio falar comigo chorando muito. Ela chorava tanto que nem conseguia falar direito. E aí eu comecei a me emocionar junto.
Ela conseguiu me dizer que tem um filho trans que estava na Marcha Trans em Brasília, e que tinha ido ao cinema a convite dele. Ela contou que, assistindo ao filme, sentiu uma saudade imensa do filho. Aquilo me marcou muito. Toda vez que eu lembro, aliás, fico emocionado.
Acho muito bonito quando o filme chega nesses lugares, sabe? Pessoas que talvez eu não imaginasse que fossem se identificar — pessoas mais velhas, lidando com temas delicados. Sempre penso que, se a pessoa ficar ali na sala por mais de 20 minutos, ela vai se apaixonar pelos personagens. Porque depois disso, “Baby” vira uma história de amor mesmo, uma história de paixão.
Essa senhora se apaixonou pelos personagens, sentiu falta do filho, entendeu tudo o que eu queria dizer sobre amor, sobre a importância da família, sobre saudade. Foi muito bonito ver isso. Quando o filme toca nessas questões familiares, eu sinto que ele é muito feliz. Essa história é a que mais tem me movido agora. Sempre que lembro, fico superanimado, superfeliz, super emocionado.













