No meio da batida dinâmica de uma superprodução genérica da Marvel, há um filme digno de nota em Thunderbolts*. É verdade que não se trata de uma nota muito inspirada — exige paciência para suportar várias piadas sem graça ao longo do caminho, além de cenas de ação feitas sem um pingo de originalidade —, mas a aventura comandada por Jake Schreier tem como maior mérito a tentativa de abordar assuntos sensíveis como saúde mental e depressão com relativa coragem — e altas doses de didatismo.
Mais do que a logo da Marvel Studios tomada pela escuridão e a trilha sonora típica do estúdio interrompida abruptamente pelo silêncio, Thunderbolts* revela suas virtudes ao mostrar Yelena (Florence Pugh) admitindo que não está nada bem e sente um profundo vazio dentro de si. A cena a mostra fitando o horizonte do alto de um arranha-céu, prestes a pular — o que ela faz sem nenhuma hesitação. Quantos blockbusters do universo mais popular das últimas décadas, voltado para atrair multidões de todas as idades, teriam a ousadia de abrir um filme com uma insinuação de suicídio?
Como mostram os segundos seguintes dessa sequência — com ironias e a heroína abrindo um paraquedas —, é claro que Thunderbolts* não irá a fundo nessa abordagem. Estamos falando de um filme da Marvel, da Disney, lembra? Ainda assim, chama atenção como o roteiro do trio Eric Pearson, Joanna Calo e Kurt Busiek consegue estruturar a trajetória dos heróis a partir de episódios traumáticos que os assombram. Se são considerados fracassados e descartáveis, não há como ignorar que as respostas para esse destino estão nas dores provocadas pela morte da irmã, pelo fracasso familiar e profissional, e pela dificuldade de se encaixar na sociedade. Sentimentos de desalento compartilhados, de certa forma, por todo aquele mundo em uma realidade sem os Vingadores — mas ainda temerosa diante de uma nova grande ameaça.
Apesar de adotar uma postura exageradamente didática, como se o público fosse incapaz de compreender apenas com aquilo que vê na tela — a frase “você não está sozinho” é dita, sem exagero, umas dez vezes na reta final —, o longa retrata de forma eficiente o horror da depressão. O contraste entre a figura insegura e desengonçada do jovem Robert (Lewis Pullman) e o vazio daquele ser que surge no céu de Nova York — entre o preto e o branco — impressiona pela devastação incontrolável que essas dores podem causar, tanto para si quanto para os outros. Aliás, é nas sequências finais — o ataque à Big Apple e a imersão no mundo da depressão — que Thunderbolts* consegue trazer um mínimo de criatividade visual.
E isso apesar da direção burocrática de Jake Schreier e do piloto automático da Marvel. Falando nos vícios do estúdio, cansa demais a pobreza e a mesmice com que Thunderbolts* — assim como 90% dos blockbusters da franquia — é moldado para se encaixar no modelo consagrado do MCU. Se você trocar as cenas de duelos deste filme pelas de Capitão América: Admirável Mundo Novo, Eternos ou Quantumania, não sentirá diferença alguma. Assistir à sequência de perseguição no deserto protagonizada pelo Capitão Invernal (Sebastian Stan) e lembrar que estávamos diante de Furiosa, com toda a intensidade do comando de George Miller nesta mesma altura de 2024, chega a dar dó — ou raiva mesmo.
Nada pior, porém, do que as piadinhas: a Marvel chegou à fase “tiozão do pavê”, em que você sabe exatamente quando virá a sacada ‘esperta’ no meio da ceia de Natal. Até é possível entender que Thunderbolts* precise de certos alívios cômicos pela temática pesada, mas, quando o humor fica manjado, perde-se o efeito. Cabe a David Harbour, como Alexei, pagar o pato com uma caricatura datada dos russos beberrões — digna de 40 ou 50 anos atrás —, gritando feito maluco por aí.
Com uma atuação muito boa de Florence Pugh, Thunderbolts* consegue se salvar (quase) ileso dos pedágios de uma produção Marvel graças à coragem de tocar em temas delicados para um filme milionário e feito sob comitê. Admito que seja nivelar por baixo, mas, no atual estágio das coisas em Hollywood, o mínimo já é muito.













