Produtora audiovisual amazonense com formação em jornalismo, Malu Dacio preencheu todas as vagas das duas turmas da Oficina de Criação e Desenvolvimento de Roteiro em Manaus. A busca intensa, com mais de 100 pessoas inscritas, demonstrou não apenas o desejo de um público sedento por conhecimento sobre cinema na cidade como também serve para firmar uma trajetória da artista na cena local.

A equipe do Cine Set entrevistou Malu para saber um pouco mais sobre sua carreira e também entender o motivo da busca incessante de vagas para as suas disputadas oficinas. E, de antemão, podemos citar que a amazonense possui um currículo rico: com experiências desde o campo do jornalismo até o cinema, além de participar da produção de videoclipes de grandes cantores brasileiros.

Malu Dacio em filmagem pela Amazônia. Foto: Letícia Scantbelruy

Cine Set – Quando você se interessou por audiovisual? De onde veio o interesse de fazer cinema?

Malu Dacio – Sempre fui apaixonada por imagens, louca por filmes. Como eu era filha única, minha mãe sempre batalhou pela minha educação. Por ser filha única e ela sempre ter trabalhado bastante, ficamos pouco tempo juntas, logo, minha companhia eram os filmes, as novelas. Cresci nesse ambiente, sabe?

Isso fez com que eu quisesse fazer filmes e trabalhar com cinema. Comecei na fotografia. Trabalhei muitos anos aqui em Manaus como fotógrafa. Depois do meu ensino médio, quando fui ficando mais velha, eu fui entendendo que queria fazer cinema, mas, infelizmente, a formação na cidade sempre foi escassa.

Cine Set – Eu vi que você estudou jornalismo na UFAM. Como foi essa transição do jornalismo para o cinema e o audiovisual?

Malu Dacio – Na minha família já existiam jornalistas, então foi uma coisa próxima ali e, quando eu estava pesquisando as ementas das faculdades na época, percebi que o jornalismo tinha audiovisual no terceiro período, em específico o curso de jornalismo da Universidade Federal. Fiz o vestibular, fui aprovada para o curso e me matriculei justamente por ter a área de audiovisual nos componentes curriculares. 

Mas, com o tempo, também criei uma paixão pelo jornalismo e trabalhei como repórter, com fotojornalismo e assessoria de imprensa. Em 2020, entrei no jornal A Crítica e pouco tempo depois me tornei coordenadora de audiovisual no jornal e portal A Crítica. Ali, a chama acendeu novamente e percebi que queria focar nesse setor. No final de 2023, decidi me arriscar e mudei para São Paulo para me qualificar e focar realmente em projetos audiovisuais.

Malu durante as filmagens do longa “Caminho Ancestral” Foto: Letícia Scantbelruy

Cine Set – Os desafios para o cineasta amazonense são grandes, principalmente para mulheres que também têm esse sonho e procuram se aprofundar no mercado cinematográfico. Pela sua experiência, você observa algum tipo de rejeição ou preconceito por ser uma mulher nortista? Quais são os desafios que você enfrenta principalmente agora trabalhando mais em São Paulo?

Malu Dacio – Acho que vai além do fato de ser uma mulher nortista, né? Uma mulher LGBTQIA+ também, então assim, além disso tudo… eu acho que é se provar, sabe? Eu não sinto rejeição, mas eu sinto que eu tenho que me provar o tempo inteiro. Até a pessoa ver o resultado e falar ‘nossa, realmente você sabe fazer’. Considero que é ainda mais difícil para mim, porque estava trabalhando para os principais veículos de comunicação em Manaus e decidi sair para me arriscar em São Paulo e começar do zero. 

Olhando hoje, eu penso “caraca, que loucura, sabe?” E foi um ato, assim, de buscar o que eu queria mesmo e sinto que tenho sempre que me provar por ser uma mulher e, vindo de onde eu vim, tenho que sempre provar mais do que eu sei fazer, o que eu posso fazer e as minhas habilidades, sabe? Eu acho que é mais nesse lugar.

Cine Set – Percebo que muitos dos seus projetos envolvem o mercado de videoclipes. Como foi a sua entrada nessa área e o que você mais gosta de trabalhar nesse setor musical?

Malu Dacio – Eu sou meio louca por música, gosto muito. Atualmente, trabalho com cinema, mas o meu trabalho fixo é com música. Trabalho em um escritório que gerencia carreiras de artistas em São Paulo. Sempre estou com um pezinho ali no audiovisual também, em paralelo aos meus trabalhos como diretora, roteirista e produtora. E os meus primeiros projetos fora da faculdade foram com música. Eu fui criada na época da MTV, né? Era uma criança que consumia cultura pop e adorava as divas pop, então assim, cresci com essas influências. 

Sempre amei música, e unir o audiovisual com a música é um privilégio, um sonho, né? Trabalhei na produção do videoclipe das meninas do duo AnaVitória e fui produtora de elenco dos visuais delas, além de trabalhar no disco também como secretária executiva. Recentemente, participei de dois videoclipes da Julia Manikk, uma cantora manauara muito talentosa e um deles, que já foi lançado, se chama ‘Você Não Soube Me Amar’.

Por outro lado, sinto que o mercado de videoclipes é escasso. É muito caro gravar um videoclipe e, às vezes, a resposta do público não chega, sabe? Não é satisfatória. A gente consegue, em alguns momentos, enxugar bastante o orçamento e entregar o material mais acessível para artistas independentes. 

Ainda assim, é um ramo que gosto bastante, porque o artista pode extravasar, independente dos números que esse mercado pede tanto. No videoclipe, o cantor pode bater o pé e falar assim: ‘eu sou artista’. Em um videoclipe, o artista consegue mostrar de verdade quem ele é, se expor visualmente. E ter a oportunidade de dirigir isso é sempre um privilégio. Eu amo muito.

“Magia do Amor” foi gravado durante o Festival Folclórico de Parintins em 2024. Foto: Tayna Satere

Cine Set – Você gravou um curta-metragem chamado Magia do Amor em Parintins. Como foi essa experiência?

Malu Dacio – Magia do Amor é um dos projetos mais lindos que eu já trabalhei. Profissionalmente, é o primeiro projeto que eu escrevi e dirigi. Eu não posso falar muito, mas, basicamente, ele conta a história de um ‘Romeu e Julieta’ parintinense e LGBTQIA+. 

Sou filha de cristãos protestantes e, quando era mais nova, minha mãe não gostava que eu assistisse ao Festival de Parintins nem ao carnaval. Então, eu esperava ela dormir e colocava no mudo os carnavais do Rio de Janeiro e de São Paulo na televisão.

Trabalhando com jornalismo, passei a ter o privilégio de conhecer um pouco mais dessa dinâmica e dessa cultura. Comecei a frequentar a cidade e me tornei uma apaixonada pela magia do lugar. E o curta foi a minha forma de demonstrar isso, sabe?

Realizei o filme como projeto final do meu curso do Museu da Imagem e do Som, em São Paulo. Vim para Parintins e, lá, realizei o projeto — foi algo super independente, no qual investi do meu próprio bolso. Foi um trabalho muito especial, que amei fazer.

Todo o filme foi captado lá, em Parintins, com uma equipe linda. Trabalhei com duas atrizes parintinenses incríveis, Helena Xavier e Ranielly Barbosa. Nossa equipe era minúscula: eu mesma dirigi, roteirizei, e minha mãe, Socorro, foi a produtora. Um verdadeiro esforço coletivo e afetivo. Realizei um sonho ao trabalhar com a Tayna Satere, que, para mim, é uma das melhores diretoras de fotografia do norte do país. Uma artista indígena incrível e que o mundo precisa conhecer.

É um filme muito bonito, que mostra a riqueza da nossa cultura popular. Espero de coração conseguir finalizá-lo, distribuí-lo, e que ele possa iniciar sua jornada pelos festivais. Tenho muita dificuldade em reconhecer meu próprio trabalho, mas esse filme… esse filme é uma joia. Tenho muito orgulho disso e espero que ele tenha uma vida longa, muito além do que já tem hoje.

Cine Set – Você já tinha uma relação com Parintins antes de Magia do Amor, afinal, trabalhou atrás das câmeras na cobertura do Festival de Parintins para a Rede Calderaro de Comunicação. Como foi esta experiência? 

Malu Dacio – Essa experiência mudou a minha vida. Comecei no jornalismo e, por meio dele, me apaixonei pelos bois, pela cultura parintinense.

Gravamos o filme em 2024, e meu envolvimento com o festival começou em 2023, quando trabalhei na cobertura. Sempre tive essa curiosidade de conhecer mais sobre Parintins. Tenho família no Amazonas e, depois de adulta, pude finalmente me aproximar dessa cultura, que se tornou parte de quem eu sou. As pessoas reconhecem isso. Quando falam de mim, associam automaticamente à imagem do festival e dos bois, tanto o Caprichoso, quanto o Garantido.

Tenho um respeito profundo pelos dois lados. Isso vem muito da minha formação como jornalista. Conheci o festival e os bois a partir da minha atuação jornalística, e fui ensinada a lidar com tudo isso com muita imparcialidade, profissionalismo e respeito. Participo das festas do Garantido, Caprichoso, Alvorada, Boi de Rua. Sempre estive presente nesses momentos com muito respeito e comprometimento.

Quando falo dos bois, falo dos dois com orgulho, com amor e sempre exaltando o que essas entidades folclóricas têm de melhor.

“Caminho Ancestral” é um mergulho na Amazõnia feito por Malu Rocha Foto: Phael Rocha

Cine Set – Soube que você está produzindo seu mais novo longa-metragem “Caminho Ancestral”. O que podemos esperar desse filme? Você pode contar um pouquinho mais sobre ele, qual a previsão de estreia e expectativa com este projeto?”

Malu Dacio – Caminho Ancestral é um sonho. Um sonho profundo. Fui agraciada pelos nossos ancestrais, pelas nossas forças encantadas. Fui abençoada com o privilégio de desenvolver esse projeto. Escrevi o roteiro, fizemos a pesquisa com muito cuidado, e agora estamos na fase de produção e finalização da pré-produção.

Esse é um documentário que fala sobre retomada, sobre memória, sobre honrar quem veio antes de nós. É um projeto que ainda não foi gravado, mas que tenho fé que um dia será. Caminho Ancestral fala sobre identidade, sobre como fomos ensinados a nos distanciar da nossa história. Fala dos desafios que encontramos quando decidimos caminhar no sentido oposto ao do apagamento. Porque é isso que nos foi imposto: o distanciamento.

Nós, amazônidas, fomos vítimas de um apagamento. Não sabemos nossas histórias. Não conhecemos o nosso passado. Não sabemos quem veio antes de nós. Fomos ensinados a naturalizar o esquecimento, a não valorizar nossos ancestrais.

O documentário é um convite. Um chamado para descobrirmos a nossa história, para buscarmos nossas origens e tratarmos nossa memória com o carinho e o respeito que ela merece.

Minha história pessoal atravessa esse documentário. Meus pais são do interior do Amazonas. Nasci em Manaus, minha mãe também, enquanto meu pai é de Manacapuru. A família da minha mãe é da região da tríplice fronteira entre Peru, Colômbia e Brasil — Tabatinga. A mãe dela nasceu lá, e até os 65 anos nunca tinha conseguido visitar a cidade natal. Isso diz muito sobre o apagamento que vivemos.

Meu pai é ribeirinho, extrativista. Mora até hoje na beira do rio. Até poucos anos atrás, não tinha luz elétrica. E, mesmo hoje, às vezes, quando ele está lá, é muito difícil para eu conseguir falar com ele. Em pleno 2025, ainda não temos os recursos básicos para as pessoas que cuidam da floresta, que protegem os rios.

Sempre senti esse chamado. Chamo de “intervenção”. Foi como se uma pergunta tivesse surgido dentro de mim e mudado os rumos da minha caminhada. Fui confrontada e, a partir disso, decidi buscar essas histórias, buscar as origens. É sobre isso que fala o documentário.

Mas ele não é apenas sobre mim. Na verdade, é muito menos sobre mim. Embora meus documentários tenham esse caráter mais pessoal e sejam narrados por mim — e eu esteja ali — essas falas também são de muitas outras pessoas. Tenho o privilégio de contar com amigos, ativistas, guardiões de memória que também estão nessa caminhada de retomada e de reconexão com suas raízes.

Não sei quando esse documentário vai estrear. Mas eu tenho fé que o caminho será aberto, que a floresta vai me guiar, e que vamos conseguir produzi-lo. Porque contar essa história é necessário. É urgente. E é um ato de resistência, de cura e de amor.

“Caminho Ancestral” é um longa-metragem que investiga processos de redescoberta identitária e memória. Foto: Reprodução

Cine Set – Para encerrar, quais são suas expectativas em relação ao cinema e o audiovisual para que avancem no cenário amazonense para os próximos anos? 

Malu Dacio – O meu maior sonho é que mais meninas, mais jovens, mais pessoas indígenas, ribeirinhas, pessoas LGBTQIA+, pessoas como eu, com histórias parecidas com a minha, não precisem sair de suas terras, seus territórios, nem passar por tantas dificuldades para viver seus sonhos.

Acho que essa é a minha missão. Sempre falo que minha vida inteira foi construída a partir de escolhas feitas com esse propósito: pavimentar caminhos para que os meus filhos, outras crianças, jovens e futuras gerações não precisem passar pelas mesmas coisas que eu passei. Em muitos aspectos da minha vida, em diferentes áreas, essa foi sempre a intenção. Assim como minha mãe também fez por mim.

Minha mãe não teve oportunidade de fazer faculdade. Trabalhou muitos anos no mesmo lugar, abriu mão de muita coisa da vida dela para que eu pudesse viver coisas que ela não viveu. Isso é parte do legado dela, e esse também é o legado que eu quero deixar.

Quero também que o número de pessoas que vêm de fora, que usam nossos recursos para contar as nossas histórias, diminua. E que, ao mesmo tempo, o número de pessoas daqui aumente. Que sejam nossos povos contando nossas próprias histórias, fazendo arte, produzindo audiovisual, crescendo na cultura… e que esse número só aumente.

–

PS: antes de responder a primeira pergunta, Malu foi muito gentil conosco do Cine Set. “Sempre paquerei muito o Cine Set, sempre fui muito fã do projeto. E sempre achei muito incrível a forma como o objetivo ali acontece, sabe? E fazer cinema aqui na região é um desafio, e fazer crítica de cinema e trabalhar diretamente com cinema é uma dádiva, assim, e há tanto tempo o portal está rolando. E eu, enfim, sempre fui muito fã, sempre acho meio chique falar com vocês. Essa é a minha segunda ou terceira vez agora falando para o Cine Set e eu sempre vou achar chique, eu nunca vou me acostumar. É um trabalho muito importante que vocês fazem”.