O recifense Marcelo Gomes estava na Amazônia gravando “Relatos de um Certo Oriente”, adaptação do sucesso escrito por Milton Hatoum, quando o mundo parou por conta da pandemia da Covid-19. Ao precisar voltar para casa bem antes do tempo em meio ao caos sanitário e negacionista que tomou conta do Brasil naquele 2020, o cineasta se deparou com uma surpresa: ao dormir, ele não conseguia mais sonhar.  

Assim nasce “Criaturas da Mente”, investigação do diretor de “Cinema, Aspirinas e Urubus” e “Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo” sobre a importância dos sonhos. Neste processo, Gomes apresenta o pesquisador Sidarta Ribeiro, neurocientista especialista na área, para entender sobre este processo do inconsciente.   

Marcelo Gomes conversou com o Cine Set sobre o filme previsto para estrear nos cinemas brasileiros no dia 8 de maio e revela detalhes de “Criaturas da Mente”:

Cine Set – Sonhou hoje, Marcelo?  

Marcelo Gomes – Sim, sonhei (risos). Sonhei com esta entrevista de hoje que ia dar para você, Caio. 

 Cine Set – E como foi? 

Marcelo Gomes – Um pesadelo (risos). 

Cine Set – (risos) Não precisa se preocupar. Vai dar tudo certo… Seus sonhos desde o filme mudaram muito? 

Marcelo Gomes – Antes do filme, eu não prestava tanta atenção ao ato de sonhar. Somente ficava atento quando eu sonhava com os personagens dos meus filmes ou estava filmando, um período em que costumo sonhar bastante. De modo geral, porém, não tinha o hábito de anotar os meus sonhos. 

Quando chega a pandemia, tudo vira de cabeça para baixo: vemos pessoas sonhando demais, outras, como foi meu caso, parando de sonhar ou aqueles que tinham apenas pesadelos. Havia também quem não conseguisse dormir e outros que dormiam demais. Foi um momento em que nos voltamos mais para si. 

Nas conversas que tive com a Letícia Simões, roteirista do filme, e nas conversas com o (pesquisador) Sidarta Ribeiro, temos a ideia para o documentário a partir do dispositivo da minha própria vida: a pessoa que para de sonhar. A grande questão era o que isso queria dizer. Fomos construindo a obra por este caminho. 

No primeiro momento, vivíamos aquele governo fascista que perseguia tanto a ciência quanto o cinema. O Sidarta, por exemplo, como membro da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), era perseguido, o próprio setor sofreu muito corte de verbas. Estávamos concentrados neste andamento político, mas, com o fim da pandemia e do próprio governo, resolvemos nos dedicar mais ao elemento ‘sonho’ dentro da narrativa.  

De uma forma ou de outra, queríamos que este filme extrapolasse a ideia do documentário científico duro, clássico, o qual habita as paredes do universo dos institutos de ciência. O segundo motivo era trazer os conhecimentos africanos e indígenas sobre sonhos, tanto do ponto de vista científico como ancestrais, por acreditar que o Brasil é muito fundamentado em suas raízes nestas duas culturas. Desta forma, entram na história entrevistadas como a Mãe Beth de Oxum, Mãe Lu, Ailton Krenak. 

Com isso, creio que “Criaturas da Mente” se torna um documentário afetivo, íntimo, pessoal. Estas características são marcas do meu cinema; não dá para fazer de outro jeito. Também acho que é um filme com a alma e o pensamento brasileiro. Um exemplo disso é quando a Mãe Lu afirma que tem gente dentro da gente: isso vai de encontro com a ciência do Sidarta. Acredito, inclusive, que a Mãe Beth deveria estar no SUS ajudando em questões de saúde mental, explicando sobre as ervas, afinal, a medicina é feita de vários conhecimentos. 

Cine Set – Durante o filme, você mostra como as culturas de matriz africana e dos povos originários são muito mais abertas que a ocidental – instituições científicas, religiões, mercado – para as possibilidades trazidas pelos sonhos. Por que é tão arriscado para a nossa civilização alcançar algo próximo disso? Por que acha que resistimos tanto? 

Marcelo Gomes – Do meu ponto de vista, o capital é o principal fator para isso não ocorrer. A ciência, por exemplo, traz pesquisadores produzindo pesticidas, enquanto há outros reflorestando a Amazônia. São dois tipos de pesquisas, mas, o peso maior acaba sendo para o primeiro. Também vemos tanto cientistas observando os efeitos da ayahuasca em pacientes depressivos e, por outro lado, há aqueles produzindo medicamentos antidepressivos pesados, cuja eficiência são bastante questionáveis.  

No meio disso, há o mercado que lucra bastante tanto com os pesticidas quanto com os medicamentos antidepressivos. Logo, questiona-se gastar tempo produzindo conhecimento que não irá gerar riqueza como pensar, por exemplo, nas ervas. É a ‘vida útil’ que o Krenak fala em um de seus livros; o conhecimento ancestral afro-brasileiro e indígena tem ajudado muita gente.  

Enquanto isso, vemos coisas como a tentativa de patentear a ayahuasca fora do Brasil por usarem em tratamento antidepressivos, algo absurdo, pois, é um conhecimento ancestral indígena.  

Cine Set – Gostaria de saber sobre o roteiro de “Criaturas da Mente”, afinal, você tem de um lado a proposta de abordar o mundo abstrato dos sonhos ao mesmo tempo que busca pontuar de forma bastante clara o percurso da sua investigação. Como foi se equilibrar nestes dois caminhos?  

Marcelo Gomes – O grande objetivo era não fazer um documentário didático e objetivo, mas, sim uma obra afetiva e investigava, me colocando como um personagem até por ser leigo no assunto, logo, em um patamar parecido com o público. Enquanto personagem, eu mesmo acabei me ajudando na construção do roteiro. Tudo o que tinha dúvida era colocado dentro do projeto. Chegou, inclusive, a perguntar para o Krenak: “como eu vou compreender que o sonho é parte da vida se sou tão racional?”.  

Claro que eu poderia fazer o “Criaturas da Mente” como um filme completamente experimental, onírico, mas, era uma viagem de autoconhecimento. Eu havia fechado várias portas do meu inconsciente, logo, era necessário abri-las. Fazer isso era compreender a importância do ato de sonhar e entender como acessar o inconsciente. Desta forma, chego nas ‘criaturas da mente’, a qual faz parte de coisas externas, das memórias, de coisas que não sei decifrar e, claro, do próprio inconsciente.   

Isso, entretanto, não impede que eu chegue no onírico ao utilizar as animações – algo que não é real – e ao revistar meus filmes imaginando como chego aqui no documentário. Quero que o público fique instigado a imaginar mundos, situações e estimular a curiosidade sem respostas fáceis.  

Cine Set – Você fala que as criaturas da sua mente podem ser externalizadas pelos seus personagens, especialmente, da ficção, talvez, seja sua transcendência. Neste sentido, como ficam os seus personagens de documentários? De que modo eles ressoam algo do seu inconsciente?   

Marcelo Gomes – O grande barato do documentário é quando você vai conhecer a subjetividade da pessoa. Logo, você precisa se abrir, criando uma empatia com aquele sujeito a sua frente para que revele coisas profundas. Isso gera este link emocional entre você e o entrevistado. Em “Criaturas da Mente”, isso aconteceu diversas vezes