O sonho, segundo o documentário “Criaturas da Mente”, é a chave oracular através da qual a humanidade acessou seu passado para traçar seu futuro ao longo da História. É o que está por trás, por exemplo, da experiência do transe ou da incorporação nos terreiros. Esse é o argumento de Sidarta Ribeiro, neurocientista de renome na área, e ponto focal do filme.
Sidarta nos diz que a mente racional, aquilo que chamamos de “eu”, constitui uma parte muito pequena do que realmente somos. Daí seu conceito de “criaturas da mente” que nos habitam. Seu ponto é claro: é preciso deixar de lado os ditames capitalistas de exacerbação do eu e racionalismo maquínico, e promovermos um reencontro com os saberes tradicionais e nossa ancestralidade. Afinal, até nossa recente experiência moderna varrer o sonho para escanteio, a dimensão onírica sempre ocupou papel central na experiência humana.
Com tudo isso concordamos. Mas algo acontece numa conversa de Sidarta com uma mãe-de-santo que me deixou com a pulga atrás da orelha.
A mulher explica a origem da humanidade. Para demonstrar o quão triste o ser humano era antes da invenção da festa, ela diz que, nesses tempos imemoriais, nosso corpo não produzia dopamina. A dopamina, você sabe, é um dos neurotransmissores associados ao prazer e ao bem-estar.
O que significa termos uma mãe-de-santo citando neurotransmissores para justificar nossa tristeza originária? Que a cultura somática se infiltrou até mesmo no terreiro.
Esse é o nome dado às práticas do discurso que colocam o corpo, entendido como uma rede regulável de neurotransmissores, hormônios e sabe-se lá que moléculas mais, no centro da conversa. É quando começamos a dizer coisas como “tal filme é adrenalina pura”, exemplo que roubei da professora Maria Franco Ferraz. Ou então, a explicar a depressão pela falta de algum neurotransmissor no cérebro — e não, sei lá, pela devastação generalizada capitalista.
Nas Humanidades, portanto, quando o termo “cultura somática” aparece, geralmente é em tom de crítica: trata-se de um desdobramento do poder que, apoiado por um discurso cientificista que produz uma cartografia completa do corpo, entende o sujeito como um organismo a ser regulado a nível molecular. Assim, você pode deixar a tristeza de lado e voltar ao trabalho simplesmente ajustando o nível desta ou daquela substância no cérebro (e eu, que uso antidepressivos, não estou sugerindo que eles não nos ajudam).
Então, novamente, o que significa que a dopamina tenha se infiltrado no terreiro? Talvez a mãe-de-santo tenha desejado apenas se fazer entender pelo seu interlocutor, utilizando um vocabulário biomédico que ele indubitavelmente conhece. Mas eu gostaria que Sidarta a tivesse interrompido. Gostaria que ele tivesse dito: “aqui não precisamos dessas formalidades”.
Definitivamente, não acho que Sidarta Ribeiro queira perpetuar qualquer tipo de artimanha capitalista. Pelo contrário, seu interesse parece ser o de, justamente, abrir a ciência ocidental para outras formas de produção de conhecimento. Ele não quer cientificar o transe, mas apontar o transe como experiência válida. E, no entanto, de que modo seus eletrodos e scanners cerebrais se situam dentro da tal cultura somática?
Essa disputa, portanto, ocorre dentro de uma determinada arquitetura de poder. De um lado, Sidarta usa seus aparelhos para defender a importância do sono e do sonhar. Do outro, as farmacêuticas usam os mesmos aparelhos para vender melatonina com carneirinhos sonolentos na embalagem. Que desdobramentos isso gera, eu não sei. Mas a tensão existe, e é ilustrada pela fala da mãe-de-santo. O problema é que o diretor Marcelo Gomes não está tão interessado na questão, senão de forma passageira.
Mas, afinal, e quanto ao filme em si? Bem, ele é ok.
“Criaturas da Mente” parte dos problemas oníricos do cineasta para propor um encontro com o pensamento do Sidarta. No meio do caminho, entram em cena alguns grafismos espiralares animados, uma trilha sonora percussiva apropriadamente atmosférica, imagens de arquivo evocativas, enfim, o pacote completo. Nada fora do esperado.
Na verdade, é tudo tão convencional que chega quase a irritar. Mas vá lá. Sidarta, enquanto comunicador, é extremamente bem articulado, e seu pensamento sempre interessante. Enquanto ele está em cena, estamos bem acompanhados.
Numa nota pessoal: curiosamente, tive sonhos intranquilos na noite passada. Num deles, minha casa recebia mais dois gatos além do casal de felinos que já temos, mas os bichanos não se davam bem e as brigas me preocupavam. No outro, algum tipo de discussão feia irrompia na minha família. Os detalhes me escapam, mas o sentimento geral envolvia culpa e ansiedade. Mau sinal.
Então, quanto a isso, é preciso dar o braço a torcer: pelo menos “Criaturas da Mente” me fez atentar aos sonhos e perceber que, talvez, seja hora de pegar mais leve na vida.













