Publicado em 2017, Quinze Dias transformou Vitor Martins em um dos principais nomes da literatura jovem nacional ao conquistar milhares de leitores com uma história sobre amor, autoestima e pertencimento. Agora, quase uma década depois, o livro chega aos cinemas em uma adaptação cercada de expectativa pelos fãs.
Em conversa com o Cine Set, Vitor Martins e os atores Miguel Lallo e Diego Lira falaram sobre o longo processo de levar a obra para as telas, a construção dos protagonistas Felipe e Caio, os desafios de adaptar uma história tão querida pelos leitores e a importância da representatividade LGBTQIA+ no cinema brasileiro.
Entre memórias dos testes de elenco, bastidores da produção e reflexões sobre identidade, os três revelam por que acreditam que Quinze Dias pode dialogar não apenas com os fãs do livro, mas com qualquer pessoa que já tenha enfrentado inseguranças na adolescência.
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Cine Set – Quinze Dias é uma obra muito cinéfila com referências pops – O Senhor dos Anéis, Hairspray, por exemplo, – a todo momento. Sendo o livro com uma pegada muito autobiográfica, como o cinema te influenciou na escrita?
Vitor Martins – Sempre fui muito obcecado por cinema, e os filmes sempre fizeram parte do meu processo criativo. Acho até divertido porque, em Quinze Dias, por ser o meu primeiro livro, o Felipe é um protagonista que conversa muito comigo. Esse amor pelos filmes e a forma meio nerd de consumi-los têm muito a ver com quem eu era quando adolescente. No livro, isso aparece de forma ainda mais forte. Por conta de direitos autorais e de questões que não fariam sentido na adaptação, existem muito mais referências cinematográficas na obra original. Inclusive, tenho uma lista no Letterboxd com todos os filmes citados no livro — são mais de 50.
Talvez essa relação com o cinema seja tão presente porque, antes de ser escritor, eu também era ilustrador. As ideias costumam nascer de forma muito imagética na minha cabeça; quando escrevo uma cena, ela acontece quase como um filme. Tenho também uma relação muito forte com cores. Na minha cabeça, Quinze Dias sempre teve os tons vibrantes da capa e foi muito legal perceber como o filme conseguiu capturar essa identidade visual através da direção de arte, dos figurinos e da fotografia. Existe uma unidade muito bonita entre as duas obras.
Quando escrevi o Felipe, que dialogava tanto com o Vitor adolescente, era inevitável incluir referências a filmes e à cultura pop. Era uma das formas que eu encontrava para me enxergar no mundo. A ficção tem esse poder de nos ajudar a reconhecer valores, inseguranças e traços da nossa personalidade através dos personagens. Por isso considero tão importante que o filme exista: Quinze Dias também pode fazer parte do repertório criativo de outras pessoas e inspirá-las a criar.
Cine Set – Miguel e Diego, como que vocês conseguiram estes personagens? Como foi o processo de seleção? Deram algum retorno para vocês do que levou à escolha?
Miguel Lallo – Foi um processo de audição muito longo. As audições foram abertas. Lembro que enviei meu primeiro vídeo em abril e só recebi a resposta em outubro. Entre uma fase e outra havia uma espera enorme, e quem é ator sabe como isso funciona: muitas vezes você faz um teste e só descobre que não passou quando o projeto é lançado. Sou uma pessoa muito esperançosa, então sempre fico pensando que ainda existe uma chance.
O que tornou esse processo especial foi a forma como os testes foram conduzidos. Não era apenas sobre interpretar o personagem. Desde o primeiro vídeo, fomos convidados a falar de sonhos, experiências pessoais e coisas muito íntimas. Isso é raro em testes de elenco e tinha tudo a ver com a essência de Quinze Dias, que é uma história vulnerável e muito pessoal. Como era uma audição aberta, havia milhares de pessoas participando. Não sei o número exato, mas me disseram que foram cerca de 5 mil inscrições até o processo ir afunilando.
Quando recebi a notícia de que tinha passado, senti primeiro um enorme alívio por toda aquela espera. Mas também porque, desde o começo, eu acreditava muito que aquele papel era para mim. Lembro de assistir ao vídeo em que o Vitor anunciava a abertura das audições. No final, ele dizia algo como: “E você que está me ouvindo e é o Felipe, mal posso esperar para te conhecer”. Eu me arrepiei inteiro. Pensei: “Se eu não passar nisso, vou ficar arrasado”.
Claro que protagonizar um filme já é algo muito importante para qualquer ator, mas, no meu caso, existia também um desejo enorme de contar a história do Felipe. Era uma conexão muito difícil de explicar. Por isso, olhando para trás, lembro desse processo inteiro com muito carinho e emoção.
Diego Lira – O mais curioso é que eu não conhecia o livro. O teste chegou até mim de uma forma engraçada. Naquela época, eu tinha acabado de criar coragem para postar vídeos cantando no Instagram. Meu atual agente recebeu o material da seleção para o filme, mas não tinha ninguém com aquele perfil na agência. Um dia, navegando pelo Instagram, ele encontrou um vídeo meu cantando, viu que eu também era ator e entrou em contato. Como eu era bem do interior e desconfiado de tudo, minha primeira reação foi pensar: “Isso é golpe”.
A partir daí, fomos conversando e vieram os testes. Teve essa primeira etapa mais pessoal, em que a gente falava sobre sonhos, sobre quem era, e acho que o que eles mais buscavam nos protagonistas era essência. Quando li o livro para me preparar, pensei: “Caramba, eu tenho uma chance”. Não por atuar bem ou qualquer outra coisa, mas porque me identifiquei muito com o Caio. Assim como o Miguel se viu no Felipe, eu me vi no meu personagem.
Depois veio a construção da nossa química. Foi algo que descobrimos e desenvolvemos juntos nos ensaios. O Vitor costuma dizer que bateu o olho e já sabia quem eram o Felipe e o Caio, mas acredito que essa conexão também nasceu do trabalho que fizemos ao longo do processo. A gente tinha muita vontade de contar essa história e um cuidado enorme com esses personagens, que já eram tão queridos pelos leitores. Existia uma sede de fazer justiça a eles e mostrar ao público que estávamos ali para representá-los da melhor forma possível.
Vitor Martins – O Miguel era uma unanimidade. Brinco que ele foi a Juliette da seleção (risos). Todo mundo olhava para ele e pensava: “É ele”. Assisti a outros testes muito bons, mas quando via o do Miguel, não tinha dúvida. Era o Felipe.
Já no caso do Caio, interpretado pelo Diego, o processo foi diferente. Não eram audições abertas; havia atores mais conhecidos envolvidos e existia uma preocupação sobre qual seria a melhor combinação ao lado do Miguel, que era um estreante e também o protagonista da história. Era um processo mais complexo, porque não se tratava apenas de encontrar um bom ator, mas alguém que funcionasse dentro daquela dinâmica.
Conforme a seleção foi afunilando, cheguei a assistir aos testes dos últimos seis ou sete candidatos porque queriam ouvir minha opinião. E, para mim, foi imediato. Quando vi o teste do Diego, pensei: “É ele”. Claro que eu não tinha nenhum poder de decisão, mas fiz o que podia. Mandei mensagem para o Daniel Lieff e falei: “Acho que tem que ser ele”. E o mais engraçado é que ele respondeu que também tinha gostado muito do Diego. Então comecei a insistir: “Luta por ele, por mim”.
No fim, deu certo. E acho que quem assiste ao filme entende por quê. Principalmente quem já conhece o livro e tem carinho por esses personagens. Quando você vê o Miguel e o Diego juntos em cena, percebe que existe uma química muito natural entre eles. Dá a sensação de que realmente tinham que ser aqueles dois.
Cine Set – O projeto surgiu em 2019, mas somente está chegando às telas agora em 2026. Neste período todo, você esteve sempre envolvido, acompanhando de perto. O que você mais aprendeu sobre o processo de fazer cinema? O que mais gostou e o que mais te exigiu paciência?
Vitor Martins – Foi preciso ter muita paciência e a continuar acreditando. A gente assinou o contrato em 2019 e, logo depois, veio a pandemia. Passamos por anos de incerteza, com pouco incentivo à cultura e vários momentos em que parecia que o filme simplesmente não ia acontecer. Houve épocas em que eu brincava que estaria no leito de morte dizendo: “O filme de 15 Dias vai sair, eu prometo”.
Mas aprendi que o audiovisual brasileiro funciona muito assim: demora bastante para acontecer, mas, quando acontece, tudo ganha velocidade. Foram anos esperando e, de repente, o projeto recebeu sinal verde e, em poucas semanas, o filme estava sendo gravado. Lembro que teve um dia em que recebi a planilha do elenco pela manhã e uma versão do roteiro à tarde. Eu pensava: “Calma, gente, meu coração não aguenta”. Ver nomes como Débora Falabella ligados ao projeto era algo que me emocionava de verdade.
Também aprendi o quanto fazer cinema é diferente de escrever um livro. Na literatura, tudo é possível. Você pode colocar qualquer ideia na página sem se preocupar com limitações práticas. No cinema, cada escolha passa por questões de orçamento, logística e execução. Isso muda completamente a forma de pensar uma história e me fez admirar ainda mais o trabalho de quem transforma um roteiro em filme.
E talvez a parte mais encantadora tenha sido descobrir os bastidores. Eu era um garoto do interior que, de repente, se viu dentro de um set de cinema. Fiquei fascinado pela produção, mas principalmente pelo figurino. Foi uma das áreas que mais me impressionou e que considero um dos grandes acertos de Quinze Dias. Eu não tinha dimensão da complexidade e do cuidado envolvidos naquele trabalho.
Sempre que podia, fazia questão de estar nas gravações. Tinha plena consciência do privilégio que aquilo representava. Ficava quietinho em um canto, observando tudo. Um set tem uma dinâmica própria, uma linguagem própria, e eu não queria atrapalhar. Então aproveitava cada minuto para aprender, observar e absorver aquela experiência, porque sabia que estava vivendo algo muito especial.
Cine Set – Vocês partem de uma material base muito forte que é o livro somado ao roteiro. Qual foi a maior preocupação de vocês para criarem o Felipe e o Caio?
Miguel Lallo – É um privilégio enorme ter um livro para estudar um personagem, porque normalmente a gente trabalha apenas com o roteiro. Em Quinze Dias, eu tinha acesso à vida inteira do Felipe: momentos da infância, conversas com a mãe, pequenas memórias e detalhes que talvez nunca aparecessem no filme, mas que ajudavam a construir quem ele era. Isso me deu um material muito rico para trabalhar.
Além disso, tivemos a preparação com o Roberto Áudio, que foi fundamental. Sinceramente, não existiria o Felipe que está no filme sem esses meses de trabalho ao lado dele. Uma das coisas em que mais nos concentramos foi evitar um estereótipo que eu conhecia muito bem da vida real: o do menino gordo que anda de cabeça baixa, se encolhe e deixa tudo o que acontece ao redor engoli-lo. O Felipe não é assim. Ele sofre, claro, mas reage. Tem senso de humor, responde, encontra maneiras de se proteger e seguir em frente. Eu me conectei muito com isso.
Tem uma cena de que gosto bastante, quando ele atravessa o corredor enfrentando o bullying. Instintivamente, o Miguel talvez abaixasse a cabeça. Mas o Felipe me ensinou a fazer o contrário. A levantar a cabeça e seguir em frente. Ele tem essa postura de quem pensa: “Sim, sou assim. E daí?”. Acho que isso é o que o mantém de pé diante de tantas agressões.
O Beto insistia muito nesse ponto durante a preparação: não deixar o personagem se encolher. Porque, muitas vezes, eu, como pessoa, acabava carregando medos que não eram do Felipe. Houve até um trabalho específico com os atores que faziam os valentões. Fizemos exercícios muito intensos, alguns mais pesados do que qualquer coisa que aparece no filme, justamente para entender aquela dinâmica. E, mesmo nesses momentos, eu tentava preservar essa força do Felipe, essa capacidade de olhar de frente, por mais que doesse.
No fim, acho que essa foi a principal característica que eu não podia perder. O Felipe encontra força no humor, nas referências pop, nas divas que ele admira, em tudo aquilo que o ajuda a construir sua identidade. São essas coisas que impedem que ele sucumba ao bullying e fazem dele um personagem tão especial.
Diego Lira – Com o Caio, a gente teve muito cuidado desde o início. Quando li o livro pela primeira vez, percebi que ele era um personagem que dizia muito através dos silêncios. Ele é um garoto bonito, admirado pelos outros, mas que ainda não se assumiu. Por isso, cada silêncio dele tem um significado. Grande parte do trabalho foi entender o que estava por trás desses momentos: a relação com a mãe, a forma como ele se comporta com os amigos e o cuidado que tem ao escolher o que fala e o que não fala.
Durante a preparação, o Betinho trouxe uma ideia que me marcou muito: o Caio é um herói. É ele quem toma várias das primeiras iniciativas da história. É quem dá o primeiro passo, quem convida o Felipe para novas experiências e quem encontra coragem para mostrar quem realmente é. Isso nos ajudou a fugir da ideia de que ele seria apenas o “menino bonito” da trama. O objetivo era revelar também suas inseguranças, seus medos e suas vulnerabilidades.
Acho que, por isso, o Caio acabou ganhando mais destaque no filme do que tem no livro. Com a preparação, conseguimos acrescentar novas camadas ao personagem sem perder sua essência. E o mais bonito foi ver como isso se encaixou com o trabalho que o Miguel fez com o Felipe. Foi uma construção muito conjunta.
No fim, acredito que a química entre os dois personagens nasce justamente desse processo. Depois de tudo o que construímos juntos, ficou difícil imaginar outros atores nesses papéis. Foi um trabalho feito com muito cuidado e carinho, e acho que isso aparece na tela.
Cine Set – Muito se fala hoje em dia de filmes feitos para fãs. “Quinze Dias” é um sucesso literário com mais de 100 mil exemplares vendidos. Como você acha que o filme se resolve nisso de agradar os fãs, mas também ter voz própria?
Vitor Martins – A gente sempre teve a preocupação de encontrar um equilíbrio entre respeitar os leitores e criar uma obra que funcionasse como filme. Quinze Dias só chegou até aqui porque foi abraçado pelo público. Quando foi lançado, em 2017, eu era um autor estreante e o livro cresceu muito no boca a boca, graças às pessoas que se identificaram com a história e passaram a compartilhá-la.
Por isso, nunca fez sentido criar uma adaptação que ignorasse aquilo que os leitores amavam. Ao mesmo tempo, também sabíamos que não dava para simplesmente transcrever o livro para o cinema. A obra é muito centrada nos pensamentos do Felipe, e isso exige uma linguagem diferente quando chega à tela.
Tivemos muitas conversas com os roteiristas, Victor Brandt e Rai Tavares, para entender o que era essencial preservar e o que precisava ser adaptado para fortalecer a narrativa cinematográfica. Foi um processo de redescoberta da história, sempre com muito respeito à essência do livro.
Lembro de uma discussão perto da versão final do roteiro sobre a frase “O mundo interessa”, que é muito importante para os leitores — muita gente até tatuou essa frase. Ela não estava no filme, e eu senti que precisava estar. Conversamos, encontramos um lugar para ela na história e hoje ela aparece em uma cena muito bonita. Acho que quem tem uma relação especial com o livro vai se emocionar ao vê-la na tela.
No fim, o objetivo foi justamente esse: preservar aquilo que tornou Quinze Dias tão querido pelos leitores, mas criando uma experiência nova para o cinema.
Cine Set – “Quinze Dias” é um filme sobre aceitação de si mesmo ainda que não doure a pílula, deixando claro que há problemas dentro e fora de casa. Como vocês observam que o filme dialoga com todas estas inseguranças que são naturalmente afloradas na adolescência e ganham ainda mais força neste choque constante que vivemos no mundo atualmente?
Diego Lira – O Caio carrega momentos de uma representatividade muito forte. Tem uma cena específica, que não vou detalhar para não dar spoiler, mas que acredito que muitas pessoas da comunidade LGBTQIA+ já viveram ou ainda vão viver de alguma forma. Foi uma sequência delicada, difícil de fazer e que exigiu muito da gente, mas que ficou muito bonita. É uma daquelas cenas que fazem o cinema inteiro prender a respiração.
O que mais me emociona no personagem é a coragem que ele encontra ao longo da história: a coragem de defender quem ama, de enfrentar as próprias inseguranças, de lidar com a família e, principalmente, de se mostrar para o mundo. Ver tudo isso em uma produção brasileira voltada para o grande público tem um significado enorme. Estamos colocando na tela experiências muito íntimas e reais de jovens LGBTQIA+, e isso ajuda a abrir caminho para que outras histórias como essa também encontrem espaço.
Miguel Lallo – Para mim, esse filme já é um sucesso, independentemente de bilheteria ou qualquer resultado futuro. Ele coloca em destaque pessoas que normalmente são marginalizadas, e isso exige coragem. Coragem do Victor Martins lá atrás, quando escreveu uma história que não seguia uma tendência de mercado, mas que falava de algo que precisava ser contado.
E não é apenas um romance entre dois garotos. É a história de um menino gordo vivendo esse amor, algo que muitas vezes a sociedade insiste em dizer que não existe ou não merece existir. Quando o elenco foi anunciado, eu e o Diego recebemos comentários muito negativos, e isso só reforçou para mim a importância do filme. Ele expõe preconceitos que muita gente prefere fingir que não existem.
O mais bonito é que Quinze Dias não fala apenas para um grupo específico. Já recebi mensagens de pessoas com vivências completamente diferentes das do Felipe dizendo que se identificaram com ele. Porque a história não é sobre rótulos; é sobre insegurança, afeto, pertencimento e descoberta. Todo mundo já sentiu alguma dessas coisas.
Por isso considero esse projeto tão importante. Ele ajuda a romper a ideia de que histórias LGBTQIA+ são necessariamente um nicho ou só podem existir em produções pequenas e intimistas. Essas histórias também merecem ocupar espaços amplos, populares e acessíveis. Fazer parte de um filme como esse é algo histórico para mim, justamente pela representatividade que ele carrega e pelo caminho que pode abrir para o futuro.




















