Quando Julio Bressane, acompanhado de seu montador e codiretor Rodrigo Lima, subiu ao palco para apresentar seu filme, usou um tom de modéstia. Bressane alertou que o longa de 150 minutos exigia paciência e fez questão de frisar que a obra ainda era um esboço, feito com “os filmes que tínhamos à mão”. Já Lima se adiantou dizendo que aquela era apenas uma das várias interpretações possíveis da história do cinema brasileiro.

E de que se trata este seu “Relâmpagos de Críticas, Murmúrios de Metafísica”, afinal? Basicamente, temos aqui mais um filme bressaneano de montagem, ou seja, feito a partir de fragmentos de outros filmes intercalados e rearranjados na ilha de edição. É o que a dupla de realizadores já havia feito, portanto, no apoteótico “A Longa Viagem do Ônibus Amarelo”. Ali, em suas mais de sete horas de duração, Bressane tecia a memória da própria carreira e analisava o reflexo que ela projetava, a saber, o da própria história do cinema.

O projeto desta vez é mais modesto. Novamente, segundo disseram seus realizadores, trata-se de buscar na filmografia nacional aqueles momentos em que “o cinema se desvela”, em que o fazer-cinema transparece. O que implica dizer que há, ainda segundo os dois, uma certa verve experimental que perpassa toda a nossa história.

Essas coordenadas iniciais são fundamentais porque o filme é, a um só tempo, mais localizado e mais vago que “A Longa Viagem”, de cuja sombra é impossível fugir. Talvez isso explique as reticências dos diretores antes da projeção.

Mas o que a reapresentação de passagens diversas do nosso cinema revela? A inventividade dos cineastas no traquejo daqueles trambolhos a que chamavam de câmeras é um ponto. Um certo erotismo latente, do qual “Ganga Bruta” talvez seja a maior expressão, é outro. Até mesmo Luz Del Fuego aparece aqui em imagens preciosíssimas, dançando nua sobre a Baía de Guanabara.

Terceiro ponto: a história do cinema brasileiro é a história da representação cinematográfica do Rio de Janeiro, que é o cenário por excelência de boa parte das sequências escolhidas. Claro que isso é apenas parte da ficção criadora que Bressane e Lima escolheram compor; daí, talvez, o alerta inicial feito por Lima: esta é apenas uma dentre várias interpretações da nossa história. Ou o evangelho segundo Bressane.

Mas fica mesmo uma impressão de lacuna. Avançando cronologicamente desde os primórdios do filme brasileiro, Bressane praticamente salta dos anos 1940 para os anos 1960. Dali em diante, é o show de Bressane e Sganzerla, únicos cineastas que marcarão presença no restante do filme. Os iniciados na obra bressaneana reconhecerão então todos os greatest hits do mestre, e não só pela aparição de seus filmes seminais da fase Belair, por exemplo. É que já vimos boa parte desse material antes em “A Longa Viagem”.

Claro que esse dispositivo do olhar ao passado já é parte da caixa de ferramentas do diretor há muitos carnavais: trabalhar com um remix de memórias, revisitar as imagens de outrora para informar o projeto de hoje. Mas aqui Bressane ainda está tateando em busca de algo, e ele sabe disso. “Relâmpagos de Críticas” funciona então como um epílogo ao antológico “A Longa Viagem”, mas sem a clareza de foco ou o poder cumulativo de seu antecessor.